A mobilidade urbana e o transporte público metropolitano ganharam contornos de debate central nas propostas registradas pelas candidaturas ao Governo de Goiás nas eleições de 2026. Conforme aponta o Relatório Técnico de Análise Política sobre a Mobilidade Urbana nas Eleições para o Governo de Goiás, divulgado neste mês de setembro, a análise sistemática dos programas oficiais revela que o tema ocupa espaços diferentes em cada partido.
Dados detalhados pelo levantamento do Mova-se Fórum de Mobilidade mostram que o debate goiano está dividido, basicamente, em três grandes correntes: a defesa de mudanças estruturais com novos modelos de financiamento (como a Tarifa Zero e fundos estaduais); a aposta na continuidade operacional ancorada em subsídios e expansão física de corredores; e a priorização quase exclusiva de infraestrutura rodoviária e escoamento logístico, deixando o transporte coletivo urbano em segundo plano.
Os extremos do debate: Tarifa Zero e estatização
No topo da escala de espaço dedicado ao tema nos programas de governo mapeados pelo relatório estão as candidaturas da esquerda. Luis César Bueno (PT) apresenta um grau de espaço considerado alto pelo documento, defendendo a criação de um Plano Estadual de Mobilidade Urbana e a implantação progressiva do modelo de Tarifa Zero. O plano petista estima a criação de um Fundo Estadual de Transporte e Mobilidade Urbana com captação de cerca de R$ 650 milhões/ano na Grande Goiânia e R$ 980 milhões/ano no Entorno do DF.
Na mesma linha de centralidade temática, Luciana Amorim (UP) adota uma abordagem ideológica de forte apelo social. Segundo o relatório de análise de conteúdo das diretrizes partidárias, a candidata propõe a estatização integral do sistema de transporte coletivo e a adoção imediata da Tarifa Zero, eliminando as concessões privadas na região metropolitana da capital sob a premissa de que a mobilidade deve ser gerida 100% pelo poder público.
Aposta na continuidade e na gestão da RMTC
A candidatura governista de Daniel Vilela (MDB) ocupa um espaço moderado, focado na gestão e na continuidade. O programa aposta na estabilidade do modelo atual operado pela Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC), prometendo manter a tarifa congelada e subsidiada a R$ 4,30 para o usuário final, com custos divididos entre o Estado e as prefeituras. No campo da infraestrutura, o foco recai sobre o avanço de ligações intermunicipais (como o Corredor Maguito Vilela), a eletrificação gradual da frota com 1,5 mil ônibus elétricos/Euro 6 e a expansão de corredores exclusivos.
Investimento em logística comercial e no agronegócio
As análises estratégicas do Mova-se Fórum de Mobilidade detalham que candidaturas como as de Marconi Perillo (PSDB) e Wilder Morais (PL) dedicam um baixo espaço à mobilidade urbana voltada ao passageiro metropolitano.
O plano de Marconi Perillo concentra-se em desenvolvimento industrial e Parcerias Público-Privadas (PPPs) voltadas à infraestrutura rodoviária e corredores de integração logística, registrando, omissão de diretrizes para a política tarifária e governança de
passageiros. Já Wilder Morais direciona suas diretrizes à liberdade econômica, escoamento do agronegócio e a programas voltados ao transporte individual ou qualificação profissional (como a “CNH do Trabalho”), sem detalhar planos de transporte público de massa urbano.
Na base da tabela de aderência do observatório, a candidatura de Danilo da Silva (PCO) apresenta ausência completa de propostas técnicas ou diagnósticos voltados à mobilidade urbana goiana, focando exclusivamente em pautas de âmbito nacional.
Mobilidade no Entorno do DF
Para além das fronteiras da capital, a análise aponta um tema histórico que continua a receber soluções paliativas: o transporte no Entorno do Distrito Federal, atualmente sob regulação da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres).
Enquanto propostas como a do programa “Meia Passagem” (defendida por Wilder Morais) tentam atenuar o impacto financeiro imediato no bolso do trabalhador da região, os técnicos do fórum apontam que o subsídio indireto funciona como um paliativo que falha em resolver o problema estrutural de qualidade e integração entre Goiás, o Distrito Federal e a União.
Ações necessárias
A análise mostra que o debate qualificado nos programas de governo sobre mobilidade é fundamental para o desenvolvimento das cidades goianas. “O eleitor goiano e, em especial, o trabalhador que depende do transporte público precisam de análises técnicas e de soluções que assegurem o financiamento real do sistema. A mobilidade é um direito social básico, por isso, são necessárias metas claras de priorização do transporte coletivo sobre o individual, caso contrário, o setor continuará enfrentando desafios estruturais
complexos”, avalia Miguel Angelo Pricinote, Mestre em Transporte e Fundador do Mova-se Fórum de Mobilidade.
A entidade civil defende que os candidatos assumam compromissos formais por meio de um Termo de Compromisso de Mobilidade Sustentável, exigindo a criação imediata de uma mesa tripartite (GO-DF-União) nos primeiros 100 dias de gestão para solucionar a realidade do Entorno.
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