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Calor, enchentes e secas já cobram preço da aprendizagem de crianças e adolescentes

Crise climática agrava problemas de saúde, interrompe aulas e amplia desigualdades educacionais; especialistas defendem preparação das redes para garantir continuidade pedagógica e recompor aprendizagens


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 05/09/2026 - 13:08

Calor, enchentes e secas já cobram preço da aprendizagem de crianças e adolescentes - FOTO: UNICEF/UN0845809/Tsiory Andriantsoarana
Calor, enchentes e secas já cobram preço da aprendizagem de crianças e adolescentes - FOTO: UNICEF/UN0845809/Tsiory Andriantsoarana

A crise climática já aparece na rotina escolar de formas que vão muito além de enchentes e escolas fechadas. Em Goiás, onde o período de estiagem é marcado por calor intenso e baixa umidade do ar, crianças podem sofrer com desidratação, cansaço, irritações e agravamento de problemas respiratórios. Um resfriado ou uma gripe, por exemplo, não são provocados diretamente pelas mudanças climáticas, mas condições ambientais adversas podem agravar sintomas e favorecer problemas respiratórios. O resultado é simples e concreto, criança doente falta à escola, perde conteúdo e pode ter o rendimento comprometido.

O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alerta que crianças são especialmente vulneráveis aos impactos climáticos porque seus organismos ainda estão em desenvolvimento. A exposição à poluição, por exemplo, pode fragilizar o sistema imunológico e tornar infecções respiratórias mais severas e frequentes. No caso do calor, os efeitos também chegam diretamente à aprendizagem. Dados apresentados pelo UNICEF mostram que um aumento de 0,5°C na temperatura do ambiente pode reduzir em cerca de 1% o rendimento dos estudantes.

Em Goiânia, a Secretaria Municipal de Educação (SME) orientou, em agosto, reforço na hidratação, refeições mais leves, adequação das atividades físicas e manutenção dos ambientes ventilados durante o período de calor intenso. 

Para Thiago Battaglini, líder de programas e projetos da Fundação Abrinq, o impacto ocorre em uma cadeia que começa na saúde e chega à sala de aula. “A criança doente não vai para a escola, ou ela tem um desempenho escolar inferior. Ela não consegue ter atenção, falta, então isso tem uma consequência bem prática para a saúde dessa criança e também para a educação.”

O efeito se torna ainda mais evidente quando o calor ou uma emergência climática interrompe o funcionamento da escola. Battaglini cita um dado segundo o qual estudantes dos municípios que estão entre os 10% mais quentes do país perdem cerca de 1% do aprendizado por ano em razão da maior exposição ao calor.

Da doença à perda de aprendizagem

O impacto não está apenas dentro da sala. Em entrevista para a reportagem, Edson Ferrari, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Goiás (TCE-GO) e presidente do Comitê Técnico da Primeira Infância do Instituto Rui Barbosa (IRB), chamou atenção para a quantidade de dias de aula que podem ser perdidos em razão dos efeitos climáticos.

“Estudo recente da UNICEF está dizendo que, no Brasil, a média é de perda de cerca de 10 dias. Cada criança no ensino fundamental tem que ter 200 dias de aula, elas estão deixando de ir pelo menos 12 dias desses 200 de assistir aula”, afirmou Ferrari.

Para o conselheiro, a relação entre saúde, frequência e aprendizagem é direta. “Por questões de saúde. Se você tiver uma imunização correta, uma alimentação correta nas creches, nas escolas, vai ter melhoria da qualidade delas. O que isso vai resultar? Em um aprendizado melhor.”

A realidade também muda conforme a região. “No Centro-Oeste, é o calor, é a poeira; lá no Amazonas, na região amazônica, é a fumaça; lá no Sul, é o excesso de água”, resume Ferrari.

Os efeitos de eventos extremos são ainda mais visíveis. Segundo Battaglini, crianças podem perder de sete a 12 dias de aula por ano em razão de inundações, o equivalente a quase duas semanas de atividades escolares. Em 2024, 1,17 milhão de crianças e adolescentes ficaram sem aulas no Brasil por eventos climáticos, principalmente enchentes e secas. No mundo, foram 242 milhões de estudantes em 85 países.

A interrupção também pode produzir um efeito prolongado. Escolas atingidas podem precisar de reparos ou ser utilizadas como abrigos, enquanto famílias afetadas pelo desastre enfrentam perda de renda, moradia e dificuldades de transporte. “A desigualdade se sobrepõe”, afirma Battaglini.

Reabrir a escola não basta

É justamente depois da emergência que aparece outro desafio, recompor a aprendizagem. O caderno do UNICEF sobre continuidade pedagógica e recomposição das aprendizagens, publicado em 2026, defende que as redes de ensino tenham planos preparados antes da crise, com estratégias para manter o vínculo com os estudantes e assegurar a continuidade das atividades.

Depois da interrupção, a orientação é identificar as lacunas de aprendizagem, priorizar conteúdos essenciais, reorganizar o planejamento e oferecer apoio aos professores. O Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens, instituído pelo Decreto nº 12.391/2025, também prevê avaliação diagnóstica e apoio pedagógico às redes e equipes docentes.

Battaglini reforça que simplesmente reabrir os portões não resolve o problema. “Você tem que voltar às aulas, mas várias crianças deixam de frequentar a escola por causa dessa grande interrupção. Você tem que ter uma estratégia de busca ativa para que essa criança volte a frequentar a escola. Não basta só abrir as portas.”

A preocupação ganhou visibilidade durante a COP30, realizada em Belém, em 2025. Para demonstrar os efeitos do calor sobre a aprendizagem, o UNICEF criou a instalação “Estufa Improvável”, uma sala de aula cenográfica a 38°C. A entidade alertou que, a 35°C, estudantes apresentam mais dificuldade de concentração, maior cansaço e menor produtividade.

O cenário tende a se agravar. Novo levantamento do UNICEF aponta que 16 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, três em cada dez, estão expostos atualmente a três ou mais riscos climáticos, como calor extremo e secas.

Diante disso, a continuidade pedagógica deixa de ser apenas uma estratégia para situações excepcionais e passa a integrar a preparação das redes para uma realidade climática cada vez mais instável. Proteger a aprendizagem significa também proteger a saúde, garantir a frequência e planejar o retorno de quem ficou para trás. Afinal, para uma criança, perder alguns dias de aula pode parecer pouco. Quando esses dias se repetem ano após ano, a conta chega em forma de aprendizagem perdida.

VOCÊ SABIA?

O Pacto Nacional pela Recomposição das Aprendizagens também prepara as escolas para situações extremas?

Criado em 2025, o Pacto não trata apenas de recuperar conteúdos perdidos. O documento determina que as redes de ensino desenvolvam capacidade de adaptação para enfrentar emergências e calamidades, incluindo impactos sobre a oferta educacional.

Na prática, isso significa:

  • identificar o que o aluno deixou de aprender;
  • reorganizar currículo e priorizar habilidades essenciais;
  • formar professores para atuar na recomposição;
  • adaptar a gestão e a infraestrutura das escolas;
  • preparar as redes para manter ou reorganizar o ensino diante de situações extremas.

Um ponto importante: o Pacto prevê apoio técnico e financeiro da União para estados e municípios que aderirem à iniciativa. A adesão é voluntária.

Ou seja: depois de uma enchente, seca ou outro evento extremo, reabrir a escola é apenas o primeiro passo. O desafio é garantir que o aluno também consiga recuperar o que deixou de aprender.

 

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Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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