Tribuna do Planalto

Desde 1986 Fundador e Diretor-Presidente Sebastião Barbosa da Silva tribunadoplanalto.com.br
Ano 27 - Nº 1.380   Goiânia, 19 a 25 maio de 2013
 
Banner
Banner

Resistências às mudanças. Mas Goiás cresce no Ideb

  • PDF

A3 01

Um ano e meio à frente da Secretaria de Estado da Educação (Seduc) e Thiago Peixoto já tem seu primeiro resultado positivo: as notas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) aumentaram na rede estadual em todas as fases de ensino. Ele admite que houve contribuição de gestões anteriores, mas garante que o impacto maior foi das propostas do chamado Pacto pela Educação, que no último ano gerou resistências entre professores. “Mudamos a curva que era descendente para ser ascendente agora. Isso demonstra que estamos no caminho certo”, disse.
Na primeira fase do Ensino Fundamental, a rede estadual goiana subiu do 8º lugar (nota 4,9) entre as redes de todo o país em 2009 para o 5º lugar (nota 5,3) em 2011. Na fase final deste segmento, em 2005, Goiás era o 10º. Em 2007, foi o 13º e caiu para 15º em 2009. No resultado de 2011, a rede estadual está posicionada na 6ª posição (nota 4,0).  
Já no Ensino Médio, os goianos tiveram o maior aumento, de 16%. Se em 2005 o Estado era o 13º no ranking e nos anos de 2007 e 2009 amargou a 16ª colocação, em 2011, os alunos emplacaram nota 3,6, 5ª maior do país.
Thiago Peixoto recebeu a equipe da Tribuna na manhã de sexta-feira (17), em seu gabinete, no Setor Oeste. Ele confirma que a próxima empreitada é o projeto de escolas em tempo integral. Confira os melhores momentos da entrevista.


Tribuna do Planalto - A sua gestão é marcada por mudanças que geraram resistências. Como o senhor avalia esse período?
Thiago Peixoto - A promoção de mudanças que eram polêmicas, que mexiam com o dia a dia da escola, gera resistência e soma-se a isso a questão política. Foi realmente difícil, mas foi bom porque isso mostrou que estamos no caminho certo.

Esperava este cenário?
Isso é algo que eu esperava, mas não tinha como medir o componente político. Tudo o que vivemos aqui já aconteceu em outro lugar. Mundialmente tem uma mulher chamada Michelle  Rhee que foi secretária de educação em Washington que é o pior sistema educacional dos EUA. Mas essa mulher virou uma espécie de ícone ao promover mudanças no sistema. Tem até um filme muito legal sobre ela, o Waiting for a superman (Esperando pelo super-homem). Em lugar onde educação teve reformas houve resistência e não só aqui em Goiás. É um script.

Quais são os novos desafios?
O potencial nós temos. Os nossos professores são capazes e qualificados, os nossos alunos têm potencial e isso é muito legal, porque, quando você dá oportunidade para o aluno goiano, ele responde de forma positiva. O desafio maior é agora, quando você está entre os cinco, seis do país.  E muitas das propostas que o ministro anunciou como mudanças nós já estamos fazendo.  

Que propostas são essas?
É algo em relação à matriz escolar. Antes, tínhamos escolas com muita autonomia. Isso é bom, mas quando se garante o mínimo. Quando você começa a ter muita distorção, isso passa a ser um problema. Nós tínhamos escolas que davam mais aulas de educação física do que de matemática. Nada contra educação física, mas temos de ter um equilíbrio dentro dessa matriz. Então, a gente desenvolveu uma matriz no ensino médio porque priorizamos as aulas de matemática, de língua portuguesa e de ciências. E isso foi polemico também, mais entre especialistas que questionavam se não estávamos limitando esse horizonte. Mas não, a gente estava garantindo que o mínimo fosse estabelecido e o ministro está defendendo isso agora. Outra coisa legal que ele está defendendo também é o investimento em tecnologia.

