A sonhada frente de esquerda goianiense idealizada por lideranças do PCB, PSTU e PSOL perdeu força na última semana diante das declarações dadas pelo vereador Elias Vaz (PSOL) colocando-se como pré-candidato a prefeito de Goiânia. Em meio às denúncias contra a Agência Municipal de Obras (Amob) na última semana, ele afirmou à imprensa que seu nome é cotado no partido para entrar na disputa na capital.
De acordo com Elias, o PSOL discute nomes internamente e deverá lançar candidato próprio na capital, atendendo ao “incentivo” dado por lideranças nacionais do partido como a ex-senadora Heloísa Helena e a deputada estadual pelo Rio de Janeiro Janira Rocha – nomes que teriam levantado o nome do vereador como líder que aglutina o partido em prol de um projeto municipal.
O vereador diz ter certa dificuldade em se colocar como pré-candidato, mas diante de “evidências e pesquisas”, ele não descarta a hipótese de deixar a Câmara e disputar a prefeitura. “Se você me perguntasse isso há alguns meses, eu diria que não seria candidato, mas agora, com o incentivo de companheiros, eu avalio a possibilidade”, afirmou.
Tal determinação de ter um candidato próprio colide com o projeto de candidatura pensado pelas lideranças do PCB. Um dos principais nomes da esquerda goianiense, Marta Jane (PCB) afirmou que a proposta inicial era unir os partidos em torno de um programa comum que atendesse aos interesses da cidade e possibilitasse o debate de oposição, e só depois, em um segundo momento, os partidos debateriam qual seria o nome que representaria a frente.
Para Marta, Elias Vaz é um político legítimo para disputar a eleição, mas confessa que sua possível candidatura não foi debatida pelos partidos que formariam a frente de esquerda. “Prefiro não discutir nomes, mas o que me preocupa é se isso não seria um projeto pessoal, acima de um projeto de partido”, questionou a pecebista.
Até meados de outubro do ano passado, a ordem era buscar o máximo de convergência possível dos partidos, para que o candidato saísse fortalecido e centralizasse as discussões da esquerda – otimizando os custos e também o discurso.
Ainda em 2011, os militantes afirmavam terem aprendido com o processo eleitoral de 2010, em que a sustentação de mais de um candidato acabou dividindo, enquanto deveria ter somado em prol do debate e da difusão dos ideais da esquerda.
Para o militante Fernando Leite (PSOL) ainda é muito cedo para que a união da esquerda seja descartada. “Falar que a esquerda sairá rachada é um exagero. Tem muita coisa para acontecer nesse primeiro semestre, muita conversa”, avaliou. O otimismo em relação a uma coalizão entre PSTU, PSOL e PCB também é compartilhado por Alzira Borges (PSTU), que acredita ser necessária a união para que os partidos “somem esforços”. Segundo ela, o PSTU vem chamando essa conversa há tempos, e têm tentado falar com Elias Vaz nos últimos dias. Porém, sem sucesso, ressalta.
De acordo com lideranças do PCB, o que havia sido discutido pelos partidos era a construção do projeto comum e não decisões unilaterais como a do PSOL. Entretanto, Elias Vaz afirmou que os partidos nunca tiveram conversas aprofundadas nesse sentido, e que no ano passado o PCB teria procurado o PSOL colocando o nome de Marta Jane à disposição para que, ao longo do processo de definição de um nome, fosse avaliada a viabilidade de apoio à líder pecebista.
Segundo Paulo Winícius (PCB), o partido não teria procurado o PSOL apresentando nomes ou o nome de Marta, mas sim buscando construir uma proposta que atendesse às demandas da cidade e das causas sociais. Para ele, a discussão da esquerda em Goiânia não deve se limitar ao discurso “água com açúcar” do PT, e deve ser ampliado. “Por isso é importante discutir uma candidatura da esquerda”, afirmou ele.
Tendo em vista a própria trajetória política de Marta Jane na eleição estadual de 2010, Elias Vaz afirma que uma candidatura do PCB é legítima, e que todos os partidos de esquerda possuem “histórico que dá credibilidade para qualquer candidatura dentro destes partidos”.
Consenso
Dentro do PSOL, as mais diversas tendências afirmam que a candidatura do vereador Elias Vaz é legitima e viável. De acordo com Fernando Leite, que faz parte de um grupo não muito afinado com as ideias do vereador, Elias é um bom nome devido ao seu perfil de oposição na Câmara Municipal, e seu trabalho de “fiscal” da prefeitura.
