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Preço global dos alimentos atinge maior patamar desde 2022

Índice de preços da FAO atinge maior patamar desde 2022, com conflitos simultâneos na Ucrânia e Irã e clima extremo pressionando commodities; no Brasil, açúcar dispara cerca de 24% em agosto


Fábio Prado Por Fábio Prado em 09/09/2026 - 11:55

Preços globais dos alimentos atingem maior patamar desde 2022 - Foto: Getty Images

Conflitos simultâneos na Ucrânia e no Irã, calor extremo na Europa e ameaça do El Niño pressionam commodities. No Brasil, açúcar dispara cerca de 24% em agosto.

O índice de preços dos alimentos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) registrou média de 133,3 pontos em agosto. Esse é o maior nível desde novembro de 2022. O resultado representa uma alta de 1,9% em relação ao mês anterior.

O movimento de alta foi generalizado e afetou todos os grupos de alimentos monitorados pela FAO: cereais, óleos vegetais, açúcar, carnes e laticínios. A entidade acompanha os preços desses produtos no mercado internacional.

O economista-chefe da FAO, Máximo Torero, afirmou que o aumento é um alerta de que o prêmio de risco está retornando aos mercados de alimentos. Segundo ele, choques climáticos, tensões geopolíticas e interrupções na logística comercial estão convergindo para restringir as expectativas de oferta.

O calor extremo e a seca na Europa afetaram as perspectivas para as safras de milho e beterraba sacarina, além da produção pecuária. A ameaça de um fenômeno El Niño severo alimentou preocupações com a produção de óleo de palma e açúcar na Ásia.

Os conflitos geopolíticos também pressionam os preços. A escalada dos ataques no Mar Negro reduziu os embarques de grãos da Rússia e da Ucrânia. O conflito entre os EUA e o Irã prejudicou o fluxo de fertilizantes para as culturas. As interrupções no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas de transporte de petróleo e fertilizantes do mundo, também afetaram a logística global e os custos de produção.

El Niño e as guerras

A combinação desses dois conflitos, somada às condições climáticas adversas, cria um cenário de oferta global mais restrita. Embora a guerra na Ucrânia já dure mais de quatro anos, o conflito no Oriente Médio representa um choque geopolítico mais recente, com impactos diretos sobre o comércio de fertilizantes e a logística internacional.

O açúcar foi o produto que registrou a maior alta no mês passado. Em nível global, o preço ficou, em média, 12% mais caro para os consumidores. O índice de referência da FAO para o açúcar saltou 11%.

No Brasil, a alta foi ainda mais expressiva. Os preços acumulados do açúcar subiram cerca de 24% em agosto, segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada). O indicador do Cepea para o açúcar cristal branco em São Paulo chegou a R$ 113,75 por saca de 50 quilos em 31 de agosto.

A combinação de fatores explica a disparada. A possibilidade de uma produtividade menor no Brasil e na Europa, castigada por forte calor, reduziu as expectativas de oferta. A isenção de impostos pela Índia na importação de açúcar bruto também forçou a alta dos preços.

Os óleos vegetais também pesaram mais no bolso dos consumidores, com aumento de 0,6%. As expectativas do efeito do El Niño no Sudeste Asiático, grande região produtora de óleos vegetais, e a instabilidade no fornecimento de petróleo sustentam os preços. Além disso, o óleo de soja é utilizado cada vez mais para a produção de biocombustível, principalmente nos Estados Unidos.

O milho foi outro componente de alta no índice de preços da FAO, subindo 2,5%. Ainda há dúvidas sobre a produção em parte da região do Meio-Oeste dos Estados Unidos e sobre os efeitos da seca na Europa. A demanda pelo cereal para a produção de etanol é mais um componente nessa formação de preços.

No Brasil, o milho teve alta de 8% no mês passado, segundo o Cepea. O arroz, com demanda maior de países da África e da Ásia, subiu 0,5% na média mundial. No Brasil, com a chegada da entressafra e perspectivas de uma área menor de plantio, a alta foi de 14% em agosto.

As carnes, devido à demanda mundial, tiveram um aumento médio de 1% no índice da FAO. A alta poderia ter sido maior, não fosse a queda de preços das carnes bovina e suína, influenciada pelo cenário de oferta em mercados específicos. O Brasil acompanhou essa tendência, com recuo nos preços da carne bovina e suína no mercado interno.

Apesar da alta, o índice de agosto ainda está quase 17% abaixo do pico recorde registrado em março de 2022, após a guerra em grande escala da Ucrânia com a Rússia.

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