O Estado também pretende investir mais em tecnologia na educação?
Sim. Na próxima semana, vamos lançar um projeto preparatório para o Enem e o vestibular por meio de ensino a distancia, com uma tecnologia chamada de o Quadrado Mágico, criada por um gênio do Ita, um menino de 20 e poucos anos de idade chamado Feijão. Ele criou um sistema em que o professor desenvolve as aulas e o aluno aprende no computador. O que é legal nisso é que o aluno tem acesso à aula de uma forma muito mais didática e tranquila, e ele tem acesso a isso no momento que quiser, desde que ele tenha acesso à tecnologia.  E uma proposta que já está em andamento é o currículo mínimo, de referência. E ele (o ministro) também está defendendo isso, porque é garantir que toda escola vai ter um currículo referência.

O Ideb corresponde ao período de 2009 a 2011. Foi na atual gestão que os resultados começaram a aparecer ou será resquício das anteriores?
É lógico que existe um processo, mas nós promovemos em 2011 algumas mudanças muito fortes voltadas ao bom desempenho escolar.  A primeira coisa que fazemos foi estabelecer um diagnóstico trimestral. Essa avaliação é censitária e sabemos agora o desempenho exato de cada escola, de cada aluno. Com isso, a gente consegue dar mais apoio à escola e ao aluno.

Que outras ações da Seduc contribuem para o resultado do Ideb?
O diretor passou a ter um papel diferente na escola. Antes, a escolha dos diretores era feita pela comunidade. Nós mantivemos a escolha da comunidade, mas criamos algumas fases anteriores. Agora ele tem de fazer um curso de gestão escolar focada em aprendizagem e uma prova. Depois ele apresenta um projeto pedagógico e de gestão para a escola e a comunidade escolhe aqueles que passaram por esse processo. No dia que o diretor assume, ele assina uma carta de compromisso com metas e tem uma meta de Ideb, e se ele não cumprir esses compromissos, está sujeito a ser substituído. Além disso, todo diretor de escola está sendo qualificado num curso de pós-graduação em gestão escolar. Antes eles não tinham formação para isso.

E a implementação das tutorias. Elas surtiram o efeito desejado?
Isso foi algo que começou em março do ano passado e que eu entendo que mudou bem essa realidade. A cada quatro escolas existe uma pessoa responsável da secretaria para fazer o acompanhamento pedagógico, dar apoio ao coordenador pedagógico e para o professor. Outro fato importante: os professores não estavam na sala de aula. Eram 14 mil dos 29 mil do quadro. Eles não estavam na sala de aula porque lá é o lugar menos valorizado. Por isso, criamos o bônus para fortalecer quem estava na sala de aula. O bônus garantiu a frequência do professor. Eu entendo que essas mudanças geraram resultados rápidos de curto prazo para gente e mudou uma curva. Eu não quero tirar o mérito de outras gestões, mas os índices estavam caindo. Então, a mudamos a curva que era descendente para ser ascendente agora.  É satisfatório? Não, nós queremos mais.

As placas do Ideb nas escolas vão ser mudadas? Elas terão nova proposta?
Temos de trocar a placa porque agora é outra nota do Ideb. A placa também foi algo polêmico, mas queríamos chamar a atenção para a questão da qualidade. A gente quis que o pai chegasse na escola, olhasse a placa e pressionasse a escola para melhorar a qualidade. Antes a placa ficava dentro da escola, mas agora queremos colocá-la do lado de fora. A intenção é que a pessoa passe, olhe a escola e veja a nota dela.

O ministro da Educação pensa em substituir a Prova Brasil pelo Enem. O senhor concorda com isso?
São coisas diferentes. O Enem não é um sistema diagnóstico de educação, ele é uma forma de entrar na universidade. A Prova Brasil tem um caráter diagnóstico, é diferente. Eu acho que a Prova Brasil, esse sistema de você ter um diagnóstico e promover mudanças, é muito importante, não podemos perder isso.

Recentemente houve a aprovação de 50% das vagas das universidades federais para cotas de estudantes de escola pública. O que pensa?
Do ponto de vista de oportunidades para o aluno da escola pública, é bom. Agora, será que é legal a gente falar que esse aluno da escola pública é pior mesmo, porque ele não tem potencial e então vamos separar as vagas para ele? A gente pode estar formando, no futuro, médicos e doutores não tão qualificados. Será que não é melhor oferecermos essa oportunidade para ele aqui no Ensino Médio ou no Ensino Básico? Eu não sei se é o caminho. Você ter cotas sociais, sim, mas esse número de 50% é exagerado.

