A melhoria do ensino e da aprendizagem está entre as principais demandas dos estudantes da rede pública brasileira. Ao mesmo tempo, dados do Ministério da Educação (MEC) mostram que as redes municipais de Goiás perderam posições em indicadores relacionados à implementação de políticas de educação para as relações étnico-raciais entre 2024 e 2026. O cruzamento dos levantamentos coloca em discussão os desafios para garantir uma educação de qualidade que também considere as desigualdades raciais.
Na pesquisa “O que os estudantes pensam sobre a educação”, realizada pelo Datafolha e divulgada em outubro de 2026 em parceria com o Todos Pela Educação e outras organizações, 70% dos entrevistados avaliaram a escola onde estudam como ótima ou boa. Quando questionados espontaneamente sobre o que o próximo governador deveria mudar nas escolas públicas, melhorar o ensino e a aprendizagem apareceu como a principal prioridade.
O levantamento ouviu 5.296 estudantes de 12 a 21 anos matriculados no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio da rede pública estadual. As entrevistas ocorreram entre 28 de maio e 13 de julho de 2026. No recorte estadual, Goiás aparece entre as oito unidades da Federação analisadas, com cerca de 73% dos estudantes avaliando a escola onde estudam como ótima ou boa. Apesar da percepção positiva, o levantamento nacional aponta demandas por melhorias no ensino, na atuação dos professores e na infraestrutura escolar.
Redes municipais de Goiás perdem posições
No Diagnóstico Equidade, instrumento do MEC que acompanha a implementação de políticas de Educação para as Relações Étnico-Raciais (Erer) e Educação Escolar Quilombola (EEQ), Goiás passou da 8ª para a 15ª posição no índice geral de Erer entre 2024 e 2026, considerando a comparação entre as redes municipais das unidades da Federação.
A queda de sete posições também aparece nas dimensões específicas do indicador. Em financiamento, Goiás saiu do segundo lugar, em 2024, para o 14º, em 2026. Em avaliação e monitoramento, passou da terceira para a 13ª posição. No indicador de materiais didáticos e paradidáticos, recuou do sexto para o 15º lugar.
A institucionalização das políticas também perdeu posições, da 15ª para a 21ª colocação. Em formação, o estado passou do 12º para o 19º lugar. Já na dimensão de gestão, caiu da nona para a 13ª posição.
Os resultados indicam perda relativa de posição das redes municipais goianas nas dimensões avaliadas. Entretanto, a classificação, isoladamente, não permite concluir que houve redução efetiva do financiamento, interrupção de programas ou piora absoluta em todos os indicadores. Para isso, é necessário analisar as pontuações de cada dimensão e as condições de participação das redes nas duas edições.
Qualidade do ensino e equidade
A pesquisa do Datafolha ajuda a dimensionar as expectativas dos estudantes em relação ao cotidiano escolar. Entre os entrevistados que afirmaram que os professores explicam bem os conteúdos, 75% avaliaram a escola como ótima ou boa. Entre aqueles que disseram que os docentes não explicam bem, o percentual foi de 48%.
O levantamento também identificou problemas que afetam a experiência escolar. A indisciplina em sala de aula foi o principal problema apontado pelos estudantes, seguida por questões como bullying, humilhação e dificuldades relacionadas à infraestrutura e aos equipamentos. Além disso, 36% disseram ter pensado em parar de estudar nos seis meses anteriores à entrevista.
Embora os dados não permitam estabelecer uma relação direta entre esses problemas e os indicadores de equidade racial, os resultados reforçam a importância de analisar a qualidade da oferta educacional em suas diferentes dimensões. A garantia de aprendizagem envolve condições de ensino, presença de professores, materiais adequados e ambientes escolares seguros e inclusivos.
Nesse contexto, as políticas de educação étnico-racial constituem uma dimensão da gestão educacional. Elas envolvem, entre outros aspectos, formação dos profissionais, currículo, materiais didáticos, financiamento e mecanismos de avaliação. A implementação dessas medidas precisa ser acompanhada por informações capazes de revelar se os recursos e as oportunidades chegam de maneira adequada aos diferentes grupos de estudantes.
Diagnóstico não mede diretamente a aprendizagem
Criado em 2024, o Diagnóstico Equidade registrou, na edição de 2026, a participação de 97% das redes municipais e de 100% das redes estaduais. O instrumento reúne informações sobre as condições institucionais das secretarias de educação e as ações adotadas para implementar as políticas de Erer e EEQ.
O próprio MEC ressalta, porém, que o diagnóstico não mede diretamente os efeitos dessas iniciativas na aprendizagem nem permite concluir, isoladamente, que as desigualdades educacionais foram reduzidas.
Por isso, o acompanhamento deve ser complementado por dados produzidos pelas redes de ensino, especialmente informações de raça e cor dos estudantes e indicadores sobre infraestrutura, bibliotecas, materiais pedagógicos e distribuição de profissionais. Esse cruzamento permite investigar como as condições de oferta educacional se distribuem entre diferentes grupos.
No caso de Goiás, os resultados do diagnóstico apontam a necessidade de aprofundar a análise sobre a implementação das políticas nas redes municipais. A perda de posições em financiamento, formação, materiais didáticos e monitoramento oferece caminhos para a apuração, mas não esclarece, por si só, quais fatores explicam a mudança no ranking.
O desafio de transformar políticas em resultados
Os dois levantamentos observam aspectos diferentes da educação. Enquanto o Datafolha registra as percepções e expectativas dos estudantes da rede pública estadual em âmbito nacional, o Diagnóstico Equidade acompanha condições institucionais das redes de ensino, com recortes estaduais e municipais.
A leitura conjunta não permite afirmar que o recuo de Goiás nos indicadores de Erer tenha provocado os problemas relatados pelos estudantes. Permite, contudo, situar a equidade entre os aspectos que precisam ser considerados na discussão sobre qualidade educacional.
Para avançar nessa análise, será necessário conhecer as pontuações absolutas de Goiás, verificar as ações implementadas pelas secretarias municipais e cruzar essas informações com dados de aprendizagem e de desigualdades raciais. A partir desse conjunto, será possível avaliar com maior precisão se as políticas estão chegando às escolas e quais obstáculos ainda limitam sua implementação.
A prioridade apontada pelos estudantes é melhorar o ensino e a aprendizagem. O desafio para as redes públicas é assegurar que esse avanço alcance todos os alunos, com condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem que não dependam de raça, território ou condição social.












