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Cel Renato Brum dos Santos: “O crime organizado não controla um palmo do território de Goiás”

O Secretário de Segurança Pública de Goiás é o entrevistado da semana do Tribuna do Planalto


Avatar Por Redação Tribuna do Planalto em 30/05/2026 - 11:49

Renato Brum A polícia já efetuou uma prisão em flagrante por desacato no interior do estado. O incidente ocorreu durante uma divulgação irregular de propaganda. Foto: Wesley Costa/Secom/Gov. de Goiás
(Foto: Reprodução)

À frente da Secretaria de Segurança Pública de Goiás em um momento em que o estado exibe sucessivas quedas nos índices de criminalidade, o coronel Renato Brum dos Santos afirma que Goiás vive hoje “a melhor fase da segurança pública” de sua história recente. Em entrevista à Tribuna do Planalto, o secretário atribui os resultados a uma combinação de endurecimento contra facções criminosas, controle do sistema prisional, integração entre forças policiais, investimentos em tecnologia e ampliação da inteligência policial.

Brum sustenta que Goiás é um dos estados mais seguros do país, apesar de reconhecer que os índices de homicídio ainda estão acima do patamar considerado ideal pela Organização Mundial da Saúde. Segundo ele, a percepção da população goiana mudou nos últimos anos e a redução dos crimes violentos “é efetiva e não apenas sensação de segurança”.

O secretário também rebate críticas sobre a presença do crime organizado em território goiano. Para ele, facções como PCC e Comando Vermelho atuam no estado, mas permanecem “controladas” pelas forças de segurança. “Não existe essa utopia de que não há crime organizado em Goiás”, afirma. “Ele existe, mas não domina nenhum palmo do território goiano.”

O secretário também aborda temas sensíveis, como o aumento dos casos de feminicídio, o debate sobre câmeras corporais para policiais militares e acusações de uso político das forças de segurança. 

Andréia Bahia e Lucas de Godoi

O Atlas da Violência de 2026 aponta que Goiás reduziu a taxa de homicídios para 18.4 mortes por 100.000 habitantes. É um índice menor que o nacional, que ficou em 20.1. No entanto, a Organização Mundial de Saúde considera que uma taxa de homicídio igual ou inferior a 10 é o patamar para classificar uma região como segura. Diante disso, podemos afirmar que Goiás é um estado seguro?

Totalmente. Inclusive, se pegar nos últimos dez anos, a média nacional, nós estamos reduzindo ela em cinco vezes. E uma redução que se aproxima de 60%. É algo inimaginável. Há dez anos, tínhamos, no ápice, 250 homicídios em um mês. O meu objetivo ao longo dos anos era cair para dois dígitos e tivemos um recorde o ano passado com 57 homicídios registrados. O ideal é zerar, cada vida importa, mas são oito anos consecutivos de reduções nos crimes letais, principalmente na questão de homicídio. Estou falando dos crimes contra a vida, não estou nem entrando nos crimes contra o patrimônio, que tiveram também reduções substantivas.

O ex-governador Ronaldo Caiado afirma que Goiás é o estado mais seguro do país, todavia, Goiás continua atrás de outros estados em homicídios, como São Paulo, que tem taxa de 6.6; Santa Catarina, 8.1; Distrito Federal, 10.3; Minas Gerais, 12.8, e Rio Grande do Sul, 15.2. Qual o indicador sustenta essa afirmação de Caiado?

Pegando só uma tipificação, que é o homicídio. Nos crimes contra o patrimônio, que é o roubo, roubo à pessoa, estamos com reduções muito maiores que os demais estados que você citou. Perfeito. Aqui no estado de Goiás, você pode entrevistar a população que todos estão satisfeitos, não é nem mais com a sensação de segurança, é a segurança de forma efetiva. E olha que eu não gosto nem de criticar, porque eu tenho 35 anos que eu estou na Segurança Pública, comandei Rotam e unidades fortes, mas realmente os patamares dos índices criminais que a gente chegou aqui, que são todos aferidos pelo Ministério da Justiça, é algo muito expressivo. A questão dos 100 mil habitantes é um pouco contestada por causa da questão populacional, São Paulo é muito denso. Mas, enfim, eu fico muito satisfeito em relação a opinião pública do cidadão goiano e goianiense que está satisfeito e tem demonstrado que a Segurança Pública do estado de Goiás é uma das melhores do país.

O senhor mencionou que está na corporação há décadas. A que medidas específicas se devem essas reduções, sobretudo nas taxas de letalidade e de crimes contra o patrimônio que o senhor menciona? 

