Skip to content

Uma das principais séries do ano: Em Pluribus, toda escolha fere alguém


Danilo Santana Por Danilo Santana em 06/02/2026 - 12:30

Imagem: Rhea Seahorn como Carol em Pluribus

Pluribus é uma série desconfortável porque recusa atalhos morais. Vince Gilligan, aqui mais uma vez reconhecível pelo seu “dedo único”, constrói uma narrativa em que a união não surge como virtude espontânea, mas como um gesto raro e frequentemente sabotado pela mesquinharia humana. Não há discursos edificantes nem redenções fáceis. O que existe é um retrato preciso de como pessoas, quando colocadas sob pressão, tendem a proteger menos o coletivo e mais o próprio território simbólico.

Parte da recepção calorosa da série nasce de uma expectativa quase automática. O nome de Gilligan carrega prestígio, assim como o histórico recente da Apple TV+ cria um ambiente de confiança prévia. Esse duplo entusiasmo, no entanto, funciona como armadilha crítica.

Inicialmente, a série se apresenta como um híbrido instável: horror, ficção científica, fantasia e comédia sarcástica disputam espaço. Contudo, com o avanço da narrativa, essas camadas deixam de parecer identidade e passam a funcionar como ferramentas. O ponto de virada acontece quando o olhar cínico se consolida, sobretudo a partir da perspectiva de Carol e da entidade coletiva que organiza aquela sociedade. A série abandona qualquer promessa de mistério a ser solucionado e assume uma função mais incômoda: provocar reflexão contínua, sem oferecer catarse ou resposta moral clara.

Criador de 'Breaking Bad' fala a VEJA sobre sua nova série, 'Pluribus' | VEJA

O novo enredo de Vince Gillian

Pluribus acompanha um grupo de pessoas foram surpresas por um experimento coletivo que, em teoria, pressupõe igualdade de voz e responsabilidade compartilhada. A humanidade agora tem apenas uma consciência, com exceção de 13 pessoas que ficaram imunes ao que os outros chamam de “the joining.” No entanto, à medida que a convivência se prolonga, a série revela como regras aparentemente neutras passam a favorecer alguns, enquanto outros são empurrados para posições de silêncio e desgaste. A narrativa se desenvolve menos por eventos externos e mais pela transformação gradual das relações, encabeçadas por Carol (Rhea Seehorn) mostrando como alianças frágeis, disputas por controle e pequenas concessões morais moldam um sistema que se sustenta não pela união, mas pela aceitação passiva da desigualdade.

Gilligan nunca acreditou em heróis puros e não é diferente aqui. Assim como em Breaking Bad e Better Call Saul, as escolhas importam mais do que as intenções. Os personagens até falam em cooperação, mas agem movidos por medo, vaidade ou ressentimento. A série observa, com frieza cirúrgica, como pequenas concessões éticas se acumulam até se tornarem estruturas de exclusão. Nada explode de uma vez. Tudo apodrece aos poucos.

O mérito da série está justamente nessa recusa ao espetáculo óbvio. Não assista na esperança de grandes reviravoltas, a trama se comporta mais como um quebra cabeça que vamos montando aos poucos, junto a protagonista. Gilligan filma a convivência do grupo de pessoas não infectadas como um campo minado: cada gesto carrega cálculo, cada silêncio tem peso político. O coletivo é um problema logístico e emocional.

‘Pluribus’ Star Rhea Seahorn ‘BLACKED OUT’ During Golden Globes Speech (Exclusive)
Rhea com seu Globo de Ouro (Imagem: Golden Globes)

O elenco sob medida

O elenco sustenta esse projeto com atuações contidas e profundamente conscientes do texto que carregam. Rhea Seehorn, em especial, volta a provar por que se tornou uma das intérpretes mais respeitadas da televisão recente. Seu trabalho em Pluribus dialoga diretamente com a complexidade moral que já havia marcado sua carreira, agora ampliada pelo reconhecimento institucional: o recente conquistado por Rhea parece ter aparecido na hora certa, durante um protagonismo e levando a atriz aos holofotes que não seria exagero terem virado à ela em Better Call Saul. Ao redor dela, o elenco evita excessos, exatamente o que parece que Gilligan gostaria de ver.

Pluribus": Vince Gilligan detalha final perturbador da 1ª temporada | CNN Brasil

Poder, privilégio e o custo de resistir

A grande maturidade de Pluribus está em recusar a heroificação. Carol começa como oposição evidente a uma sociedade uniformizada e, portanto, surge como figura “certa” diante de uma felicidade compulsória que ecoa críticas contemporâneas ao espetáculo, à padronização e à alienação. Porém, quando a série passa a tratar a felicidade extrema e a recusa absoluta como problemas equivalentes, ela muda de patamar. A resistência de Carol deixa de ser virtude automática e passa a ser analisada como prática situada, atravessada por privilégios.

O episódio The Gap cristaliza essa virada ao intercalar a trajetória do paraguaio com a depressão confortável de Carol. A recusa dela é possível porque seu corpo não paga o mesmo preço. Já a resistência do paraguaio fere, marca, sangra. Ele não tem margem. A série escancara, então, uma verdade incômoda: nem toda recusa é igualmente custosa, e nem toda resistência é igualmente heroica. Nesse ponto, Pluribus deixa de ser uma fábula sobre indivíduo versus coletivo e se revela uma crítica de classe, de poder e de centralidade.

Os personagens

Carol passa a funcionar como alegoria clara dos Estados Unidos. Sua insistência em resolver tudo sozinha, sua crença de que apenas seu método é válido e sua dificuldade em aceitar soluções coletivas refletem uma lógica imperial de centralidade. Enquanto o mundo tenta se reorganizar, ela reage com ressentimento por não estar no centro. O coletivo, por sua vez, não aparece apenas como alienação, mas como tentativa desesperada de continuidade. Não é um ideal, é sobrevivência.

A série se recusa a defender qualquer polo. A conformidade absoluta apaga o humano, mas a recusa radical também produz vítimas. Quando Carol impõe sua visão, pessoas morrem. Não por maldade explícita, mas porque ela ignora a realidade do outro. O gesto dela exige que o mundo se molde ao seu ego. Esse é o ponto em que Gilligan retorna ao território que domina: o poder como força corrosiva. Assim como Walter White acreditava controlar suas escolhas, Carol acredita resistir a um sistema opressor, enquanto exerce um poder que só se sustenta porque outros absorvem o impacto.

O contraponto de Diabaté reforça essa lógica. Sua liberdade restrita elimina o conflito e, com isso, elimina também a humanidade. No fim, nenhum dos extremos permanece humano. Quem carrega essa humanidade até o limite é o paraguaio e exatamente por isso ele sofre mais.

Onde assistir

Atualmente, Pluribus está disponível para streaming no AMC+ e na Amazon Prime, com exibição também vinculada aos canais da rede AMC, dependendo da região. A série é uma boa pedida para maratonar em um fim de semana, com oito episódios de 40 minutos de média.

Leia também: O Agente Secreto dialoga sobre gentrificação do cinema, da identidade e da memória de um país inteiro

Danilo Santana

Jornalista e produtor audiovisual baseado em São Paulo. Escreve sobre cultura e esporte.

Pesquisa