Tribuna do Planalto

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Ano 28 - Nº 1.440 Go­i­â­nia, 13 a 19 de julho de 2014
 
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Como lidar com a deficiência intelectual

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Dentre os inúmeros desafios com os quais se deparam os educadores que trabalham com a inclusão, receber um aluno com deficiência intelectual pode ser um dos mais complexos. Este desafio fica ainda maior quando a dificuldade na aprendizagem é vista como novidade para a família, que, em muitos casos, só toma conhecimento sobre o distúrbio quando a criança vai para a escola.
Diretora do Centro Municipal de Apoio à Inclusão (CMAI) Brasil di Ramos Caiado, Mércia Chavier afirma que há um número significativo de casos em que a deficiência não se torna aparente para a família nos primeiros anos da infância, fator que dificulta o diagnóstico precoce. “O verdadeiro diagnóstico chega, às vezes, no processo de alfabetização por volta dos 5 anos. É somente por meio da comparação com as outras crianças que as dificuldades daquelas que têm deficiência intelectual se tornam evidentes.”  
Os problemas relacionados ao diagnóstico tardio advêm da falta de estímulos cognitivos que poderiam ser dados desde os primeiros meses de vida. “Se percebido antes da entrada no espaço escolar, essa criança pode ser estimulada desde muito cedo e isso será de grande valia para o seu  desenvolvimento”, explica Mércia.
Quais são os sinais que podem dar aos pais as primeiras indicações de que a criança possui déficit intelectual? “O primeiro detalhe a ser percebido é o atraso neuropsicomotor, a criança demora a andar ou a falar”, explica a neuropsicopedagoga Ana Débora Lopes. “Quando o diagnóstico é realizado, muitas vezes os pais alegam que não tinham percebido essas dificuldades. Mas nós podemos contar com o fator negação e também com a resistência de ver que o filho tem uma deficiência”, pontua.

Acompanhamento
Uma vez diagnosticada a deficiência, é preciso tomar algumas providências para garantir que aquela criança receba os estímulos necessários para o seu desenvolvimento intelectual, emocional e social.
Nesse caso, o acompanhamento com uma equipe multiprofissional - composta por psicólogos, psicopedagogos e terapeutas ocupacionais - e a permanência na escola regular são fundamentais. “O primeiro passo é encaminhar essa criança para um local onde ela irá receber os estímulos cognitivos e adaptativos”, explica a psicóloga Heloiza Regina Vaz Pinto. “Dependendo do nível da deficiência intelectual são crianças e adolescentes que vão ter dificuldades com cuidados de higiene, por exemplo. Mas eles podem aprender a se cuidar, então um dos objetivos da estimulação é fazer com que a pessoa se torne a cada dia mais funcional e autônoma”, enfatiza.
A rede regular de ensino, por sua vez, irá proporcionar às crianças com deficiência intelectual algo imprescindível para o desenvolvimento social e emocional de qualquer ser humano: o convívio com seus semelhantes. “Como todas as outras, a criança com deficiência intelectual  precisa conviver com pessoas da mesma idade que ela, independente do nível de inteligência que elas tenham”, explica Heloiza.
Ana Débora acrescenta que os ganhos advindos da convivência com as outras crianças não são restritos àquelas que possuem deficiência intelectual, mas se estendem a toda a sociedade. “Se o objetivo maior da política inclusiva é a socialização, eu posso trancar essa criança em casa? Até mesmo as que não são educáveis no sentido de aquisição e autonomia de vida prática devem frequentar a escola para sociabilizar com as outras e também para que as pessoas que não têm necessidades especiais entendam que é perfeitamente possível conviver com o que é diferente. Ali eu crio também uma educação sem preconceito, de aceitação e de valorização à vida”, ressalta.

Saiba mais

O que é a deficiência intelectual?
É a limitação em pelo menos duas das seguintes habilidades: comunicação, autocuidado, vida no lar, adaptação social, saúde e segurança, uso de recursos da comunidade, determinação, funções acadêmicas, lazer e trabalho. As causas variam e são complexas, englobando fatores genéticos, como a síndrome de Down, e ambientais, como os decorrentes de infecções e uso de drogas na gravidez, dificuldades no parto, prematuridade, meningite e traumas cranianos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 5% da população mundial tem alguma deficiência intelectual.


