Nos bastidores da política goiana, não há dúvidas de que os desdobramentos da Operação Monte Carlo da Polícia Federal (PF) – que investigou os esquemas econômicos e políticos do contraventor Carlinhos Cachoeira - estão longe de acabar. A deflagração da operação, no final de fevereiro, e anúncio do envolvimento de políticos com o grupo de Cachoeira paralisou as articulações visando às eleições para a prefeitura de Goiânia, que ocorrerá em outubro. O tempo, porém, não para e no mês que vem os partidos precisam estar prontos para as convenções municipais. Assim sendo, pré-candidatos tentam vencer a ressaca e voltar às conversas.
A base aliada do governo estadual foi a mais alvejada no episódio. Todos os seus pré-candidatos foram citados de alguma forma na Operação Monte Carlo e herdam os desgastes políticos gerados pelo episódio. Com a aproximação da reta final da pré-campanha, postulantes tentam minimizar suposto envolvimento com esquema de Cachoeira e se fortificar novamente para o pleito eleitoral.
Leonardo Vilela, deputado federal, já havia sido escolhido como pré-candidato tucano à prefeitura de Goiânia, quando Carlinhos Cachoeira foi preso, pontapé inicial da deflagração da Operação Monte Carlo. No início de abril, Vilela foi acusado de ter pedido a Cachoeira emprego para a filha no Instituto de Ciências Farmacêuticas de Estudos e Pesquisas (ICF), grupo pertencente ao contraventor. Leonardo confirmou o contato e disse que não sabia das atividades ilegais do empresário.
Após as denúncias, o presidente regional do PSDB, Paulo de Jesus, anunciou que reavaliaria a pré-candidatura de Leonardo Vilela por meio de pesquisas qualitativas encomendadas pelo partido, em entrevista à Tribuna, no mês passado. A declaração criou um impasse dentro do PSDB e gerou reuniões para afinar o discurso. Embora tenha perdido força no processo, os tucanos voltaram a afirmar que Leonardo segue como pré-candidato do partido.
A questão principal de Leonardo Vilela é que ele ainda é um político pouco conhecido em Goiânia. Foi escolhido com o aval do governador Marconi Perillo (PSDB) para a missão eleitoral na capital. Logo, contava com o apoio do próprio governador para conseguir um salto de popularidade em Goiânia e, assim, fazer frente ao prefeito Paulo Garcia (PT), líder na corrida pelo Paço Municipal de acordo com as pesquisas eleitorais realizadas até o momento.
O problema é que o governo acabou chamuscado pela Operação Monte Carlo. Segundo pesquisa Serpes, encomendada pelo Jornal O Popular e divulgada na semana passada, o governo é reprovado por 48,9% da população goianiense. Faltando menos de dois meses para o início de campanha, o período é muito curto para que o governador possa arrumar a casa e ainda ajudar Vilela em sua caminhada eleitoral.
Mesmo assim, o deputado mantém a sua pré-candidatura e nega qualquer envolvimento com esquemas ilegais de Carlinhos Cachoeira. Não vê o partido querendo rediscutir o seu projeto nem crê que a baixa popularidade do governo possa influenciá-lo. “Se tiver influência é mínima. Em 2004, o governador apoiou o Sandes com a base toda unida e ele nem foi para o 2º turno. O que estará em jogo são as questões do município”, acredita.
Reavaliação
Após o início da divulgação dos documentos e áudios da Operação Monte Carlo da PF, o deputado federal Jovair Arantes, pré-candidato do PTB à prefeitura de Goiânia, sumiu da mídia. Até então, estava super estimulado por uma candidatura na capital. Mesmo com um histórico de colocar seu nome na disputa, mas recuar na última hora, Jovair vinha ganhando corpo como candidato. Dizia a todos que em 2012 seria a sua vez de disputar o pleito, e que merecia o apoio do restante da base por fidelidade dele ao grupo governista, principalmente ao governador Marconi Perillo.
Logo no início da deflagração da Operação Monte Carlo, Jovair foi flagrado em um telefonema a Carlinhos Cachoeira, onde o deputado pedia apoio a sua futura campanha. O petebista se justificou dizendo que o apoio a que se referia era um apoio lícito, por se tratar Cachoeira de um empresário conhecido em Goiás. Afirmou ainda que todos os deputados goianos são amigos do contraventor.
Depois disso, Jovair saiu de cena. Congelou seu projeto eleitoral e espera os desdobramentos do episódio para decidir como procederá em Goiânia. Mesmo que seu suposto envolvimento com Cachoeira seja considerado “leve” em comparação a outros políticos de Goiás, toda a exposição negativa parece ter causado efeito. As informações de interlocutores do deputado apontam que o petebista fará pesquisas para reavaliar sua postulação. Em meio a tantas incertezas, poderá passar a vez.
O deputado estadual Sandes Júnior (PP) está na outra ponta do processo. O seu envolvimento com Cachoeira, se confirmado, é considerado grave. A toda hora surgem novas gravações envolvendo o petista ao chefe da contravenção. Segundo a PF, Sandes Júnior pediu diversos favores a Cachoeira, desde equipamentos de rádio, passando por financiamento de pesquisas e até mesmo patrocínio para o time de futebol de seu filho fazer uma viagem ao exterior. Em outra gravação, Cachoeira e Sandes discutem a divisão do dinheiro de uma suposta indenização que o deputado receberia de uma rádio.