Nós trabalhamos seis eixos; o primeiro deles foi um grande sucesso e é um grande segredo da Segurança Pública, o controle carcerário. Os presídios deixaram de ser escritório de crimes, isolamos os faccionados, as lideranças dessas facções em Planaltina, que tem um regime especial, e reformulamos todos os nossos presídios com estrutura física e demos capacitação aos nossos policiais penais, que têm hoje uma carreira igual à da Polícia Militar e da Polícia Civil, ou seja, motivou esses integrantes. A Polícia Penal hoje faz uma grande diferença, é também uma das melhores do país. O segundo eixo foi a questão da integração. Eu sou coronel da Polícia Militar e tenho aqui comigo a Polícia Civil, a Polícia Técnica Científica, a Polícia Penal, o Procon e o Corpo de Bombeiros. A gente realmente se integra principalmente na questão da inteligência, que é o terceiro eixo, porque entendemos que o crime se organizou e que nós tínhamos que nos organizar, integrar as informações importantes. O quarto eixo foi o de investimentos. Foi feito um investimento muito grande na Segurança Pública, em armamento, equipamentos, recentemente entregamos quatro helicópteros para as forças de segurança, o que nunca tinha sido entregue, na faixa de R$135 milhões. Temos armamento, equipamento de pontas, viaturas, armamentos de porte, fundamental. O quinto eixo é a presença constante do Estado. Hoje todos os coronéis vão à rua, em operações que estamos fazendo, dando exemplo para a tropa, liderando, trabalhando e entendendo os problemas operacionais que acontecem em todo  o estado. E o último eixo, que entrou principalmente na virada do ano e de forma forte este ano, está sendo capitaneado pelo governo do estado na gestão do governador Daniel Vilela, que é a IA Contra o Crime. Porque o grande desafio nosso, agora nesse oitavo ano, é continuar reduzindo os índices que já estão bem reduzidos e estão em patamares muito pequenos. É uma plataforma, não apenas câmeras com reconhecimento facial e identificação veicular, que abarca uma análise criminal que orienta as viaturas que estão lá na ponta para poder dar uma resposta rápida. Ela já está no Entorno do Distrito Federal, principalmente em Luziânia, no Jardim Ingá, em Goiânia e Aparecida. E no próximo mês vamos estar distribuindo mais de 5 mil câmeras com toda essa tecnologia abarcada nos 246 municípios de Goiás. São esses seis eixos que foram fundamentais para a gente chegar aonde chegou.

Entre os jovens de 15 a 29 anos, Goiás apresentou a 2ª maior redução do país na taxa de homicídios em dez anos: queda de 67,8%, atrás apenas do Distrito Federal. O que explica essa redução?

É um trabalho que não é só da Segurança Pública, envolve outras pastas, a Secretaria de Desenvolvimento Social, que responde pela internação dos menores infratores. Quando iniciei no governo, havia uma determinação do Ministério Público para ampliar esses centros de internações. Hoje, inclusive,  estamos negociando com a Secretaria de Desenvolvimento Social para pegar dois centros de internações e passar para a Polícia Penal, porque estão prendendo bastante e estão precisando de vagas. É um trabalho social, é um trabalho da Secretaria de Educação, que tem sido muito bem feito. São várias pastas dentro do governo que se comunicam. Hoje o jovem tem a oportunidade de estudo, de ensino, seus familiares têm os cartões necessários para que ele possa ter as condições mínimas de aprendizado e possa ser um grande cidadão no futuro, que é o que tem acontecido.

Goiânia também aparece em destaque nacional como uma capital que reduziu em 70.9% a taxa de homicídios nos últimos 10 anos, a segunda maior queda entre as capitais brasileiras. O policiamento em Goiânia mudou? 

O policiamento é o mesmo, o que mudou foi a forma de agir. A gente está trabalhando igual falei, estamos fazendo um planejamento muito grande e trabalhando com inteligência. Temos um grande comandante, o Coronel Batista, que é o comandante da capital, sabemos que a capital é a vitrine, o que acontece aqui reflete para todo estado. Eu comandei o segundo Regional, que é a região Metropolitana, e é preciso ter um cuidado especial aqui. Temos aqui as forças especializadas, que agem de forma contundente. Temos combatido bastante as facções e o tráfico de droga, porque o tráfico de droga é o início de tudo. Atrás do tráfico das drogas estão os roubos, os homicídios, vários outros tipos de crime. Fizemos um planejamento bem detalhado, inclusive vou falar em primeira mão, vamos focar bastante agora na região central. Nós vamos trabalhar para a revitalização da região central, cadastrando todos os moradores de rua, atuando com prevenção, com presença, com inteligência, e vamos trabalhar a parte nossa de Segurança Pública para revitalizar o Centro de Goiânia.

