Poucas pessoas compreendem o tamanho do meu vínculo com Nerópolis. Sou da quarta, talvez da quinta geração de uma família que vive naquela região desde antes mesmo de existir o município e antes de aquele lugar receber o nome de Nerópolis. Minha história se confunde com a história daquela terra.
Cresci entre Goiânia e Nerópolis. Costumo parafrasear uma célebre frase de Tancredo Neves quando visitava Goiás e dizia não saber se era mais mineiro em Goiás ou mais goiano em Minas Gerais. Eu também não sei dizer se sou mais goianiense em Nerópolis ou mais neropolino em Goiânia.
Meu primeiro voto foi em Goiânia, ainda muito jovem, na Escola Estadual Jardim América. Mas todas as demais eleições da minha vida foram na Escola José Valente. Foi uma escolha consciente. Escolhi ser cidadão neropolino.
Nasci em 1985, na Maternidade de Maio, em Goiânia. No mesmo ano, porém, fui levado para receber o sacramento do batismo na Igreja Matriz de São Benedito, em Nerópolis. Desde o início da minha vida, minhas raízes estavam plantadas ali.
Outra decisão importante foi escolher viver na propriedade rural da nossa família, na região da Cabeceira do Capivara, em Nerópolis. Embora sempre tenha estudado, trabalhado e desenvolvido minhas atividades profissionais em Goiânia, nos últimos anos decidi dedicar uma parte importante da minha vida à agricultura em Nerópolis. É ali que cultivo a terra, construo projetos e alimento minha esperança no futuro.
Foi justamente por esse amor que vivi, como tantos outros neropolinos, uma das semanas mais dolorosas da história recente da cidade.
A destruição da imagem de Nossa Senhora Aparecida pelo incêndio representa uma daquelas tragédias que marcam uma geração. Um fato que estabelece um verdadeiro ponto de inflexão na memória coletiva da cidade.
A imagem da Padroeira do Brasil, que por tantos anos acolheu moradores e visitantes às margens do lago municipal, foi completamente consumida pelas chamas. O impacto foi imediato. Nerópolis inteira ficou em choque. Os filhos da cidade, de nascimento ou de coração, sentiram profundamente aquela perda.
Mas a comoção ultrapassou os limites do município. O Brasil inteiro voltou seus olhos para Nerópolis. Afinal, Nossa Senhora Aparecida não pertence apenas aos católicos da cidade; ela é a Padroeira do Brasil, um dos maiores símbolos da fé do povo brasileiro. A tragédia despertou solidariedade, oração e emoção em todo o país.
Em momentos como esse, é natural que a emoção fale mais alto. Surgem dúvidas, rumores e acusações. Faz parte da reação humana diante de acontecimentos tão impactantes. Felizmente, as instituições públicas responderam com rapidez. A Polícia Civil conduziu a investigação de forma célere e apresentou respostas em poucas horas, oferecendo esclarecimentos importantes para reduzir a insegurança e as especulações.
Também merece reconhecimento a rápida atuação da Prefeitura de Nerópolis, que acolheu imediatamente a Paróquia São Benedito e iniciou as tratativas para a reconstrução da imagem, sinalizando que aquele símbolo da fé da cidade não permanecerá apenas na lembrança.
Entretanto, a tragédia também revelou questões estruturais que precisam ser enfrentadas.
Os militares do Corpo de Bombeiros fizeram tudo o que estava ao alcance deles. Mas é preciso reconhecer uma realidade conhecida por todos: um efetivo de apenas quatro bombeiros precisa atender Nerópolis e outras sete cidades da região. Nenhum profissional, por mais preparado e dedicado que seja, consegue suprir uma demanda dessa dimensão. Não se trata de apontar culpados, mas de compreender que segurança pública também exige estrutura, investimentos e planejamento.
Da mesma forma, o episódio lança luz sobre a situação do entorno do lago municipal.
O lago, que poderia ser um dos principais cartões-postais e motores do turismo e da economia local, necessita de revitalização. A passarela localizada atrás da imagem da Santa tornou-se espaço de permanência de pessoas em situação de rua, que vivem, elas próprias, abandonadas pela ausência de políticas públicas eficazes. Essas pessoas não precisam apenas ser retiradas dali; precisam, sobretudo, de acolhimento, tratamento quando necessário, oportunidades e dignidade. A cidade deve cuidar dos seus espaços públicos, mas também das pessoas que mais necessitam do Estado.
Talvez a maior lição dessa tragédia seja justamente esta: Nerópolis precisa voltar a se unir em torno de grandes projetos.
Não tenho dúvidas de que a nova imagem de Nossa Senhora Aparecida será belíssima. Talvez ainda mais imponente que a anterior. Ela certamente voltará a abençoar nossa cidade e continuará sendo um símbolo de esperança para todos nós.
Mas a verdadeira reconstrução que Nerópolis precisa vai além do concreto, do aço ou da arte sacra.
Precisamos reconstruir pontes entre as pessoas. Reconstruir a confiança. Reconstruir o diálogo. Reconstruir a capacidade de trabalharmos juntos.
Líderes políticos, líderes religiosos, representantes das entidades de classe, empresários, trabalhadores, instituições e toda a sociedade civil têm uma responsabilidade comum: cuidar do povo e cuidar da cidade, porque ela pertence a todos nós.
Nerópolis não foi construída por uma única geração, nem por uma única família, muito menos por um único grupo político. Ela foi edificada ao longo de décadas pelo trabalho, pela fé e pelo sonho de milhares de pessoas. E continua sendo construída todos os dias.
O futuro da nossa cidade dependerá menos das diferenças que nos separam e muito mais da capacidade de encontrarmos objetivos comuns.
Que das cinzas da imagem de Nossa Senhora Aparecida possa surgir também uma cidade mais unida, mais humana e mais preparada para enfrentar seus desafios.
Porque, no fim das contas, o sucesso de Nerópolis será sempre o sucesso de todos nós.















