A Câmara Municipal de Minaçu, norte de Goiás, recebeu uma audiência pública para discutir o potencial das terras raras no município e os impactos econômicos, sociais e ambientais da exploração desses minerais considerados estratégicos para a economia mundial. A iniciativa foi promovida pelo vice-presidente da Comissão de Minas e Energia da Assembleia Legislativa de Goiás, deputado estadual Lincoln Tejota (União Brasil), reunindo representantes do poder público, entidades de classe, especialistas, empresários e moradores da cidade.
O principal objetivo do encontro foi ouvir a população para subsidiar a elaboração de propostas legislativas voltadas ao setor mineral. Durante a abertura, Lincoln Tejota destacou que Minaçu ocupa uma posição privilegiada no cenário nacional por abrigar uma das maiores reservas de terras raras do país, colocando Goiás no centro de uma discussão de alcance internacional.
Segundo o parlamentar, o desafio não é apenas explorar os recursos minerais, mas garantir que essa riqueza seja convertida em desenvolvimento permanente para a população. “Existe um desejo legítimo de que essas riquezas naturais se traduzam em prosperidade local, geração de empregos e desenvolvimento sustentável. O grande desafio é garantir que cidades mineradoras não dependam exclusivamente dessa atividade econômica”, afirmou.
O deputado ressaltou ainda que a audiência integra os trabalhos da Frente Parlamentar das Terras Raras da Assembleia Legislativa e servirá como base para futuros projetos de lei. “Nosso intuito é compreender as demandas, os temores e os anseios da população para construir propostas que garantam equilíbrio entre a exploração econômica e o desenvolvimento sustentável”, disse.
Representando o Governo de Goiás, o superintendente de Políticas para Cidades da Secretaria-Geral de Governo, Yuri Silva Bariani, reforçou que o Estado acompanha de perto o avanço desse mercado e defendeu o diálogo entre sociedade, poder público e iniciativa privada para transformar o potencial mineral em oportunidades de emprego, inovação e crescimento econômico.
Ao longo da audiência, porém, um tema predominou nas manifestações da comunidade. Moradores, empresários e lideranças locais demonstraram insatisfação com a atuação da empresa responsável pela exploração mineral na região. Entre as principais reivindicações esteve a ampliação da contratação de trabalhadores de Minaçu. Segundo os participantes, boa parte da mão de obra atualmente empregada na atividade vem de outros municípios e até de outros estados, o que, na avaliação da população, reduz os benefícios diretos da mineração para a economia local.
Também participaram da audiência o segundo vice-presidente da Câmara Municipal de Minaçu, vereador Bruno de Queiroz Barros; o superintendente regional da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em Goiás, Raimundo Jorge Santos Seixas; representantes da Federação da Agricultura do Estado de Goiás (Faeg), da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, do Corpo de Bombeiros Militar, além de empresários, ex-prefeitos, vereadores e profissionais da imprensa.
Durante o debate, representantes do poder público destacaram a necessidade de que o crescimento da mineração seja acompanhado por planejamento urbano, preservação ambiental e investimentos em infraestrutura. O secretário municipal de Meio Ambiente, Girson Batista Camilo, defendeu que a exploração ocorra de forma responsável, conciliando desenvolvimento econômico e proteção dos recursos naturais. Já o comandante do 8º Comando Regional Bombeiro Militar, major Álvaro, ressaltou a importância da segurança operacional e da prevenção diante da expansão das atividades econômicas.
O debate ocorre em um momento em que o Brasil busca ampliar sua participação no mercado global de terras raras. Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o país possui aproximadamente 21 milhões de toneladas desses minerais, o equivalente a cerca de 23% das reservas conhecidas no mundo. Apesar desse potencial, a produção brasileira ainda é reduzida: em 2024 foram extraídas apenas 20 toneladas, menos de 1% da produção mundial.
Esses elementos são considerados essenciais para a transição energética e para indústrias de alta tecnologia. Estão presentes na fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, baterias, equipamentos médicos, satélites, fibras ópticas, componentes eletrônicos e sistemas de defesa. Atualmente, a China domina grande parte da cadeia global de produção e refino desses minerais, o que aumenta o interesse internacional por novos fornecedores.
Em Goiás, Minaçu abriga a mina Serra Verde, reconhecida como a primeira operação fora da Ásia a explorar depósitos de argila iônica, tecnologia considerada uma das mais eficientes para a obtenção de terras raras pesadas. Especialistas apontam que o grande desafio brasileiro será agregar valor à produção, estimulando o processamento industrial e a fabricação de produtos de maior tecnologia no próprio país, em vez de limitar a atividade à exportação de matéria-prima.
Ao final da audiência, ficou definido que as contribuições apresentadas pela população serão analisadas pela Frente Parlamentar das Terras Raras e poderão subsidiar novos projetos voltados à exploração sustentável desses minerais, com foco na geração de empregos, fortalecimento da economia regional e melhoria da qualidade de vida dos moradores de Minaçu.













