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Burnout cresce 296% em dois anos: quando o trabalho começa a adoecer?

Esgotamento não termina com o expediente e pode provocar insônia, irritabilidade, falhas de memória e afastamento da família; neuropsicóloga alerta para sinais


Redação Tribuna do Planalto Por Redação Tribuna do Planalto em 14/09/2026 - 18:20

Burnout cresce 296% em dois anos: quando o trabalho começa a adoecer?
(Foto: Freepik)

Acordar cansado, trabalhar no limite, responder a mensagens durante a noite e passar o fim de semana tentando recuperar uma energia que nunca parece voltar. Para milhares de brasileiros, o esgotamento profissional deixou de representar apenas uma fase difícil e passou a comprometer a saúde, as relações familiares e a capacidade de continuar trabalhando.

Os afastamentos por burnout e problemas relacionados à organização do trabalho cresceram 296% entre 2023 e 2025, segundo levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho com dados oficiais do INSS.

No mesmo período, os afastamentos por transtornos mentais aumentaram 79%. Foram 219.850 benefícios em 2023 e 393.670 entre janeiro e novembro de 2025. Somente no último ano analisado, o custo previdenciário ultrapassou R$ 954 milhões.

O problema também ocupa espaço crescente na Justiça. Levantamento da plataforma de inteligência jurídica Predictus identificou 22.815 processos relacionados ao burnout entre janeiro de 2016 e abril de 2026. As ações envolveram 11.287 empresas e somaram aproximadamente R$ 9,9 bilhões em valores de causa.

Para a neuropsicóloga Fabiane Fagundes, os números mostram que o esgotamento não pode ser explicado apenas pela maneira como cada profissional administra a própria rotina. “Quando muitas pessoas adoecem em contextos marcados por excesso de trabalho, cobrança constante, assédio, falta de autonomia e ausência de descanso, não estamos falando somente de uma dificuldade individual. É preciso observar também como aquele trabalho está organizado”, afirma.

Nem todo cansaço é burnout

Utilizado frequentemente nas redes sociais, o termo burnout não deve ser empregado para definir qualquer semana difícil ou momento de desânimo.

A Organização Mundial da Saúde inclui o burnout na Classificação Internacional de Doenças como um fenômeno ocupacional resultante do estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente. Ele não é classificado pela entidade como condição médica e se refere especificamente ao contexto profissional.

A caracterização envolve três dimensões:

  • Sensação de exaustão ou esgotamento de energia;
  • Aumento do distanciamento mental, negativismo ou cinismo em relação ao trabalho;
  • Redução da percepção de eficácia profissional.

Uma pessoa cansada pode recuperar-se depois de descansar, reduzir o ritmo ou resolver uma demanda específica. No burnout, porém, a exaustão tende a persistir e a relação com o trabalho se transforma. “O profissional não está apenas com sono. Ele começa a sentir aversão, impotência ou indiferença. Atividades que antes conseguia executar passam a exigir um esforço enorme, e até pequenas demandas podem ser percebidas como insuportáveis”, explica Fabiane.

O corpo começa a avisar

Antes de um afastamento, o trabalhador pode apresentar sinais que são naturalizados como parte da vida adulta ou de uma carreira exigente.

Entre eles estão:

  • Insônia ou sono não reparador;
  • Dores de cabeça frequentes;
  • Tensão muscular;
  • Irritabilidade;
  • Dificuldade de concentração;
  • Lapsos de memória;
  • Sensação permanente de urgência;
  • Queda de produtividade;
  • Erros em tarefas conhecidas;
  • Choro ou ansiedade antes de começar o expediente;
  • Distanciamento dos colegas;
  • Perda de sentido em relação ao trabalho;
  • Alterações no apetite;
  • Uso crescente de álcool, medicamentos ou estimulantes;
  • Incapacidade de descansar sem sentir culpa.

Esses sintomas também podem estar presentes em outras condições. Por isso, a avaliação profissional é necessária, sobretudo quando as manifestações são persistentes e prejudicam a rotina. “Não é recomendável fazer um diagnóstico com base em uma lista da internet. É preciso compreender a duração dos sintomas, a ligação com o trabalho, o funcionamento da pessoa e a possível presença de ansiedade, depressão ou outras condições”, orienta a neuropsicóloga.

Quanto mais comprometido, maior o risco?

O burnout nem sempre começa em profissionais desmotivados. Pessoas responsáveis, perfeccionistas e fortemente identificadas com a carreira podem permanecer por longos períodos em condições insustentáveis.

Elas assumem novas tarefas, evitam pedir ajuda e acreditam que reduzir o ritmo seria uma demonstração de incompetência. Como costumam entregar resultados, o sofrimento pode passar despercebido pelas lideranças. “O profissional muito comprometido pode ser elogiado justamente pelos comportamentos que estão levando ao adoecimento. Trabalhar durante a madrugada, não tirar férias e responder imediatamente a qualquer demanda são tratados como dedicação, mesmo quando já eliminaram todas as possibilidades de recuperação”, alerta Fabiane.