Essa proposta, se sancionada, irá vigorar por 10 anos. A ideia é que nesse período o ensino fundamental e médio sejam fortalecidos. O senhor acredita nesta premissa?
Acho que sim. Isso pode gerar uma pressão social nesse sentido. Mas eu tenho medo de que a gente passe a sobrecarregar o aluno como acontece na Coreia. Lá o aluno vai para a escola pública, que é boa, mas como ele tem de entrar na faculdade, e a concorrência é grande, ele tem aula à tarde, a noite inteira para passar nesse vestibular. O que vai acontecer com o aluno de classe média, que tem pais com condição de pagar cursinhos? Ele vai para a escola pública de manhã, e depois vai ficar a tarde e a noite inteira enfiado num cursinho, do contrário não está apto às cotas. Você vai sobrecarregar esse jovem sem necessidade.

E em relação as escolas em tempo integral, quais serão as ações?
São 120 escolas que temos no estado e decidimos, antes de ampliar essas escolas, criar um modelo ideal. Porque elas foram criadas como metas de governo. Então, eles perguntavam  qual seria escola de tempo integral, e a escola escolhida iria receber mais investimentos por parte do estado. O que aconteceu? As piores escolas em termos de infraestrutura entraram. Então, as escolas em tempo integral hoje não têm estrutura física adequada. Então, estamos reformulando esse modelo para depois ampliar. Outra coisa é que a escola em tempo integral em Goiás tinha um modelo de deixar o filho na escola para os pais irem trabalhar, o aluno ficava 10 horas na escola. Qualquer manual básico de educação fala que isso não é recomendado. Os sistemas de escolas em tempo integral no mundo todo são de 7 horas. O que a gente vai fazer agora é o modelo de escola integral para o Ensino Médio, que vai começar já no próximo ano, com 15 escolas do estado inteiro.

Quais serão essas escolas?
A gente mapeou 15 escolas que tinham condições de receber esse ensino. Nós escolhemos escolas tradicionais. O Lyceu de Goiânia, por exemplo, vai ser uma escola modelo nesse aspecto. São escolas que, além de ter infraestrutura para isso, têm referência. Isso é um projeto que tem origem em Pernambuco, no ginásio pernambucano. Eles começaram com uma escola em Pernambuco e hoje já tem 200 lá e 80 no Ceará. Nós vamos começar esse ano aqui em Goiás esse modelo que está dando certo.

O Ensino Médio é bem conhecido pelos altos índices de evasão. Como é que o senhor pretende resolver o problema?
Acho que temos de oferecer ali qualificação profissional. Esse modelo do ginásio pernambucano é combinado com ensino profissionalizante, e é até integral por isso. Temos o foco muito grande nesse modelo de escola em tempo integral que vai ter essa combinação em preparar para o mercado.

O senhor já está preparado para as críticas em relação a esse modelo que é voltado ao mercado de trabalho?
Estamos preparando o futuro desse aluno. Acho que o cidadão saudável tem de ter qualificação profissional e acesso ao emprego, e se isso não for feito na escola, vai ser feito aonde? A gente sabe que vai haver resistência.

E a resistência de professores que criaram um grupo, além do sindicato, para contestar as mudanças?
Isso é normal, é democrático. Ninguém é obrigado a concordar com tudo o que está aqui, assim como não sou obrigado a concordar com eles. A diferença é que eu represento um governo que foi eleito para promover mudanças na educação e eu sou o escolhido pelo governador para fazer isso. Eu respeito a opinião deles, mas eu percebo posições que não olham o mérito da questão, mas de onde partiu. Se saiu da cabeça do governador ou do secretário Thiago, eles são contra.

O senhor acredita que isso é uma questão mais política?
É política também. Mas eu acho que existe pouca análise do mérito de cada ação. Se quisessem sentar aqui e discutir comigo porque é ruim, eu estou aberto. Mas, simplesmente falar que ruim é fácil.

Quais os projetos e prioridades para os próximos anos?
Está tudo escrito. A gente tem um plano e acho que está dando certo. Eu contei algumas iniciativas que acho que deram resultados neste um ano para melhorar o Ideb, mas nós temos 25 iniciativas que compõem o Pacto da Educação e todas elas já estão funcionando. Acredito que o resultado futuro vai sair um pouquinho de cada uma dessas iniciativas.


Quando você dá oportunidade para o aluno goiano, ele responde de forma positiva”

Voce esta aqui Página Inicial