A chegada de medicamentos como semaglutida e tirzepatida ampliou as possibilidades de tratamento da obesidade, mas não eliminou a importância da cirurgia bariátrica e metabólica. No Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, celebrado em 11 de outubro, especialistas reforçam que a escolha do tratamento deve considerar as necessidades de cada paciente, a presença de doenças associadas e os resultados das abordagens já utilizadas.
Para o cirurgião-geral Leonardo Emílio da Silva, professor adjunto de Cirurgia da Universidade Federal de Goiás (UFG), a cirurgia não deve ser encarada apenas como a última alternativa após o insucesso de outros tratamentos. O procedimento pode fazer parte de um plano de cuidado individualizado, assim como os medicamentos e o acompanhamento multiprofissional.
A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e sujeita a recaídas. Seu desenvolvimento envolve fatores biológicos, genéticos, ambientais e sociais. Por isso, associar a condição à falta de vontade desconsidera sua complexidade e pode reforçar o preconceito contra quem precisa de tratamento.
O objetivo do cuidado vai além da perda de peso. A abordagem busca controlar doenças associadas, reduzir riscos à saúde e melhorar a qualidade de vida.
Obesidade está associada a doenças crônicas
A relação entre obesidade e outras doenças ajuda a dimensionar a importância do diagnóstico e do tratamento. Dados da Federação Internacional de Diabetes, publicados na 11ª edição do Atlas da entidade, em 2025, estimam que 589 milhões de adultos de 20 a 79 anos viviam com diabetes em 2024. O número equivale a aproximadamente uma em cada nove pessoas nessa faixa etária. A projeção é de 853 milhões de adultos com diabetes em 2050.
Cerca de 90% dos casos de diabetes são do tipo 2, para o qual o excesso de peso e a obesidade são fatores de risco importantes. Os números abrangem o diabetes em geral e não correspondem exclusivamente a casos associados à obesidade.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) também destaca o impacto das doenças crônicas não transmissíveis. Segundo a entidade, doenças cardiovasculares, câncer, doenças respiratórias crônicas e diabetes respondem por 80% das mortes prematuras provocadas por esse grupo de enfermidades. A classificação considera mortes antes dos 70 anos.
A OMS estima ainda que um índice de massa corporal acima do ideal contribuiu para 3,7 milhões de mortes por doenças crônicas não transmissíveis em 2021. O dado inclui mortes relacionadas a doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e doenças respiratórias crônicas.
Canetas emagrecedoras ampliam as opções de tratamento
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida atuam em mecanismos relacionados à fome, à saciedade e ao metabolismo. Quando há indicação clínica, podem integrar o tratamento da obesidade, com acompanhamento médico e mudanças no estilo de vida.
O uso dessas substâncias, porém, não dispensa uma estratégia de cuidado contínuo. Alimentação adequada, atividade física, acompanhamento multiprofissional e avaliação das doenças associadas continuam importantes para o controle da condição.
A escolha do tratamento depende de fatores como o histórico clínico, a gravidade da obesidade, as condições de saúde e a resposta às intervenções anteriores. Por isso, os medicamentos não substituem automaticamente a cirurgia, assim como a cirurgia não é indicada indistintamente para todas as pessoas com obesidade.
Cirurgia pode ser indicada sem que outros tratamentos sejam considerados um fracasso
A cirurgia bariátrica e metabólica continua sendo uma opção para pacientes que atendem aos critérios clínicos de indicação. A avaliação considera a gravidade da obesidade, as doenças associadas, os tratamentos anteriores e os possíveis benefícios e riscos do procedimento.
No Brasil, o Conselho Federal de Medicina atualizou as regras de indicação da cirurgia bariátrica em 2025, reforçando a necessidade de avaliação individualizada e acompanhamento multidisciplinar.
Medicamentos e cirurgia também podem integrar etapas diferentes do mesmo plano terapêutico. Em pacientes selecionados, o tratamento medicamentoso antes da operação pode contribuir para a redução de peso e para o preparo cirúrgico. Depois do procedimento, essas substâncias também podem ser consideradas quando há necessidade de ampliar o controle da doença.
Estudos apresentados em congressos da Sociedade Americana de Cirurgia Metabólica e Bariátrica apontam que o uso de medicamentos antes da operação pode auxiliar no preparo de pacientes com obesidade extrema. Os resultados, entretanto, precisam ser interpretados à luz das limitações metodológicas dos estudos e não significam que a mesma estratégia seja adequada para todos.
Tratamento deve considerar as necessidades de cada paciente
Para Leonardo Emílio da Silva, a ampliação das opções terapêuticas permite construir planos de cuidado mais individualizados. A cirurgia não deve ser entendida como punição pelo insucesso de outras abordagens, nem adiada automaticamente quando já existe indicação clínica.
O uso de medicamentos pode fazer parte do preparo e do acompanhamento cirúrgico, conforme as necessidades de cada paciente. A decisão deve ocorrer com orientação profissional, considerando os benefícios esperados, os riscos e a necessidade de acompanhamento a longo prazo.
No Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, a mensagem central é reconhecer a condição como uma doença crônica, combater o estigma e ampliar o acesso ao tratamento. Medicamentos, cirurgia e mudanças no estilo de vida podem atuar de forma complementar para reduzir os impactos da obesidade e preservar a saúde.








