A base do governador Marconi Perillo (PSDB) terá uma ampla batalha interna nas eleições deste ano. Levantamento feito pela Tribuna mostra que em 35 dos 246 municípios haverá confrontos diretos entre PSDB, PSD e PTB, os três principais partidos da aliança. O desafio do grupo governista é conseguir administrar as rivalidades no interior e não deixar que as animosidades vão além do dia 7 de outubro.
Um dos principais motivos apontados para tanto fogo cruzado nas disputas eleitoras são as dificuldades vividas pelo governador – tanto financeiras, quanto com o desgates político pelo seu suposto envolvimento no Caso Cachoeira. Essas questões afastaram o tucano da política do interior do Estado, deixando que as disputas da pré-campanha fossem resolvidas no plano local. Assim, cidades importantes terão eleições com duelos internos na base aliada.
Outro problema foi a criação do PSD, partido que surgiu em setembro de 2011 e que em Goiás é comandado pelo secretário-chefe da Casa Civil, Vilmar Rocha. O PSD se tornou o maior partido da base aliada - fora o PSDB -, mas colocou em xeque a política em vários municípios onde ele recebeu filiações importantes de lideranças de partidos da oposição, como PT e PMDB. Além destes dois fatores, há também a tradicional disputa municipal que, muitas vezes, transcende a polarização entre base e oposição no Estado.
“O PSDB respeita o processo democrático. Deixamos que cada cidade escolhesse os próprios candidatos”, diz o presidente do diretório regional do PSDB, Paulo de Jesus. A opinião de Paulo encontra respaldo na do presidente do diretório regional do PSD, o deputado federal e secretário-chefe da Casa Civil de Goiás, Vilmar Rocha (PSD). “Como presidente, vou defender os candidatos majoritários do meu partido e acho normal que o PSDB e outros façam isso”, garantiu.
Confronto
O problema é que, em algumas cidades, a situação não é tão simples. Em Luziânia e Minaçu, há rivalidade entre os grupos envolvidos e certamente haverá ressentimentos, especialmente dos derrotados. Mas Paulo de Jesus garante que a situação está controlada. “Essas disputas são naturais. Não haverá fratricídio”, resumiu.
Em Luziânia, quinto maior colégio eleitoral de Goiás, a disputa envolve o deputado federal Cristóvão Tormin (PSD), ex-PTB, e Gastão Leite (PSDB), que é o candidato do atual prefeito, Célio Silveira (PSDB). Os dois grupos já caminharam lado a lado, mas a união foi desfeita. Agora, são adversários.
Em Minaçu, as desavenças dentro da base marconista foram tão fortes que culminaram com candidaturas próprias de cada partido. O atual prefeito, Cícero Romão (PSD), já foi do PSDB, e foi eleito em 2008 com o apoio dos petebistas. Ele, porém, resolveu deixar o partido e foi para o PSD.
Com a saída do atual prefeito, os tucanos ficaram livres para lançar o próprio candidato e tinham o apoio do petebista. Pouco antes da realização das convenções partidárias, porém, a relação entre PSDB e PTB também se desgastou, culminando na candidatura do ex-prefeito Joaquim Pires.
Mas a eleição na cidade ainda pode sofrer alterações, já que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) indeferiu o registro de candidatura de Cícero e Joaquim. Ambos tiveram contas das respectivas gestões reprovadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). O prazo final para a decisão do TRE é o dia 23 de agosto.
Formosa
Em Formosa, os problemas na base aliada do governador foram tão fortes que levaram o atual prefeito, Pedro Ivo (PP), a apoiar o candidato da oposição, Ernesto Roller (PMDB), saindo da aliança que teria Itamar Barreto (PSD) como o postulante ligado ao líder tucano.
O problema aconteceu por causa da influência do ex-prefeito Sebastião Monteiro Guimarães Filho, o Tião Caroço, que é conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) e ligado ao governador Marconi Perillo. Ele indicou Pedro Ivo para o primeiro mandato, mas minava a tentativa de reeleição do pepista, que não está bem avaliado pela população. Com isso, a candidatura marconista na cidade ficou com o empresário Itamar Barreto (PSD).
Insatisfeito com o tratamento, Pedro Ivo não quis apoiar o pessedista e acabou por ficar ao lado de Roller, que já foi do PP, mas deixou o partido em embate direto com Caroço, por ter, à época, ficado ao lado do ex-governador Alcides Rodrigues em sua disputa contra o então senador Marconi Perillo. Filiado ao PMDB, o ex-secretário de Segurança Pública é agora o candidato da oposição, mas, ironicamente, tem o apoio do atual prefeito e da máquina administrativa.