A situação se agrava quando o ambiente premia a disponibilidade permanente e associa limites à falta de comprometimento.

A jornada não termina ao sair da empresa

Celulares e plataformas corporativas criaram uma jornada expandida. O trabalhador deixa o local de trabalho, mas continua acompanhando mensagens, notificações, cobranças e mudanças de planejamento.

Ainda que não responda, pode permanecer em estado de alerta, antecipando o que precisará resolver no dia seguinte. “Descanso psicológico não é apenas estar fisicamente fora da empresa. Se a pessoa continua monitorando o celular e esperando uma nova cobrança, o cérebro não entende que o período de recuperação começou”, explica a especialista.

Com o tempo, atividades pessoais são abandonadas. O profissional deixa de praticar exercícios, encontrar amigos ou conviver com a família porque precisa trabalhar ou porque está exausto demais para fazer qualquer outra coisa.

O esgotamento entra em casa

Embora seja provocado pelo contexto ocupacional, o impacto do burnout não permanece no trabalho. Irritabilidade, indisponibilidade emocional e exaustão podem comprometer casamentos, amizades e relações entre pais e filhos.

A pessoa chega em casa sem energia para conversar, brincar ou participar das decisões familiares. Ruídos, perguntas e demandas comuns passam a provocar reações desproporcionais. “Frequentemente, a família convive com a pior parte do esgotamento. No trabalho, a pessoa ainda tenta manter algum desempenho. Quando chega em casa, já não possui recursos emocionais para sustentar essa contenção”, afirma Fabiane.

Crianças podem interpretar o afastamento e a irritação dos pais como rejeição ou acreditar que fizeram algo errado. Por isso, é importante explicar, em uma linguagem adequada à idade, que o adulto está enfrentando dificuldades e buscando cuidado. Isso não significa transformar os filhos em confidentes ou responsabilizá-los pelo estado emocional dos pais.

Autocuidado não substitui mudança no ambiente

Dormir melhor, praticar atividade física, estabelecer limites e procurar acompanhamento psicológico são medidas importantes. Entretanto, elas podem ser insuficientes quando o profissional continua exposto às mesmas condições que contribuíram para o adoecimento. “Não é coerente exigir que o trabalhador aprenda a respirar, meditar ou administrar melhor o tempo enquanto permanece submetido a metas impossíveis, humilhações e mensagens durante a madrugada. O cuidado individual é necessário, mas não pode servir para esconder problemas de gestão”, pontua Fabiane.

Entre os fatores organizacionais que merecem atenção estão:

  • Sobrecarga frequente;
  • Jornadas prolongadas;
  • Metas incompatíveis com os recursos disponíveis;
  • Falta de clareza sobre funções;
  • Assédio moral;
  • Humilhações públicas;
  • Ausência de autonomia;
  • Insegurança constante sobre o emprego;
  • Comunicação agressiva;
  • Falta de apoio das lideranças;
  • Cobranças fora do horário de trabalho;
  • Impossibilidade real de férias e descanso.

O que as empresas podem fazer

A prevenção exige uma política contínua, não apenas uma palestra anual sobre saúde mental. Empresas podem mapear riscos psicossociais, acompanhar indicadores, qualificar lideranças e criar canais seguros para relatos. Também é necessário avaliar se os profissionais conseguem cumprir as tarefas dentro da jornada e se o afastamento de alguém sobrecarrega continuamente o restante da equipe.

A especialista recomenda:

  • Definir prioridades e responsabilidades com clareza;
  • Estabelecer limites para mensagens fora do expediente;
  • Rever metas e cargas de trabalho;
  • Preparar gestores para reconhecer sinais de sofrimento;
  • Combater assédio e humilhações;
  • Garantir pausas, férias e períodos efetivos de descanso;
  • Criar canais de escuta com confidencialidade;
  • Evitar tratar pedidos de ajuda como falta de competência;
  • Planejar o retorno de trabalhadores afastados;
  • Corrigir as condições que contribuíram para o adoecimento.

Como o trabalhador pode agir

Ao perceber sinais persistentes, o profissional deve registrar mudanças, procurar atendimento e avaliar quais aspectos da rotina precisam ser revistos. Conversar com a liderança ou com o setor responsável pode ser necessário, desde que existam condições seguras. “Não é preciso esperar uma crise incapacitante para reconhecer que algo está errado. Quando o trabalho começa a ocupar o sono, eliminar a convivência familiar e comprometer a saúde, já existe motivo suficiente para pedir ajuda”, orienta Fabiane.

A recuperação não deve ter como único objetivo fazer a pessoa voltar rapidamente ao mesmo ritmo. O retorno precisa considerar limites, acompanhamento e possíveis adaptações. “Retirar o profissional por alguns dias e devolvê-lo exatamente ao contexto que o adoeceu pode reiniciar o ciclo. Cuidar do trabalhador também significa examinar o ambiente ao qual ele retornará”, conclui.

Redação Tribuna do Planalto

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