O equilíbrio entre a preservação ambiental, as políticas habitacionais e os interesses comerciais, em especial das construtoras, são elementos centrais quando o assunto é a gestão do espaço urbano em Goiânia. Mesmo com o crescimento populacional, não se pode abrir mão da qualidade de vida. Se por um lado espigões são erguidos pela cidade, milhares de famílias ainda vivem em submoradias.
Essa complicada equação deve ser o maior desafio do próximo gestor de Goiânia, conforme explica o cientista político Francisco Mata Machado Tavares, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás (FCS/UFG). O tema, lembra, é transversal, envolve interesses diferentes e até opostos, e gera pressões de diversos segmentos: dos ambientalistas ao movimentos sociais, passando pelos empresários.
Nesse contexto, pode ficar evidente com quais setores a gestão está comprometida, afinal, os recursos financeiros são limitados e o prefeito precisa fazer escolhas. “Ou ele prioriza os proprietários de automóveis, ou o transporte coletivo em detrimento dos espaços destinados aos carros. Ele pode tributar progressivamente o IPTU de lotes sem construção, para favorecer quem deseja acessar o espaço urbano ou descumprir a Constituição e privilegiar a especulação imobiliária”, exemplifica Tavares.
Privado e público
Mas nem sempre essas escolhas são o que parecem. É o que ocorre com os parques de Goiânia, que seriam espaços públicos “privatizados”, em certa medida, pelas construtoras. Quem faz essa leitura é o geógrafo João Batista de Deus, professor do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) da UFG. Ele lembra que ao lado dos parques prédios residenciais são construídos, o que implica em uma espécie de exclusividade do uso ambientes.
“Há, portanto, uma privatização do espaço público. Raramente vemos pessoas que não vivem nesses prédios, são de outras classes sociais ou de outros bairros da cidade, caminhando pelos parques”, avalia o professor. Para João Batista, os espaços públicos de sociabilidade foram deixados em segundo plano, em detrimento dos privados, como os shoppings.
Ele reconhece esses ambientes como espaços de encontro, mas analisa que o consumo sobrepõe às interações sociais, o que gera problemas relacionados ao desenvolvimento sustentável. “Criticam a construção de usinas hidrelétricas, mas não percebem que esse tipo de energia é necessária para manter o padrão de consumo atual”, ilustra.
Líder sim, xerife não!
O perfil de quem vai gerir não apenas a ocupação do espaço urbano, mas a saúde, a educação, a segurança pública e a cultura de Goiânia mudou. De xerifes como o prefeito de Nova York entre 1994 e 2002, Rudolph Giuliani, a gestores que precisam estar sintonizados com os problemas e reivindicações da comunidade que representam.
Na década de 1990, Giuliani se tornou símbolo de chefe do executivo bem sucedido. Ele adotou uma política de “tolerância zero” em relação à criminalidade e viu a taxa de assassinatos despencar 65%.
Nova York foi considerada pelo FBI, a polícia federal norte-americana, a mais segura do país e passou a ser modelo para outros municípios. O centro da cidade foi “limpo”: prostitutas, gigolôs, bêbados e traficantes foram retirados das ruas.
Esse modelo, taxado como higienista, é encarnado no Brasil pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, uma espécie de Jânio Quadros contemporâneo. Se o ex-presidente chegou a proibir o uso do biquíni, Kassab foi além. Oferecer mercadoria berrando o bordão “moça bonita não paga, mas também não leva” também não é possível: os feirantes foram proibidos de fazer barulho. Comer cachorro quente ou qualquer comida de rua? Proibido também.
Xerifões como Giuliani e Kassab já não são mais sinônimos de bons prefeitos, ao contrário. De acordo com o cientista político Francisco Mata Machado Tavares, sai de cena o prefeito durão e entra o líder, que mais do que aptidão profissional precisa ser legitimado perante a comunidade. “Mais do que alguém com muita escolaridade, é preciso que o eleito seja sensível aos problemas da população, ou seja, tenha condições de representá-la”, explica Tavares.
No mote da honestidade e do trabalho
O executivo municipal deve ser eficiente e ético não apenas na gestão das verbas públicas, mas também da própria carreira. Professor de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) e da Universidade Federal de Goiás (UFG), Luiz Signates, que atua na área de consultoria e pesquisa política, destaca que o cidadão procura nos candidatos principalmente duas características: honestidade e dinamismo.
