As mulheres brasileiras comemoram 94 anos do direito ao voto, conquistado em 1932, mas a data escancara um paradoxo: quem representa a maioria do eleitorado ainda é minoria entre os eleitos. Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que a participação feminina na Câmara dos Deputados não ultrapassa 18,4%. No Senado, são apenas 16 senadoras, o que representa cerca de 20% das cadeiras. Enquanto isso, países como México e Argentina já ultrapassaram 40% de representação feminina em seus parlamentos.
O caminho até o voto foi longo. Antes mesmo da regulamentação nacional, o Rio Grande do Norte fez história. Em 1928, a professora Celina Guimarães tornou-se a primeira mulher a votar no Brasil, após decisão da Justiça Eleitoral local. No mesmo ano, Alzira Soriano foi eleita prefeita, a primeira do país e da América Latina a ocupar esse cargo. O decreto de Getúlio Vargas, em 1932, consolidou o direito em âmbito nacional, incorporado à Constituição de 1934. Mas a obrigatoriedade do voto feminino só viria em 1965.
Passadas quase dez décadas, a professora da UNIASSELVI, mestre em Direito, Tatiana de Oliveira Takeda, aponta que os entraves mudaram de forma, mas persistem. “A lei garante candidatura, mas não oferece condições reais de disputa. As mulheres enfrentam desde a falta de financiamento até a violência política, que tenta silenciar e deslegitimar suas vozes”, afirma. A especialista destaca que a divisão desigual das tarefas domésticas também pesa: muitas potenciais candidatas simplesmente não têm tempo ou estrutura para se dedicar à vida pública.
A violência política de gênero é um dos instrumentos mais eficazes para manter as mulheres longe do poder. Ameaças, ataques nas redes e constrangimentos nos próprios partidos fazem parte da rotina de muitas parlamentares. A senadora Augusta Brito reforça o diagnóstico: “Igualdade formal não significa igualdade real. Do ponto de vista da lei, o direito existe. Na prática, as mulheres são testadas, cobradas e atacadas de forma muito mais intensa que os homens”.
Para mudar esse cenário, a professora Tatiana defende medidas que vão além das cotas. “Precisamos de formação política desde a base, redes de apoio que sustentem as candidaturas e uma mudança cultural profunda. Não se trata apenas de ocupar cadeiras, mas de transformar a forma de fazer política”, argumenta. Estudos da ONU Mulheres mostram que, quando eleitas, mulheres priorizam pautas como educação, saúde e combate à violência, áreas essenciais para o desenvolvimento social.
Os 94 anos do voto feminino no Brasil são, ao mesmo tempo, motivo de celebração e alerta. A conquista das sufragistas do início do século XX abriu portas, mas as salas do poder ainda têm poucas cadeiras ocupadas por mulheres. Enquanto a política não refletir a diversidade da sociedade, a democracia brasileira seguirá incompleta. O desafio agora é transformar o direito de votar em real possibilidade de ser votada, eleita e respeitada.













