A permanência dos jovens na escola pública ainda representa um desafio para a educação brasileira. Embora a maioria dos estudantes avalie positivamente a instituição onde estuda, uma parcela expressiva já cogitou interromper a trajetória escolar. Em Goiás, o cenário exige atenção, apesar de 91% dos jovens de 15 a 17 anos estarem no Ensino Médio, dificuldades de aprendizagem, especialmente em Matemática, expõem obstáculos que acompanham os alunos até a etapa final da educação básica.
Pesquisa do Datafolha, intitulada O que os estudantes pensam sobre a educação, revela que 36% dos entrevistados consideraram abandonar os estudos nos seis meses anteriores ao levantamento. Entre eles, 10% afirmaram que pensaram nessa possibilidade muitas vezes. O percentual chega a 26% entre os estudantes que avaliam a própria escola como ruim ou péssima e a 18% entre aqueles que já trabalham.
O levantamento aponta que questões relacionadas ao bem-estar emocional, como cansaço, estresse e ansiedade, estão entre os principais motivos para pensar em deixar a escola. A necessidade de ingressar no mercado de trabalho também pesa nessa decisão. Para 21% dos estudantes que cogitaram interromper os estudos, a busca por independência financeira aparece como justificativa. Outros 17% mencionaram a necessidade de contribuir com a renda familiar.
Os dados ajudam a compreender que o abandono escolar não está associado apenas ao desempenho em sala de aula. A realidade econômica, as condições emocionais e a própria experiência dos estudantes na escola também fazem parte desse cenário.
Aprendizagem e permanência
Em Goiás, os indicadores do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2026, elaborado pelo Todos Pela Educação, mostram que o acesso ao Ensino Médio avançou, mas a aprendizagem ainda representa um ponto de atenção. Segundo o levantamento, 91% dos jovens de 15 a 17 anos estão matriculados nessa etapa e 85% concluem o Ensino Médio até os 19 anos.
O desempenho em Matemática, entretanto, revela uma dificuldade importante. Apenas 17,3% dos estudantes goianos do Ensino Médio apresentam aprendizagem adequada na disciplina. Em Língua Portuguesa, o percentual chega a 45,3%. O quadro é ainda mais preocupante quando se observa o grupo com aprendizagem abaixo do nível básico: 44,8% em Matemática e 20,7% em Português.
Os resultados indicam que o desafio da educação estadual não se limita a garantir que os jovens cheguem ao Ensino Médio ou concluam essa etapa. Também envolve assegurar que eles desenvolvam os conhecimentos necessários para prosseguir nos estudos e ingressar no mercado de trabalho.
A percepção dos próprios estudantes reforça essa demanda. No Datafolha, melhorar o ensino e a aprendizagem aparece como a principal expectativa em relação às mudanças que os próximos governos devem promover nas escolas públicas. Capacitação dos professores, melhoria das formas de ensinar, ampliação do número de docentes e redução das faltas também aparecem entre as prioridades apontadas pelos entrevistados.
O cotidiano escolar também pesa
A experiência dentro da escola influencia a maneira como os estudantes percebem a própria trajetória. Na pesquisa, a indisciplina em sala de aula aparece como o principal problema do cotidiano escolar. Bullying, humilhação e dificuldades relacionadas à internet, computadores e equipamentos também integram as queixas.
A presença dos professores é outro ponto de atenção. Embora os estudantes avaliem positivamente a atuação docente, muitos relatam que existem disciplinas que passam períodos sem professor. Entre aqueles que consideram a escola ruim ou péssima, 83% afirmam que há disciplinas sem docentes durante algum período. Nesse mesmo grupo, 60% dizem que os professores faltam com frequência.
A diferença também aparece na avaliação geral das escolas. Entre os estudantes que afirmam que os professores explicam bem os conteúdos, 75% classificam a instituição como ótima ou boa. O índice cai para 48% entre aqueles que consideram que os docentes não explicam bem as matérias.
O desafio de conciliar estudo e futuro
A necessidade de trabalhar aparece como um dos fatores que atravessam a permanência escolar. Para parte dos jovens, a busca por independência financeira ou a contribuição com a renda familiar pode entrar em conflito com a continuidade dos estudos.
Ao mesmo tempo, a pesquisa mostra que a maioria dos estudantes do Ensino Médio pretende continuar a formação depois da conclusão dessa etapa. Do total entrevistado, 67% planejam ingressar em uma faculdade. Desse grupo, 41% desejam conciliar o ensino superior com o trabalho. Outros 12% pretendem apenas trabalhar, enquanto 11% planejam combinar o emprego com um curso técnico.
O levantamento também aponta que mais de 90% dos estudantes consideram importante ter a oportunidade de fazer um curso técnico ou profissionalizante durante o Ensino Médio. Entretanto, segundo o Anuário, apenas 13,5% das matrículas dessa etapa em Goiás estão na Educação Profissional e Tecnológica.
Os dados colocam em discussão a capacidade da escola de dialogar com os projetos de vida dos jovens, oferecer formação conectada às oportunidades profissionais e criar condições para que trabalho e estudo não se tornem caminhos incompatíveis.
A pesquisa do Datafolha ouviu 5.296 estudantes de 12 a 21 anos, matriculados no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio da rede pública estadual, em oito estados brasileiros. Em Goiás, foram realizadas 600 entrevistas. A coleta ocorreu entre 28 de maio e 13 de julho de 2026.
Embora os resultados nacionais não possam ser atribuídos diretamente aos estudantes goianos, o levantamento oferece pistas sobre os fatores que afetam a permanência escolar. Em conjunto com os indicadores estaduais do Anuário, os dados apontam para uma questão central: além de garantir vagas e ampliar o acesso, a educação precisa assegurar aprendizagem, acolhimento e perspectivas de futuro para que os jovens encontrem razões para permanecer na escola.
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