Antes do Caso Cachoeira vir a tona, Sandes já estava com a pré-candidatura encaminhada, com o apoio quase certo do PR. Hoje, a sua candidatura continua a depender só dele, já que controla o diretório metropolitano do PP. Ser candidato, porém, ficou politicamente inviável após as denúncias. Na pesquisa Serpes, Sandes aparece com mais de 40% de rejeição em Goiânia, número que acaba com qualquer pretensão de concorrer. A Tribuna tentou contato com o deputado, mas ele não atendeu aos telefonemas.
Francisco Júnior é opção governista
Em meio a tantas baixas na base aliada, o Palácio das Esmeraldas estuda alternativas para a eleição na capital do Estado. O deputado estadual Francisco Júnior (PSD) é o plano B favorito dos governistas, segundo fontes palacianas. O parlamentar tem baixa rejeição em Goiânia, não tem envolvimento com Carlinhos Cachoeira e conhece bem a capital. Vale lembrar que Francisco foi secretário de Planejamento da prefeitura de Goiânia, na gestão de Iris Rezende (PMDB), e foi o principal elaborador do Plano Diretor.
A candidatura de Francisco com o apoio da base aliada, porém, não é tão fácil como se imagina. Em primeiro lugar, o PSD ainda não sabe se contará com o tempo de propaganda no rádio e na televisão. Como foi criado em setembro do ano passado, o partido aguarda a decisão do TSE. O julgamento foi iniciado no fim de abril, mas acabou suspenso por pedido de vistas do ministro Dias Toffoli. O PSD vencia por 2 a 1, mas ainda não há data para a retomada da votação. Se não contar com o tempo de TV, o partido se enfraquecerá na mesa de negociações da base aliada.
Outro ponto em questão, no caso de candidatura de Francisco Júnior, seria a saída de Leonardo Vilela do processo. O deputado deixou a secretaria estadual de Meio Ambiente e foi escolhido por uma comissão tucana, liderada pelo ex-prefeito Nion Albernaz, para ser o pré-candidato do partido do governador. Em todo o processo, Leonardo mostrou vontade de concorrer, o que evidencia um problema, caso for rifado do processo.
Há ainda a disputa interna no próprio PSD. Francisco Júnior disputa a indicação com o deputado federal Armando Vergílio, presidente da Comissão Provisória da capital. Nos bastidores, a informação é que Vergílio quer ter o controle do processo, principalmente se o PSD tiver direito ao tempo de TV. O embate é dor de cabeça para o presidente regional do partido, Vilmar Rocha, que também espera para tomar a sua decisão.
A base aliada e seu difícil processo de afunilamento
PSDB
* SPrincipal pré-candidato: Leonardo Vilela, deputado federal;
* SSituação antes do Caso Cachoeira: Leonardo venceu a disputa interna no partido e tentava unir a base em torno do seu nome;
* SSituação atual: Citado em gravações da Operação Monte Carlo, o deputado teve sua pré-candidatura questionada internamente. Ainda é visto como a única opção tucana, mas Palácio estuda outras possibilidades;
PP
* SPrincipal pré-candidato: Sandes Júnior, deputado federal;
* SSituação antes do Caso Cachoeira: Com o diretório metropolitano nas mãos, Sandes tentava articular o apoio do PR para viabilizar sua quarta candidatura à prefeitura de Goiânia;
* SSituação atual: As graves denúncias contra ele fizeram disparar a rejeição em torno de seu nome. Isolado politicamente, vê sua popularidade – que era o principal argumento de sua candidatura – desabar;
PTB
* SPrincipal pré-candidato: Jovair Arantes, deputado federal;
* SSituação antes do Caso Cachoeira: O deputado articulava dia e noite em busca de apoios a sua candidatura. Mirava uma ampla aliança que lhe desse um bom tempo de propaganda na TV;
* SSituação atual: Jovair foi citado na Operação Monte Carlo, mas não ficou caracterizado grande envolvimento com o esquema de Cachoeira. Mesmo assim, o deputado abandonou as conversas e reavaliará sua participação no pleito, antes dada como certa;
PSD
* SPrincipais pré-candidatos: Armando Vergílio, deputado federal; Francisco Júnior, deputado estadual;
Situação antes do Caso * SCachoeira: Os dois deputados disputavam o espaço dentro do partido e a indicação para ser candidato a prefeito da capital;
* SSituação atual: Caso Cachoeira interferiu pouco no partido e a disputa interna continua. A grande questão é se agremiação terá tempo de televisão nas eleições de outubro. De qualquer forma, a decisão do PSD passará pelo governador Marconi Perillo;
PSOL*
* SPrincipal pré-candidato: Elias Vaz, vereador de Goiânia;
* SSituação antes do Caso Cachoeira: O vereador liderava a bancada de oposição no legislativo goianiense e preparava uma candidatura de oposição a Paulo Garcia;
* SSituação atual: Grampos da Operação Monte Carlo mostrou suposta relação íntima entre o vereador e o contraventor Carlinhos Cachoeira. Membros do próprio partido passaram a questionar Elias;
PC do B*
* SPrincipal pré-candidato: Isaura Lemos, deputada estadual;
* SSituação antes do Caso Cachoeira: O partido da deputada havia deixado o Paço Municipal e Isaura lançado a sua pré-candidatura a prefeitura de Goiânia;
* Situação atual: O Caso Cachoeira não mudou nada em relação a sua pré-candidatura. A deputada não foi citada no inquérito e tenta articular alianças para disputar as eleições. Não é vista, porém, como alguém que pode unir a oposição e disputar o pleito com chances;