Cidades da região metropolitana, como Senador Canedo e Aparecida de Goiânia, ainda registram índices de violência acima da média nacional, Senador Canedo – 27,1 homicídios por 100 mil habitantes e Aparecida de Goiânia – 24 homicídios por 100 mil habitantes. Como a Secretaria de Segurança Pública tem atuado para também levar os mesmos indicadores da capital para essas cidades que são fronteiriças?

Na verdade, a gente já atuou, porque o Atlas está muito atrasado, está em 2024. Deve sair o Anuário de 2025 e eu já estou com as estatísticas de 2026. Eu posso te garantir que já saiu desse patamar, dessa média, tanto Senador Canedo como Aparecida de Goiânia. Aparecida chegou a ficar, este ano, mais de 30 dias sem nenhum homicídio. Realmente em Senador Canedo tem que ter uma atenção especial e já o fizemos.

Outro recorte é em relação à violência contra mulheres. Enquanto 19 estados registraram queda nas taxas de feminicídios entre 2023 e 2024, Goiás aparece entre as sete unidades da federação que tiveram aumento no período. Porque as medidas de segurança não atingem as mulheres?

Eu não vou tirar a responsabilidade da Segurança Pública, que tem essa responsabilidade maior. Nós criamos mais três batalhões Maria da Penha, hoje são quatro; a estadualização das delegacias da mulher; fizemos o aplicativo Mulher Segura. Eu estou dentro de um grupo de secretários e esse é um grande desafio de todo o país, e não depende só da Segurança Pública, depende da Defensoria Pública, do Judiciário, do Ministério Público. Nós ainda não achamos uma fórmula necessária. Realmente, dos índices aferidos pelo Ministério da Justiça, é o único que a gente não conseguiu reduzir. A gente conseguiu estagnar, porque estava em uma elevação muito grande,  estagnamos e estamos trabalhando em cima disso. Mas isso só vai mudar, eu sou sincero, quando mudar a mentalidade, o que vai ser na próxima geração, talvez na geração dos meus filhos. O Brasil e o estado de Goiás têm uma sociedade machista, isso vai ter que mudar dentro da escola, dentro da educação para começar a refletir, não vai ser algo que vai de uma hora para outra estagnar. Preocupa-me bastante, tenho reunido, nós não estamos inertes, mas a gente precisa do apoio de todos, inclusive da imprensa. Tirando o feminicídio que está registrado, os outros índices elevaram porque estamos incentivando as mulheres a denunciar, porque temos que ter o parâmetro. Nós temos várias mulheres, centenas delas em medidas protetivas, lembrando que grande parte dessas mulheres que estão sob medida protetiva não tiveram mais violência. E quero te dar uma estatística. Dentro dos feminicídios ocorridos, 74% foram cometidos em ambientes internos. Dentro de residência, dentro do domicílio, locais onde a Polícia Militar e a Polícia Civil não conseguem alcançar.  A gente não achou a fórmula, realmente é um grande desafio que não só o estado de Goiás, mas como todo o país tem.

Segundo o Atlas da Violência 2026, nenhuma cidade goiana aparece entre as 20 mais violentas do Brasil, mas municípios do Entorno do Distrito Federal concentram as maiores taxas de homicídios em Goiás. Por que é mais difícil combater a violência nessas regiões?

O Entorno sempre foi uma preocupação nossa, lembrando que em 2019, quando eu era comandante-geral, nós tínhamos quatro cidades do Entorno entre as 20 mais violentas. Já foi uma grande conquista, não estamos nem entre as 100 mais violentas nem entre as 20. O Entorno é algo que tem especial atenção por causa da migração de Brasília-Goiás e Goiás-Brasília, mas lá melhorou bastante. A região é dividida em três regionais, temos comandantes extremamente capacitados que têm trabalhado bastante. Inclusive, estamos com um planejamento que logo o governador Daniel Vilela vai lançar, está sabendo em primeira mão, o Comando de Missões Especiais do Entorno, o ICME, unidades que tem aqui na capital, do Bope, do Giro, da Rotam que já tem lá, do Choque que já tem em Valparaíso, para continuar trabalhando e mantendo esse cinturão. E ali precisa principalmente da integração com o DF, com Brasília, para poder se comunicar e dar tranquilidade. Mas eu posso afirmar, mudou da água para o vinho. Hoje a segurança pública no Entorno é algo assim que é inimaginável em relação ao que tínhamos antes.

O ICME começa a operar nessa região no Entorno quando? 