Outras disputas
Em outras cidades, os candidatos, apesar de integrarem a base do governador Marconi Perillo, são adversários históricos. É o caso de Nerópolis, onde Fabiano da Saneago (PSDB) e Gil Tavares (PTB) duelam pela prefeitura. Adversários desde 2008 no munícipio, petebistas e tucanos nunca andaram juntos e o processo eleitoral deve aprofundar as diferenças.
Esse trabalho posterior é a segunda parte da estratégia da base governista. Para evitar algum desgaste, as arestas serão aparadas após a eleição. “Vamos deixar para conversar depois que tudo acabar. O certo é que agora o governador [Marconi Perillo] não vai participar da eleição onde tiver mais de um candidato da base”, explicou Paulo de Jesus.
Além disso, segundo o secretário Vilmar Rocha, há a garantia de que os conflitos internos nos municípios não terão ataques pessoais que possam resultar em problemas futuros. “Serão campanhas elegantes e civilizadas nesses municípios. Não queremos que haja nenhum desgaste”, disse Vilmar Rocha.
PT e PMDB fazem trabalho prévio
Diferentemente da base aliaada, PT e PMDB optaram por uma estratégia mais precavida para evitar os desgastes do chamado 'fogo amigo'. Os dois partidos, que possuem uma aliança desde 2008, quando Iris Rezende (PMDB) escolheu Paulo Garcia (PT) para ser vice na sua chapa, afinaram o discurso e agora estenderam a parceria de forma mais efetiva para o interior.
Mesmo assim, há alguns municípios em que a aliança não foi possível. No levantamento feito pela Tribuna, em 12 cidades haverá disputa entre peemedebistas e petistas. Nesses casos, o duelo interno dentro da aliança aconteceu por causa da conjuntura local. “Fizemos um acordo de estarmos juntos no maior número possível de cidades”, disse Valdi Camarcio, presidente do diretório regional do PT.
Outro fator importante para a união dos dois grupos é fortalecer a oposição no Estado. “Aonde nós, separados, daríamos a vitória ao adversário, nos juntamos. Quando havia uma chance igual para os dois lados, cada um optou por lançar candidatura própria”, explicou Valdi.
Mas também houve problemas na relação entre os dois partidos. Em Catalão, o diretório municipal chegou a lançar a candidatura do empresário Álvaro da Aducati. Porém, o diretório estadual defendeu a união com o candidato do PMDB, Adib Elias, para enfrentar um adversário comum, o que acabou acontecendo.
Em outros lugares, porém, não houve como consertar as fissuras na relação, mesmo forçadamente. Em Mineiros, Dra. Ivane será candidata do PT e terá como concorrente o ex-governador, Agenor Rezende, do PMDB.
Em Goianésia, Antônio Otoni, do PT, foi candidato a deputado estadual em 2010 e teve boa votação no município, com 3.491 votos. Ele demonstrou intenção de disputar a prefeitura e chegou a ter o nome aprovado em uma convenção, mas a direção estadual do partido vetou a candidatura própria. Descontente, Antônio expressou sua insatisfação e, apesar do PT estar na coligação junto com PMDB, Gomide deve optar pela neutralidade na eleição de Goianésia.
Apesar das situações, os dois lados acreditam que não deve haver futuros problemas no diálogo entre PT e PMDB. “Eu não acredito nisso. Mostramos que estamos comprometidos ao abrir mão da cabeça de chapa em Goiânia e Anápolis. As outras cidades são problemas locais apenas”, disse o presidente do diretório regional do PMDB, Wágner Guimarães. Caso haja algum desgaste, a solução também já está preparada. “Vamos conversar com os companheiros nos municípios e mostrar que a articulação política estadual é maior do questões municipais”, analisou Valdi. (D.G.)
Fogo amigo entre ‘aliados’
Base do governador Marconi Perillo
Luziânia
* Eleitores: 110.630;
* Candidatos: Gastão Leite (PSDB) x Cristóvão Tormin (PSD);
* A disputa: O deputado Cristóvão Tormin e o prefeito Célio Silveira (PSDB) romperam ligações há algum tempo, o que decretou o racha na base do governador. Tormin é candidato pelo PSD e agregou partidos da oposição, como PMDB e PT. Já o seu adversário será Gastão Chaves, sucessor indicado pelo atual prefeito, aliado de primeira hora do governador.
