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Democratas conquistam Congresso dos EUA e impõem derrota histórica a Trump nas eleições de meio de mandato

Oposição retoma controle da Câmara e do Senado, vence em redutos republicanos e ameaça agenda do presidente americano nos dois últimos anos de governo


Domingos Ketelbey Por Domingos Ketelbey em 04/11/2026 - 06:20

EUA reforçam proteção contra interferência estrangeira enquanto atuação de Trump na eleição brasileira gera questionamentos - Reprodução
Trump sofre revés historico, reconheceu resultado, mas não viu derrota em eleições de meio de mandato (Foto: Divulgação)

O Partido Democrata conquistou o controle das duas casas do Congresso dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira (3) e impôs uma derrota ao presidente Donald Trump. A oposição conseguiu reverter a maioria republicana na Câmara dos Representantes e no Senado, além de vencer disputas em estados tradicionalmente conservadores. O resultado representa uma mudança na correlação de forças em Washington e deve dificultar a agenda do presidente nos dois últimos anos de seu segundo mandato.

As projeções divulgadas na madrugada desta quarta-feira (4) pela Associated Press e pela Reuters confirmaram a vitória democrata nas duas casas legislativas. O desempenho superou as expectativas de analistas políticos e atingiu regiões onde os republicanos mantinham hegemonia havia décadas.

A insatisfação com o custo de vida, os efeitos econômicos da política tarifária de Trump e a guerra contra o Irã estiveram entre os principais fatores que influenciaram o eleitorado. Pesquisas de boca de urna também identificaram preocupações com corrupção e com os rumos da administração federal.

O resultado contrasta com a vitória de Trump nas eleições presidenciais de 2024, quando o republicano retornou à Casa Branca com o apoio de estados decisivos e passou a governar com maioria de seu partido no Congresso.

Democratas avançam em redutos históricos dos republicanos

A dimensão da derrota republicana ficou evidente em estados como Texas, Kansas e Carolina do Sul, onde candidatos democratas conseguiram resultados considerados improváveis no início da campanha.

No Texas, o democrata James Talarico derrotou o republicano Ken Paxton e conquistou uma cadeira no Senado. A vitória encerrou um período de 38 anos sem que o estado elegesse um senador democrata.

No Kansas, Adam Hamilton venceu o senador republicano Roger Marshall. O resultado marcou a primeira vitória democrata para o Senado no estado desde 1932, durante a Grande Depressão.

Na Carolina do Sul, Annie Andrews derrotou Darline Graham, candidata apoiada por Trump. O estado havia dado ao republicano uma vantagem de quase 18 pontos percentuais na eleição presidencial de 2024.

Os democratas também conquistaram cadeiras em Ohio e na Carolina do Norte. Em Ohio, Sherrod Brown venceu o senador republicano Jon Husted, em uma das disputas mais caras do país.

O avanço se estendeu à Câmara dos Representantes, onde os democratas conquistaram distritos considerados competitivos e outros que haviam favorecido os republicanos nas eleições anteriores.

Custo de vida e guerra contra o Irã pesaram contra Trump

A economia doméstica foi um dos principais fatores da derrota republicana. Embora Trump tenha retornado à Presidência prometendo combater a inflação e reduzir o custo de vida, parte dos eleitores demonstrou insatisfação com os preços de produtos e serviços.

Levantamento de boca de urna realizado pela SSRS, para um consórcio de veículos de comunicação americanos, apontou que quase nove em cada dez eleitores consideravam o custo de vida uma questão importante ou decisiva na escolha do voto.

A pesquisa também mostrou que aproximadamente dois terços dos entrevistados responsabilizavam Trump pela elevação dos preços.

A guerra contra o Irã, que passou a ocupar espaço central na política externa americana, ampliou o desgaste da administração. Os custos do conflito e seus reflexos sobre a economia foram explorados pelos candidatos democratas durante a campanha.

Outro tema recorrente foi a corrupção. A oposição questionou relações financeiras envolvendo integrantes da família Trump e defendeu maior fiscalização sobre as decisões do governo federal.

Vitória muda relação de forças em Washington

Com a retomada do Congresso, os democratas passam a ter instrumentos para limitar iniciativas do governo Trump a partir de janeiro de 2027, quando os parlamentares eleitos assumem seus mandatos.

Na Câmara dos Representantes, a nova maioria poderá controlar comissões, convocar integrantes da administração federal para prestar esclarecimentos e abrir investigações sobre decisões do Executivo.

No Senado, os democratas terão condições de bloquear indicações presidenciais para cargos estratégicos, inclusive eventuais nomeações para a Suprema Corte.

A mudança também afetará as negociações orçamentárias. Sem maioria legislativa, Trump precisará negociar com a oposição para aprovar projetos e garantir recursos para o funcionamento do governo.

Apesar da derrota, o presidente continuará com o poder de veto sobre leis aprovadas pelo Congresso. Isso significa que a maioria democrata não terá liberdade irrestrita para implementar sua própria agenda.

O cenário aponta para um período de maior confronto institucional, com possibilidade de impasses sobre orçamento, imigração, política econômica e relações internacionais.

Trump reconhece resultado, mas minimiza responsabilidade

Após a confirmação das derrotas, Trump afirmou que aceitaria os resultados das eleições e admitiu a possibilidade de negociar com os democratas em determinadas matérias.

Em entrevista à Fox News, o presidente sinalizou disposição para trabalhar com a oposição em temas como imigração, mas advertiu que poderá vetar propostas que considere incompatíveis com suas prioridades.

O republicano também procurou atribuir parte das derrotas ao desempenho individual dos candidatos de seu partido.

A reação ocorre depois de uma campanha na qual Trump pediu aos eleitores que tratassem as eleições legislativas como uma avaliação de seu próprio governo.

Para o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, o resultado representa uma mudança na composição política da Casa.

“Os americanos votaram por mudança, e agora os democratas precisam entregar”, declarou o senador, ao comentar o desempenho de seu partido.

Derrota pode antecipar disputa presidencial de 2028

O resultado também interfere nas articulações para a sucessão presidencial de 2028. Impedido pela Constituição americana de disputar um terceiro mandato, Trump terá de administrar a perda de influência legislativa enquanto lideranças republicanas começam a discutir o futuro do partido.

O vice-presidente JD Vance aparece entre os nomes que poderão disputar espaço na sucessão, mas a derrota nas eleições legislativas amplia os questionamentos sobre a capacidade do trumpismo de manter sua força eleitoral sem Trump na disputa.

Do lado democrata, a vitória fortalece lideranças nacionais e estaduais que poderão buscar protagonismo na próxima eleição presidencial.

O novo equilíbrio de forças também poderá repercutir nas relações internacionais. A política comercial, a imposição de tarifas e as decisões militares da Casa Branca estarão sujeitas a maior fiscalização parlamentar.

Para o Brasil, que inicia um novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em janeiro de 2027, a mudança no Congresso americano abre um cenário de negociações com uma administração Trump politicamente mais limitada, embora o Executivo continue responsável por parte importante da condução da política externa.

A eleição de terça-feira não retirou Trump da Presidência, mas encerrou o período em que os republicanos controlavam simultaneamente a Casa Branca e as duas casas do Congresso. A partir de janeiro, o presidente terá de governar diante de uma oposição fortalecida pelas urnas.

 

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