Em 1984, o jovem inexperiente economista Amyr Klink após estudar por vezes o fracasso de americanos para cruzar o Oceano Atlântico a remo decidiu se propor a fazer o mesmo – cruzar da costa da Namíbia, mais especificamente em Lüderitz, até Salvador, no Brasil. Ideia essa que o próprio navegador classificou como idiota, mas que à época, insatisfeito com a trilha de carreira que o banco lhe oferecia, parecia ser a única opção.
Contra a vontade da família, Amyr se propôs a construir um barco com valências que fariam ele chegar inteiro ao outro lado do oceano. Contratou engenheiros e arquitetos navais com os recursos que tinha e logo descobriu o conceito mais importante da sua viagem – não adiantaria construir um barquinho que fosse impossível de capotar, seria necessário construir um que fosse feito para capotar. Por mérito de um sistema também desenvolvido por Amyr e pelo engenheiro Furia, o barquinho não apenas capotava, como também contava com um sistema revolucionário de descapotagem que não vou tentar explicar por aqui.
Não explico porque o interessante mesmo é que Amyr partiu em 1984 após muitos perrengues com a aduaneira da África do Sul e de Luderitz. Como muitos navegadores já haviam morrido na tentativa de atravessar, os países não queriam que o brasileiro fosse mais a alavancar recursos estratosféricos no mar para encontrar seu corpo morto em algum ponto do oceano.
As burocracias todas adiaram a viagem de Amyr por alguns dias, o que mexeu severamente na sua previsão meteorológica. Quando pôde finalmente ir ao mar, Amyr logo se afastou da costa e a história começou.

Desafios para se adaptar a obra
Um dos maiores desafios para adaptar a obra Cem Dias Entre Céu e Mar é o fato de que a jornada é um tanto quanto introspectiva. Existem momentos de tensão, tomadas de decisão e conquistas do personagem principal antes de chegar a terra firme. O filme acerta ao intercalar as cenas do barco (presente) com cenas do passado de Amyr e cenas dos parentes presentes em terra. O drama com o pai também é abordado, mas a impressão é de todas essas relações são frias demais para convencer o expectador que a dureza da contemporaneidade daquela família era traduzida como zelo e amor à época.
Para além da montagem, outro acerto é na caracterização dos personagens que estão perfeitamente construídos para traduzir o que as pessoas reais eram à época.
Felipe Bragança, ator escolhido para viver o navegador, é goiano e já interpretou Sidney Magal. Quando Amyr ficou sabendo da caracterização de Felipe como Magal, desacreditou a principio de que ele conseguiria interpreta-lo no cinema. Porém, Felipe se dedicou ao projeto, perdeu mais de dez quilos e estudou trejeitos (como a famosa piscada de Amyr) e a cadência de sua fala. Tudo isso funciona muito bem no filme – a ponto de esposa e o próprio Amyr admitirem surpresa a felicidade pela caracterização.

Deixaram boas histórias para trás
Ainda assim, deixaram uma parte muito importante para trás: o antes da viagem. No livro, a chegada a Lüderitz e a tensão para liberar o barco causam boas reflexões. É a partir desta construção que se cria o alívio pela partida e a famosa frase “meu único medo era nunca partir” amplamente divulgado na campanha do longa.
Além disso, por mais que o esforço tenha sido extraordinário em criar uma atmosfera oceânica crível e convivência, o filme vive se passa naquele lugar estranho com sensação de “uncanny valley“, quando algo parece muito humano, mas na verdade não é. O contorno do recorte nos atores atuando em meio a chroma-keys e outros objetos digitalmente inseridos chama atenção e, aos olhos mais atentos, pode incomodar. É sério que desde de Titanic não conseguimos trabalhar com água sem apelar tanto para inserções digitiais.
A verdade é que isso não desmerece o longa-metragem que, ao chegar ao final, na praia da espera a ao som de Dorival Caymmi, chega a emocionar. O saldo é muito positivo e isso é muito reconfortante a qualquer um que tenha apreço pela obra e feitos de Amyr Klink.
Klink, apesar de ainda desconhecido por muitos, é um herói nacional. Para ele, as pessoas estão carentes de experiências reais. Para muitos, uma figura um tanto controversa, meio carrancuda, mas um senhor cheio de histórias para contar. O filme pode abrir a porta ao universo da navegação para muitas gerações e, consequentemente, fazê-los entender o quanto nossos oceanos estão mudando e como isso pode afetar nosso planeta e nossas vidas.
No mínimo, também, é que muitos estão chamando de o Into The Wild brasileiro – o que eu desconforto em número, gênero e grau. Não há um manifesto por trás dos feitos de Amyr Klink, muito menos uma intenção utilitarista. O que existe é a vontade de mudar o rumo da própria história, traçar um plano, temer que aquilo nunca saia do papel e se aliviar por simplesmente, um dia, partir.
“Um dia é preciso parar de sonhar e, finalmente, partir”
Amyr Klink













