A Prefeitura de Goiânia deve concluir em até seis meses a USF Santa Terezinha, na base eleitoral do deputado estadual Clécio Alves (MDB), hoje adversário do prefeito Sandro Mabel (UB). O posto integra as três unidades modulares de saúde em execução pelo programa “Goiânia Adiante”, lançado em 2023 pelo ex-prefeito Rogério Cruz (SD). Ao todo, eram previstas 14 unidades ao custo unitário médio de cerca de R$ 4 milhões.
Já sob a gestão do prefeito Sandro Mabel (UB), o contrato com a empresa TCI Projetos e Construções Eireli foi reduzido de R$ 62 milhões para R$ 9,6 milhões, o suficiente para concluir apenas as três unidades em execução e descontinuar a iniciativa, conforme termo aditivo publicado nesta semana.
A USF Santa Terezinha, primeira anunciada do pacote, virou palco de embate político. No final de agosto, o deputado Clécio Alves usou as redes sociais para criticar a gestão por retirar a placa da obra que informava sobre a emenda de sua autoria, no valor de R$ 1,22 milhão, quando ele ainda era vereador. A unidade homenageia a mãe de Clécio, Terezinha de Jesus Silva, que faleceu em 2022.
“Esse aqui ó, é o posto de saúde Terezinha de Jesus Silva, foi construído com uma emenda de minha autoria como vereador. Esse prefeito do carimbo tá só terminando aquilo que já estava tudo pronto”, bradou. “Prefeito, respeita o trabalho dos outros, já que você só engana, essa obra é minha”, declarou Clécio em vídeo publicado em suas redes.
A fala expôs a disputa pela paternidade da obra. Para Clécio, a unidade é fruto de sua atuação como vereador. Para a gestão Mabel, a narrativa é de que o Paço está “enxugando contratos” para entregar o que de fato é possível concluir.
Goiânia Adiante
Em janeiro de 2023, Rogério Cruz assinou a ordem de serviço para a primeira unidade modular da capital, entre os setores Luanna Park e Lorena Park. À época, a gestão anunciou que a tecnologia pré-moldada permitiria construir 14 novas unidades em até 18 meses, substituindo prédios alugados ou improvisados.
O investimento na saúde fazia parte de um pacote maior de R$ 1,7 bilhão em obras, dos quais R$ 144,2 milhões seriam destinados à área.
O discurso oficial era de economia e rapidez. O secretário de Saúde na ocasião, Durval Pedroso, dizia que cada prédio custaria em média R$ 4 milhões, com padrão do Ministério da Saúde, consultórios médicos e odontológicos, sala de vacinas e auditório.
A promessa de construir 14 prédios modulares em até 18 meses não saiu do papel. Em novembro do mesmo ano, a gestão já havia desistido do modelo, considerado demorado.
Dois anos depois, restam apenas três obras em execução, uma delas no coração da base eleitoral de Clécio Alves, hoje palco de disputa entre passado, presente e futuro da saúde da capital.
A assessoria do prefeito informou que a obra está na reta final, ainda sem previsão de inauguração.
Obras na Saúde
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) realizou a contratação emergencial da empresa Hebrom Comércio e Serviços Ltda para a reforma de unidades da pasta ao custo de R$ 2,6 milhões. Não há outra empresa contratada para construção de novas unidades.
Sobre o cronograma de finalização e inauguração das três obras, a pasta afirmou que “apesar da gestão anterior divulgar a construção de 12 USF’s no Programa Goiânia Adiante, a ordem de serviço expedida à época autorizou a execução de apenas três unidades de saúde (USF’s Vale dos Sonhos, Santa Fé e Terezinha de Jesus).”.
Segundo a SMS, o aditivo “não reduziu a quantidade de USF’s, mas ajusta juridicamente o contrato à realidade de execução, assegurando a segurança jurídica do instrumento e a continuidade das obras”.
Deputado e prefeito trocam acusações públicas
Desde que assumiu o governo, o prefeito Sandro Mabel (UB) tem feito críticas públicas ao grupo político liderado por Clécio Alves, especialmente dentro da Comurg, onde Clécio Alves tinha indicações nas últimas administrações.
Recentemente, ao comentar ataques que vem recebendo, até mesmo de vereadores da base, o prefeito citou nominalmente Clécio em uma entrevista coletiva. Mabel disse que as críticas que Clécio faz da tribuna da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) quase diariamente ocorrem porque tirou espaço dele na Companhia.
“As pessoas reclamam de mim porque acabei com a mamata. Tinha umas tetas gordas em que o pessoal estava mamando e eu enxuguei elas”, afirmou. “É por isso que o deputado Clécio me xinga todo dia na Assembleia. Ele tem razão em me xingar porque eu cortei um dinheiro grande que ele tirava da Comurg, de outros lugares. Sou inimigo dele, mas amigo da cidade”, cutucou o prefeito.
Clécio classificou as falas como “falsas e ofensivas” e disse que não aceitará o que considera perseguição política. “Acabou a conversa, agora a resposta é na Justiça. Já estou entrando com ação e ele vai ter que provar o que disse”, declarou.
Em tom de enfrentamento, o ex-vereador ressaltou seus 25 anos de vida pública e afirmou ter trajetória limpa. “Minha escola é a de Iris Rezende. A sua é a da Odebrecht”, disse, referindo-se ao prefeito.
Na ocasião, o deputado também acusou a prefeitura de praticar atos de retaliação contra ele. Como exemplo, citou a troca de lâmpadas em sua rua, com exceção da que fica em frente ao seu escritório. “É uma perseguição pequena, de quem não respeita a democracia”, criticou.
Outro ponto de divergência foi a retirada de uma fonte luminosa do Parque da Lagoa, no Setor João Braz, para ser reinstalada no Parque Vaca Brava, no Setor Bueno. Clécio criticou a retirada de um bairro periférico para beneficiar setor nobre da capital e classificou a escolha da gestão como uma “imbecilidade”.
A reclamação em torno da fonte reverberou na Câmara com críticas do filho do deputado, vereador Luan Alves (MDB). Na época, ele disse que a presidente da Agência Municipal de Meio Ambiente (Amma) é incompetente.