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Com estímulos adequados, crianças com deficiência intelectual possuem amplas possibilidades de aprendizado

Didática diferenciada

O que se pode esperar de uma criança com deficiência intelectual? É possível adquirir qualquer tipo de conhecimento? A psicopedagoga Ana Débora Lopes explica que a deficiência intelectual já foi bastante mistificada por estar relacionada à falsa ideia da não aprendizagem.
Atualmente, no entanto, sabe-se que todo ser humano aprende a seu modo e a seu tempo. “Pode não ser da forma como o pai ou a mãe queriam, mas esse sujeito aprende. A criança com déficit intelectual grave, que não conseguia vestir a própria roupa e que depois de um acompanhamento e de muito esforço começa a se vestir sozinha, com certeza adquiriu um aprendizado”, ressalta.
Se é fato que todos aprendem, as crianças com deficiência intelectual, quando recebem estímulos cognitivos adequados, têm um horizonte amplo de possibilidades à frente, o que torna sua permanência na escola ainda mais significativa.
Todavia, os educadores devem lançar mão de recursos didáticos diversos para ganhar a atenção daquele aluno que têm dificuldades no aprendizado e garantir que a inclusão seja efetiva dentro da sala de aula. “Se ele tem uma criança com dificuldade intelectual, não vai poder passar um quadro só de textos. Vai ter que usar recursos visuais e auditivos para favorecer a aprendizagem”, pontua Ana Débora.
A especialista ressalta que  o ganho não é só da criança com déficit intelectual, mas da sala toda, pois quando se estimula o maior número possível de funções, a aprendizagem será mais ampla.
A psicóloga Heloiza Regina Vaz Pinto acrescenta a necessidade do educador estar por dentro de como se dá o processo de  desenvolvimento psicossocial e cognitivo. “É de primordial importância que os professores tenham a disposição para aprender cada dia mais. Aprender principalmente as formas de intervir: como é que se trabalha, como é que se ensina uma criança ou um adolescente com deficiência intelectual? Porque só assim ele será capaz de responder e intervir no caso da deficiência intelectual e outras dificuldades também”, conclui.

famílias relatam suas histórias

Estéfany Ferreira de Souza, 10  anos,
tem deficiência intelectual, e a família só recebeu o diagnóstico quando ela tinha 7 anos de idade. Os indicativos de que algo estava diferente só apareceram quando ela apresentou dificuldades sérias para assimilar conteúdos na escola. “As professoras falavam que ela não conseguia aprender nada, e que não prestava atenção na sala de aula”, conta Sônia Maria Ferreira, tia da garota.
Após ser diagnosticada com deficiência intelectual, Estéfany esperou um ano por uma vaga no CMAI. Mas Sônia atesta que a espera valeu a pena, já que após dois anos recebendo o atendimento multiprofissional especializado, Estéfany é outra criança. “Antes ela não brincava com as outras, agora ela brinca. Não tinha interesse em fazer as tarefas de casa e agora ela tem”, conta.
Quando percebeu as dificuldades enfrentadas pela sobrinha no tocante à aprendizagem, Sônia cogitou a possibilidade de tirá-la da rede regular, mas logo mudou de ideia.“Lá na escola ela tem os coleguinhas da mesma idade e ela pode interagir com eles. E isso é muito importante”, ressalta.

Gustavo Pereira de Carvalho, 15:
Demorou para nascer, este atraso causou-lhe um déficit intelectual. Atualmente aluno da 6ª série, ele enfrenta sérias dificuldades para acompanhar a turma  já que até hoje não foi plenamente alfabetizado.“Ele está há dois anos no CMAI, e desde então já aprendeu bastante, mas a parte da leitura continua sendo um desafio para ele”, conta Neuraci Carvalho dos Santos, tia de Gustavo.
Os motivos para a permanência de Gustavo na rede regular são muitos, mas Neuraci enfatiza a importância da convivência com outras crianças.“Se ele não frequentasse a escola, como ele estaria agora? Uma criança que não vai à escola não sabe se comportar com ninguém”.
Expectativas em relação ao aprendizado do sobrinho não faltam à Neuraci. Mas ela sabe que é preciso respeitar o tempo dele e oferecer os recursos necessários para que ele se desenvolva dentro de suas potencialidades. “Não adianta eu querer que ele aprenda da noite para o dia porque ele não vai aprender. Ele é diferente dos outros e eu tenho que aceitar. A gente precisa trabalhar e buscar pessoas que possam nos ajudar”, ressalta.

Patrícia Araújo de Medeiros, 11::
Teve epilepsia quando tinha 18 meses de vida. As convulsões decorrentes da doença causaram-lhe deficiência intelectual. “Ela entrou na escola aos 6 anos de idade, mas o aprendizado dela é pequeno comparado ao das outras crianças”, pontua o pai da garota, Francisco Rodrigues de Medeiros.
A ideia de tirar a filha da escola regular já passou pela cabeça de Francisco, mas o bom senso falou mais alto, assim como a esperança de que na escola ela poderá se desenvolver. “A pediatra nos garantiu que ela é capaz de aprender. E nós já notamos o quanto ela evoluiu desde que começou a ser atendida no CMAI. Agora ela já se veste, toma banho sozinha, penteia o cabelo”, relata.
Francisco pontua, no entanto, que o interesse dos professores na inclusão das crianças especiais é primordial no processo de aprendizado. “A professora deste ano é bem melhor, porque nos anos anteriores eu não sentia que elas estavam dedicadas. Pois se a criança já tem dificuldades no aprendizado, é papel do professor tentar ajudar da forma como puder”, ressalta.

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