Algumas estão operando, a Rotam em Luziânia, no Jardim Ingá, e o Choque em Valparaíso. Mas vamos deixar isso para o governador colocar. Mas a preocupação com o Entorno é constante e vamos reduzir (os índices) ainda mais. Em 2025 já houve reduções expressivas no Entorno e em 2026, no primeiro semestre, eu vou apresentar também essas reduções.

O ex- governador Ronaldo Caiado vem afirmando em sua pré-campanha que as facções como PCC e CV não têm controle sobre o território goiano, todavia, o MP vem combatendo em Goiás o narcotráfico ao longo da “Rota Caipira” e esquemas de lavagem de dinheiro via setor de combustíveis e fintechs. O crime organizado já está instalado em Goiás?

Até corrigindo, a gente nunca falou que aqui não tem crime organizado, ele está controlado, inclusive as suas principais lideranças aqui no estado de Goiás estão isolados. O trabalho com o Ministério Público, principalmente através do Gaeco, com a Polícia Federal, Rodoviária Federal e com nossas forças de Segurança Pública estadual e municipal, é constante. Semana passada foram diversas operações deflagradas pela Polícia Civil, a Polícia Militar fez várias apreensões de toneladas de drogas em todo o estado. É um trabalho constante. Eu também não posso mentir para a população. Não existe essa utopia que não tem o crime organizado em Goiás. Ele tem, mas está controlado. Ele não domina um palmo do território goiano. Aqui no estado de Goiás, qualquer polícia nossa, civil, penal, militar, entra em qualquer local no estado de Goiás. Eu posso garantir e afirmar isso. Estamos combatendo de forma dura o crime organizado, muito dura e precisamos dos órgãos de investigação, do Ministério Público. Nesses crimes financeiros, nós temos dificuldade, porque não temos acesso ao Coaf. Realmente precisa ter essa integração com a Polícia Federal, com o Ministério da Justiça, com o próprio Ministério Público. O crime organizado existe, mas está totalmente controlado aqui em Goiás.

Como que o senhor vê a proposta do ex-governador Ronaldo Caiado de classificar as facções como grupos terroristas? E de que forma isso ajuda no combate desses braços criminais?

Fundamental. Eu concordo plenamente com o ex-governador Ronaldo Caiado, porque temos a questão de fronteiras. O Brasil é um país continental, e a partir do momento em que classifica essas organizações criminosas dessa forma, como organizações terroristas, a gente pode ter a atuação das Forças Armadas, que é fundamental para poder fortalecer as nossas fronteiras. A gente não pode deixar, como outros países que eu não gosto de citar aqui, virar um país do narcotráfico. Então temos que classificar e combater duramente essas facções.

Queria repercutir casos específicos, como por exemplo o uso político de agentes das forças de Segurança Pública. Nós tivemos recentemente o caso da prisão de um influenciador digital em Rio Verde, que seria em razão da  política local. As forças de segurança, no caso a Polícia Militar, têm sido instrumentalizadas para uso político em alguns municípios? 

De forma nenhuma. Nós somos imparciais. O agente que está lá na frente, o operador de segurança, no momento lá não está trabalhando por uma questão política de A, de B, mesmo que ele tenha a sua opinião pessoal e partidária, como qualquer cidadão na sua livre escolha de quem vai escolher para ser seu candidato. O que acontece é que está incorrendo em um crime, foi encaminhado e a polícia judiciária, que é a Polícia Civil, fez a devida prisão. nossas forças de segurança eu posso afirmar que age de forma imparcial. Nós não entramos nessas questões, nós somos técnicos, essas questões políticas ficam para os políticos. Eu não gosto de entrar nessas polêmicas, e a gente vai fazer aquilo que é certo e que é devido.

Qual a posição do senhor em relação ao uso das câmeras corporais pelos policiais?

Não há necessidade. Hoje existe câmera em qualquer local, inclusive nós vamos digitalizar todo o estado. Imagina, você como jornalista, como repórter, com uma câmera 24 horas sobre você, produzindo provas o tempo todo. Quando eu encontro com você, você não pode conversar com nada porque está sendo gravado. E outros estados que colocaram as câmeras corporais, não estão utilizando mais. A gente não tem nada a esconder, nós temos que ter uma corregedoria forte, aqueles que excederem de sua autoridade, que abusarem, que incorrerem no crime, vão passar por um procedimento administrativo disciplinar, o seu devido inquérito legal para poder ter a sua devida ampla defesa e ser punido ou não. A gente rechaça a câmara corporal porque ela é inibidor e até que prova em contrário, os operadores da força de segurança pública são pessoas de bem, são pessoas que trabalham em consonância com a legislação legal.

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