Mesmo colocando-se como quem ainda vai “analisar as possibilidades”, Elias Vaz se diz confiante em relação a uma possível candidatura. O mesmo argumento é compartilhado por outras lideranças do PSOL que se dizem “animadas” em relação ao resultado de uma pesquisa interna do partido, mostrando Elias como um potencial candidato em Goiânia. Os militantes do PSOL não quiseram dar detalhes a respeito da pesquisa afirmando tratar-se de um documento “confidencial”.
Outros nomes também estão sendo discutidos internamente pelo partido, incluindo militantes como Martiniano Cavalcante, e os acadêmicos Cláudio Maia, Henrique Lemos e Gilberto Ricardi. Apesar de ter várias tendências dentro do partido, militantes do PSOL são categóricos ao afirmar que não vão caminhar divididos e deverão trabalhar em prol de uma candidatura forte e sólida dentro da legenda.
Paulo Garcia, o alvo
Ainda que a frente não se consolide, a oposição ao prefeito Paulo Garcia (PT) é consenso entre todas as lideranças da esquerda. O discurso afinado gira, primeiramente, em torno do próprio Partido dos Trabalhadores, que teria “perdido as características da luta de esquerda” desde que se assumiu o poder com a ascensão do presidente Lula (PT). Mas além de críticas pontuais à legenda, são muitas as pautas que serão abordadas pelo candidato ou candidatos da esquerda.
De acordo com Paulo Winícius, é preciso enfrentar a especulação imobiliária e a truculência das empresas de transporte coletivo. “Esse grupo que está no poder representa os interesses econômicos vigentes”, afirmou ele. Para Marta Jane, que fez forte oposição a Marconi Perillo (PSDB) e Iris Rezende (PMDB) em 2010, todo o processo de construção de um plano da esquerda deve priorizar “o campo humano”, abandonado pelas últimas gestões na capital.
“Durante muito tempo a prefeitura focou em obras e não dá a devida atenção em questões relativas ao cidadão, como emprego. É preciso discutir a questão da mobilidade urbana e combater a lógica do enriquecimento das empresas do transporte coletivo”, afirmou Marta.
O próprio vereador Elias Vaz tem cumprido à risca seu papel de opositor à atual administração , seguindo uma tendência própria desde a administração de Iris. Diante do quadro que se forma na capital, o prefeito Paulo Garcia (PT) pode se preparar para forte oposição não apenas por parte da base governista, mas também, vinda da esquerda, que promete ser combativa e crítica em relação à administração petista.
Vereador admite ter diálogo com Marconi
Com seu nome entre os pré-candidatos, Elias Vaz (PSOL) reascende desconfianças em relação à sua lealdade aos interesses dos partidos de esquerda. Nos bastidores, fala-se, por exemplo, de certa proximidade com o governador Marconi Perillo (PSDB), negado veementemente pelo vereador.
“Isso é uma grande besteira. O problema é que se eu faço oposição ao PT ou ao PMDB, logo eu preciso estar respondendo a interesses do PSDB, isso não existe”, afirmou ele. O vereador se mostra aberto ao diálogo e disse não ter nenhuma dificuldade em conversar com Marconi, assim como poderia discutir questões políticas com o prefeito Paulo Garcia (PT), caso fosse convidado.
“Eu até teria conversas com Marconi, não tenho dificuldades em conversar com ele. Mas não tive nenhuma reunião com ele. É preciso entender que se eu fosse deputado estadual, também faria oposição ao PSDB, eu faço oposição aos partidos da ordem.”, explicou Elias.
Dentro do próprio PSOL, fala-se a respeito da flexibilidade do vereador e sua abertura para outros partidos, como o PPS, por exemplo – o que poderia sinalizar uma tendência mais marconista do que de esquerda para muitos militantes.
Lideranças também questionam a legitimidade de Elias Vaz para disputar uma eleição colocando-se como o porta-voz da esquerda. Muitos acreditam que há tempo ele deixou de representar a luta sindical e os interesses de partidos como o PSOL, PSTU e PCB.
Motivação
Outro fator especulativo é o que poderia motivar o vereador a deixar seu mandato e disputar uma eleição majoritária, uma vez que as chances reais de vitória são pequenas e o PSOL poderá perder sua cadeira na Câmara.
Muitos acreditam que assim como outros pré-candidatos da esquerda, ele queira fomentar o debate e discutir as propostas socialistas com a sociedade goianiense. Há quem pense o contrário, e mesmo sem querer opinar de modo direto, questione o que poderia estar por trás de uma possível candidatura de Elias Vaz ao Paço Municipal.








Please wait...