Formosa
* Eleitores: 65.842;
* Candidatos: Ernesto Roller (PMDB) x Itamar Barreto (PSD);
* A disputa: Mesmo com o confronto entre um governista e um oposicionista, há um racha na base aliada do governo estadual. O prefeito Pedro Ivo (PP), ex-aliado do ex-prefeito e autal conselheiro do TCM, Tião Caroço, desistiu da candidatura, rompeu com o seu padrinho e pôs seu partido para apoiar o candidato do PMDB.
Minaçu
* Eleitores: 27.040;
* Candidatos: Cícero Romão (PSD) x Joaquim Pires (PTB) x Maurides Rodrigues (PSDB);
* A disputa: O ex-tucano Cícero Romão busca o segundo mandato consecutivo no município. Era aliado do deputado Carlos Alberto Lereia (PSDB), mas ambos romperam ligações. Lereia lançou o empresário Maurides Rodrigues. Já Joaquim Pires, ex-prefeito da cidade, entrou na disputa nos últimos momentos, devido a divergências com os tucanos.
Cristalina
* Eleitores: 29.833;
* Candidatos: Edu Martini (PTB) x Luiz Attie (PSD);
* A disputa: Luiz Attie é o atual prefeito e disputa a reeleição. Na eleição de 2008, ainda no DEM, ele foi apoiado pelo PTB, mas, no decorrer da gestão, houve desentendimentos, que culminaram no fim do apoio. Os petebistas acabaram virando oposição ao governo municipal com a mudança do atual prefeito para o PSD.
Nerópolis
* Eleitores: 20.090;
* Candidatos: Fabiano da Saneago (PSDB) x Gil Tavares (PTB);
* A disputa: O petebista está em busca do segundo mandato no município. Os tucanos, que foram adversários em 2008, continuaram do lado contrário ao atual prefeito. Por conta disso, o PSDB lançou a candidatura de Fabiano da Saneago, já que os grupos não caminhavam juntos no município.
São Luís de Montes Belos
* Eleitores: 23.396;
* Candidatos: Mércia Tatico (PTB) x Sandoval da Matta (PSD);
* A disputa: Os candidatos são de grupos que têm história de rivalidade na cidade. Sandoval, atual prefeito, venceu a eleição pelo PRB. No ano passado, com a criação do PSD, ele mudou de partido. Por causa disso, haverá um confronto entre dois partidos da base marconista no município.
Oposição (PMDB-PT)
Catalão
* Eleitores: 62.107;
vCandidatos: Adib Elias (PMDB) x Álvaro da Aducat (PT);
* A disputa: A candidatura de Álvaro ainda é incerta. Uma ala do PT quer que o partido encare o pleito, enquanto outra parte, respaldada pelo diretório regional, defende o apoio a Adib. O TRE indeferiu a candidatura petista, dando força ao movimento que defende o atrelamento aos peemedebistas numa união para enfrentar a candidatura do PSDB.
Goianésia
* Eleitores: 44.422;
* Candidatos: Jalles Fontoura (PSDB) x Gilberto Naves (PMDB);
* A disputa: A eleição é polarizada entre PSDB e PMDB, mas na pré-campanha o prefeito Gilberto Naves perdeu um aliado poderoso. Com um bom desempenho nas eleições de 2010, quando concorreu a deputado estadual, Antônio Otoni (PT) rompeu com o peemedebista e apoia hoje o tucano Jalles.
Santa Helena
* Eleitores: 27.920;
* Candidatos: Alcir Elias (PT) x Judson Lourenço (PMDB);
* A disputa: Alcir Elias é o candidato da base da atual prefeita,
Raquel Rodrigues (PP), que está no segundo mandato e não pode disputar reeleição. O peemedebista Judson é ex-prefeito do município e adversário histórico da pepista. Os dois terão pela frente o ex-peemedebista Cristian Gomes (PSDB).
Mineiros
* Eleitores: 37.106
* Candidatos: Agenor Rezende (PMDB) x Dra. Ivane (PT)
* A disputa: PT e PMDB terão um adversário em comum na cidade, o tucano Júnior da Citro Cinco. Porém, o momento é de rivalidade entre ambos. Ivane teve um bom número de votos para deputada estadual, em 2010. Animada pela boa votação, ela decidiu disputar a prefeitura. O PMDB não quis apoiá-la, pois Agenor é nome forte no município e quase venceu em 2008.
Confira o número de confronto entre partidos aliados pelo Estado (confronto direto, na cabeça de chapa):
15
PSDB X PSD
12
PT X PMDB
10
PSDB X PTB
9
PTB X PSD







