Tribuna do Planalto

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Ano 27 - Nº 1.381   Goiânia, 26 de maio a 1° de junho de 2013
 
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Letras ao vento

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E8-9 02 b

“É a pior tristeza da vida,” desabafa Conceição Lopes Neto, 44, assistente de serviços gerais na Companhia de Urbanização de Goiânia, Comurg. Analfabeta, ela explica a dificuldade de não saber ler num mundo alicerçado pela escrita. “Hoje em dia não é fácil trabalhar quando a gente é analfabeta de tudo, sem saber nada,” conta.
Conceição era apenas uma dos 14 milhões de analfabetos que o Brasil possui, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). Sua situação só ficou diferente depois de começar um curso de alfabetização no trabalho. “Já aprendi coisas demais. Antes, eu não sabia ler e nem escrever meu nome direito,” ri.
Como Conceição, muitos outros brasileiros saíram do analfabetismo absoluto e agora já começam a dar os primeiros passos no universo das letras. De acordo com o Índice de Analfabetismo (INAF) divulgado este ano, o porcentual de pessoas de 15 a 64 anos classificadas como analfabetas reduziu pela metade na última década, passando de 12% para 6%.
“De alguns anos para cá, tivemos o que chamamos de universalização de acesso ao ensino básico ou fundamental, então houve um aumento da quantidade de pessoas na escola. As vagas também foram ampliadas e mais crianças têm acesso à educação, o que não acontecia há alguns anos,” argumenta Fernanda Cury, consultora do Instituto Paulo Montenegro, um dos responsáveis pela pesquisa.
Embora o analfabetismo absoluto tenha diminuído, o domínio completo da língua está longe de ser alcançado pelos brasileiros. A pesquisa, que classifica a alfabetização em quatro níveis (ver quadro ao lado), também mostrou queda no nível pleno, inclusive no curso superior: 38% dos universitários não são alfabetizados plenamente.
Para Fernanda, esse resultado comprova a falta da qualidade do ensino. “As pessoas entraram mais na escola, mas a escola oferecida não teve um padrão de qualidade para que atingissem o nível de aprendizado adequado àquela série. As pessoas estão saindo do nível de analfabeto e de rudimentar e parando no básico. Eles não passam para o pleno porque não estão atingindo a qualidade esperada. E o pleno não é um conhecimento específico. É o que se espera de uma população escolarizada.”
Iniciativas questionáveis
No Brasil, o governo federal mantém um programa de apoio, o Brasil Alfabetizado, e grande parte das gestões estaduais e municipais do país desenvolvem atividades nesse sentido. Até mesmo pesquisas em universidades e iniciativas de empresas privadas e ongs têm-se proliferado no combate ao analfabetismo.
Mas, para a professora da Unesp e presidente da Sociedade Brasileira de Alfabetização (SBAlf), Maria do Rosário Longo Mortatti, é preciso discutir os resultados de tais ações. “Hoje não faltam investimentos e políticas públicas, mas precisamos de mais. Precisamos avaliar o que não está funcionado e porque, apesar de tantos esforços, ainda termos problemas. Essas iniciativas foram muito necessárias e tiveram resultados importantes. Mas é bom recordar que nós não temos tido resultados importantes de iniciativas específicas voltadas para a alfabetização, como programas de formação continuada de professor,” ressalta a pesquisadora.
Maria do Rosário ainda alerta que o problema tem alicerces na cultura do país. Para ela, os brasileiros não dão a devida importância ao ato de ler e escrever. “Não se utiliza a leitura e escrita cotidianamente e esse é o motivo pelo qual não se avança nos níveis de proficiência. Quando o estudante chega à faculdade, a sua preocupação é fazer trabalhos escolares e, convenhamos, para isso bastam os rudimentos da leitura e escrita. Em uma sociedade em que o ler e o escrever não fazem parte, de fato, do cotidiano das pessoas, é muito difícil convencer discursivamente os alunos da importância disso para além das atividades escolares,” explica.
Já Fernanda Cury acredita que as escolas, além do acesso, deveriam garantir um investimento maior na qualidade da educação. Para ela, a sociedade civil e empresas privadas têm um papel fundamental nesse processo, já que elas podem formar e aperfeiçoar a formação de seus funcionários.
Conceição, por exemplo, só conseguiu estudar através do seu trabalho, já que as aulas são oferecidas no horário de expediente. Lá, a auxiliar trabalha seis horas diárias, mas passa três na sala de aula. Ela iniciou os estudos há cinco anos e garante que a vontade de aprender não termina. “Eu sou ruim para soletrar e muita coisa eu ainda não sei, mas antes eu não sabia nada. Estou de férias da escola, mas estou fazendo o curso de computação aqui mesmo na Comurg. É muito bom, porque, quanto mais a gente aprende, melhor é, né?”, sorri.

Em busca de soluções

Na tentativa de pensar e enfrentar os problemas da alfabetização no Brasil, foi criada, em julho deste ano, a Sociedade Brasileira de Alfabetização, SBAlf. A entidade agrega diversos pesquisadores da área, além de professores alfabetizadores e gestores escolares, e conta ainda com o apoio de diversas universidades do país, como Unesp, Unicamp, UFMG, UFMT, entre outras.
“É uma iniciativa de um grupo de pesquisadores que já vêm há algumas décadas pensando e fazendo alfabetização no Brasil. A Sociedade não pretende apresentar a solução definitiva ou miraculosa sobre essa questão. Pretendemos é agregar, congregar e aglutinar o que existe para sabermos que passos dar daqui para frente”, defende a presidente da entidade,  Maria do Rosário Longo Mortatti.
Segundo a presidente, falta uma atenção concentrada para o momento inicial de escolarização das crianças e o intuito da entidade é fomentar uma discussão que se dará principalmente na questão da prática pedagógica. “Não queremos ser mais uma associação burocrática para fazer eco ao que já existe. Nós queremos congregar e agregar, mas também centrar o foco nesse momento específico no âmbito da educação nacional, porque entendemos que isso ainda faz falta nos conjuntos das grandes iniciativas que temos”,revela.
Para a professora e presidente da SBAlf, o acesso à educação pública no Brasil avançou muito nas últimas três décadas, deixando o país numa situação confortável em relação à alfabetização básica. Porém, ela acredita que temos muitos desafios na questão da qualidade do ensino. “Temos de garantir que as crianças, de fato, aprendam a ler e a escrever, que estejam alfabetizadas no sentido de saber utilizar a leitura e a escrita não apenas como domínio de uma técnica, mas também para os usos e funções sociais do ler e escrever,” alerta.

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