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Mexilhão-dourado pode entupir hidrelétricas; como ele se espalhou pelo Brasil?

Molusco chegou ao país no fim dos anos 1990 e encontrou condições para avançar por rios e reservatórios; controle custa quase US$ 10 milhões por ano ao setor elétrico


Marília Rodrigues Por Marília Rodrigues em 22/10/2026 - 08:18

Mexilhão-dourado pode entupir hidrelétricas; como ele se espalhou pelo Brasil?
(Imagem: Boltovskoy/Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0)

O mexilhão-dourado encontrou nos rios e reservatórios brasileiros condições para se espalhar e, nas estruturas das hidrelétricas, superfícies onde consegue se prender. O resultado são colônias que podem entupir tubulações e atrapalhar o funcionamento de filtros e sistemas de resfriamento. Para enfrentar o problema, o setor elétrico brasileiro gasta US$ 9,97 milhões por ano com prevenção e controle, segundo Guilherme Moreno Taveira, Renato Grillo e Jefferson Nascimento de Oliveira em “Mexilhão Dourado: O Avanço da Espécie em Reservatórios Brasileiros”.

Agora, uma pesquisa da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) acrescentou um novo ponto de preocupação. Cientistas encontraram a espécie no Rio São Francisco, no Norte de Minas, a aproximadamente mil quilômetros do registro anterior mais próximo na bacia hidrográfica.

O que os pesquisadores encontraram?

Durante estudos de campo realizados entre julho de 2024 e abril de 2025, foram coletados 113 exemplares nos municípios de São Francisco e São Romão. O resultado foi publicado na revista científica CheckList.

A equipe fez cinco expedições e coletou amostras em 16 estações distribuídas por São Francisco, São Romão, Ibiaí e Pirapora. O molusco apareceu em todas as estações pesquisadas em São Francisco e em uma de São Romão.

Nos pontos examinados em Ibiaí e Pirapora e no reservatório de Três Marias, não houve registro da espécie. O estudo foi conduzido pelos professores Magno Augusto Zazá Borges e Maurício Lopes de Faria, da Unimontes.

Como o molusco chegou tão longe?

Na bacia do São Francisco, o registro anterior havia ocorrido entre 2016 e 2017, na região de Sobradinho. A distância até os novos pontos levou os pesquisadores a investigar como a espécie alcançou o trecho mineiro. Uma das hipóteses é que pequenas embarcações tenham transportado o organismo rio acima. Essa possibilidade, porém, ainda não foi comprovada.

No Brasil, a trajetória do mexilhão-dourado começou no fim dos anos 1990, por embarcações da hidrovia Paraná-Paraguai. Antes, em 1991, ele havia chegado à Argentina na água de lastro de navios cargueiros.

Suas larvas circulam pela água, enquanto estruturas chamadas bissos permitem que o molusco se fixe em superfícies rígidas. A circulação de barcos e as conexões entre hidrovias ajudam na dispersão.

Por que ele causa tantos problemas?

As colônias podem obstruir tubulações, sistemas de irrigação, filtros e estruturas de hidrelétricas. Esse acúmulo sobre superfícies submersas é chamado de bioincrustação. Além dos custos de manutenção, a presença do molusco pode prejudicar equipamentos de pesca. No ambiente natural, ele disputa alimento e espaço com espécies nativas, alterando o equilíbrio das comunidades aquáticas.

Prevenção antes de novos focos

A ausência de registros no reservatório de Três Marias é vista pelos pesquisadores como uma oportunidade para reforçar a prevenção. Entre as medidas estão monitoramento, inspeção e limpeza de embarcações, além de orientação a pescadores e operadores de turismo náutico.

A pesquisa começou no Projeto Opará, que acompanha a qualidade da água do São Francisco entre Pirapora e Januária com um barco-laboratório. Os estudos continuam em uma iniciativa apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

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