Quando o brilho azul de uma peça encontrada em uma clínica abandonada começou a atrair curiosos em Goiânia, ninguém sabia que o objeto continha césio-137. Essa história, muitos já sabem. Devair Alves Ferreira, dono de um ferro-velho, havia comprado a peça de dois catadores de material reciclável. Seu irmão, Odesson Ferreira, chegou a aconselhá-lo a jogá-la fora, pensando que não teria utilidade. Odesson foi contaminado e perdeu parte dos dedos. Décadas depois, ele contou essa história à BBC, organização jornalística britânica de alcance mundial, que divulgou o material nesta semana.
Em setembro de 1987, os cristais azulados que saíam da cápsula despertaram a curiosidade de Devair. Ele levou o material para casa e o mostrou a familiares e conhecidos. Algumas pessoas pegaram fragmentos para levar consigo. Entre elas estava Ivo Ferreira, outro irmão de Devair, que levou parte do material para casa, onde vivia com a filha, Leide das Neves, de seis anos.
Leide brincou com o pó radioativo. Em um dos episódios relatados por Odesson à BBC, a menina comeu um ovo depois de tocar no material. Ela e Maria Gabriela, esposa de Devair, morreram cerca de um mês depois da exposição. Dois jovens que trabalhavam no ferro-velho também morreram. Foram as quatro vítimas fatais do acidente.
A família não sabia o que estava provocando os problemas de saúde. A suspeita ganhou força quando Maria Gabriela levou a peça à Vigilância Sanitária. O físico chamado para examiná-la mediu níveis de radiação tão altos que, inicialmente, pensou que o aparelho de medição estivesse com defeito. Uma segunda leitura confirmou o risco e permitiu que as autoridades identificassem o acidente.
A partir daí, equipes mapearam áreas contaminadas e examinaram moradores. Mais de 112 mil pessoas passaram por triagem em Goiânia. Em 249 delas foi identificada contaminação por césio-137; 129 precisaram de acompanhamento médico permanente.
O depoimento de Odesson recupera a sequência que levou a substância do ferro-velho às casas da família: primeiro, o interesse pelo brilho; depois, a circulação de fragmentos entre parentes, antes que alguém soubesse do perigo.