O contexto vivido pelo país, especialmente em Goiás, após a Operação Monte Carlo, que prendeu o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e lançou ao limbo políticos de envergadura nacional, como o senador cassado Demóstenes Torres, valorizou candidatos tidos como éticos e dissociados da rede de relações tecida pelo bicheiro.
Além da conduta avaliada como honesta, o goianiense ainda almeja uma postura semelhante a do ex-prefeito Iris Rezende: a de político dinâmico e realizador. Ele, que se recupera de cirurgia na coluna, está fora da disputa ao Paço, mesmo assim ainda é lembrado pelos eleitores em pesquisas de intenção de voto.
Entre os políticos goianos que disputam o pleito deste ano, o atual prefeito de Anápolis e candidato à reeleição, Antônio Gomide, tem uma imagem parecida. Ele já venceu a edição centro-oeste do Prêmio Prefeito Empreendedor, concurso promovido pelo Sebrae.
Entre suas iniciativas avaliadas positivamente está o polo voltado para o turismo religioso e de negócios. Apesar de cauteloso ao citar nomes, principalmente pelo fato de estarmos no período eleitoral, Signates reconhece que Gomide tem uma imagem positiva, construída por uma atuação política destacada e que “a classe política goiana deveria observá-lo com atenção.”
Novo padrão
Se os escândalos políticos despertam a atenção do eleitor para as condutas éticas, os políticos se veem forçados a aderir a um novo padrão para a gestão das carreiras, ancorado na transparência. “Nem é preciso se tornar um paladino da moral, mas é necessário que a vida política seja pautada por critérios, como a lisura”, ensina Signates.
“Essa série de exigências demonstram que política no Brasil não é mais lugar de corruptos, amadores e de pessoas que confundem o público com o privado”, avalia o professor, ressaltando que a desorganização pode prejudicar o candidato, em especial em situações como a prestação de contas. “Muitas vezes ele não é desonesto, mas se não conseguir comprar as contas pode se tornar inelegível e ter a carreira interrompida”, exemplifica ele.
Quatro estilos no desafio de encarar uma cidade
Rudolph Giuliani
O prefeito de Nova York adotou“tolerância zero” contra a criminalidade
Antônio Gomide
O petista venceu a edição centro-oeste do Prêmio Prefeito Empreendedor
Gilberto Kassab
O modelo “higienista”, é encarnado no Brasil pelo prefeito de São Paulo
Iris Rezende
O ex-prefeito de Goiânia encarna o perfil de político dinâmico e realizador
Remédio contra a amnésia eleitoral
Pesquisar sobre a vida do candidato - aspectos pessoais e profissionais - pode ser o antídoto para a “memória curta” do eleitor. Em geral, a maioria da população não se lembra para quem votou em pleitos anteriores. Essa amnésia é uma brecha para que políticos ficha suja ou que não cumpriram compromissos de campanha deixem de ser punidos eleitoralmente.
Assim, buscar informações sobre o candidato para além do material de campanha e das informações do partido pode impedir que o voto dele seja depositado em figuras pouco confiáveis. De acordo com o advogado e membro do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), Luciano Santos, o eleitor busca políticos ficha limpa e está mais atento sobre a importância de se informar sobre os candidatos.
“O eleitor precisa ficar atento para não cair em armadilhas eleitorais. Ele tem que observar a coligação em que o candidato a prefeito está e quem são esses aliados, pois em caso de falta o vice pode assumir”, lembra Santos. A recomendação torna-se ainda mais válida se os dados da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) forem levados em consideração.
De acordo com o levantamento realizado no ano passado, 128 prefeitos eleitos em 2008 haviam deixado o cargo até fevereiro de 2011. O número parece pequeno diante dos mais de cinco mil chefes do executivo eleitos. E de fato representa apenas 2,3% do total de prefeitos do país, mas na maioria dos casos (65,6%) o motivo do afastamento foi a cassação, sendo que 36,9% deles por infração à legislação eleitoral e em 38,1% por ato de improbidade administrativa.
Presidente do Instituto de Cultura e Cidadania A Voz do Cidadão, Jorge Maranhão destaca que a internet é uma importante aliada do eleitor. Em sites do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) ele pode obter informações sobre os políticos: de gastos de campanha a condenações em tribunais de conta. Para ele, meios alternativos para conseguir referências podem ser explorados.
Maranhão prega a participação ativa de cidadãos mais conscientes para alertar a população sobre temas como a compra de votos. “É necessário mostrar a importância do voto para que tenhamos eleições livres e limpas”, analisa. Agora é aproveitar o tempo que ainda falta o encontro com a urna eletrônica e avaliar as propostas e os candidatos.






