Um estudo apresentado durante a reunião anual da Endocrine Society trouxe novos indícios de que a semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras” como Ozempic e Wegovy, pode oferecer benefícios que vão além do controle da glicemia e da perda de peso. De acordo com a pesquisa, pacientes com diabetes tipo 2 que utilizaram o medicamento apresentaram um risco 15% menor de sofrer fraturas em comparação com pessoas tratadas com outros medicamentos para diabetes e obesidade.
A análise avaliou mais de 35 mil pacientes e constatou que as fraturas ocorreram em 4,54% dos usuários de semaglutida ao longo de aproximadamente três anos e meio de acompanhamento. No grupo que utilizava outras medicações, o índice chegou a 5,97%.
Para o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, os resultados chamam atenção porque a saúde óssea costuma ser uma preocupação importante em pacientes com diabetes tipo 2. “Pessoas com diabetes apresentam uma combinação de fatores que pode aumentar o risco de quedas e fraturas. Além das alterações metabólicas associadas à doença, frequentemente estão presentes comprometimento da mobilidade, neuropatias e outras complicações que podem impactar diretamente a saúde óssea”, explica.
Segundo os pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, os usuários de semaglutida também registraram maior redução do índice de massa corporal (IMC) ao longo do período analisado. Tradicionalmente, a perda de peso está associada a algum grau de perda óssea, o que torna os resultados ainda mais relevantes.
José Israel destaca que a descoberta pode ajudar a esclarecer uma preocupação que acompanha o uso dos medicamentos para emagrecimento. “Durante muito tempo, existia o receio de que uma perda de peso expressiva pudesse aumentar o risco de fragilidade óssea. Estudos como este sugerem que determinados medicamentos podem exercer efeitos mais complexos e potencialmente benéficos para o organismo”, afirma ele.
Os autores ressaltam, no entanto, que o estudo foi observacional e não permite concluir uma relação direta de causa e efeito. Por isso, defendem a realização de ensaios clínicos randomizados para confirmar os achados e compreender melhor os mecanismos envolvidos.
A pesquisa também levanta a hipótese de que os agonistas do receptor de GLP-1 possam exercer algum efeito protetor sobre o tecido ósseo. Os cientistas pretendem investigar se esse possível benefício é exclusivo da semaglutida ou se também está presente em medicamentos dessas “canetas emagrecedoras” mais recentes da mesma classe terapêutica.
Na avaliação do nutrólogo, os resultados devem ser interpretados com cautela, mas representam uma notícia positiva para pacientes e profissionais de saúde. “Ainda não podemos afirmar de forma definitiva que a semaglutida exerça um efeito protetor sobre os ossos, mas os dados são encorajadores. Se pesquisas futuras confirmarem esse benefício, estaremos diante de um importante efeito adicional para pacientes com diabetes tipo 2, especialmente aqueles com maior risco de fraturas e complicações relacionadas ao envelhecimento”, conclui José Israel.
Os pesquisadores defendem agora a realização de novos estudos com métodos mais avançados de avaliação da estrutura óssea, com o objetivo de verificar se a redução observada no número de fraturas está diretamente relacionada a alterações na qualidade e na resistência dos ossos. Enquanto isso, os resultados são considerados encorajadores e contribuem para ampliar o entendimento sobre os possíveis impactos da semaglutida na saúde global dos pacientes.














