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“PT precisa se renovar em pensamento”, diz Adriana Accorsi

Deputada federal defende mudanças na atuação partidária, rebate resistências internas e aposta na mobilização popular para fortalecer Lula na reta final da eleição


Andréia Bahia Por Andréia Bahia em 18/10/2026 - 08:28

Adriana Accorsi Lula Goiás

A deputada federal Adriana Accorsi (PT-GO) assume a coordenação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Goiás na reta final da eleição com duas frentes de atuação: ampliar a mobilização popular e defender uma renovação na forma de atuação do Partido dos Trabalhadores. Presidente estadual da legenda, ela avalia que o desempenho eleitoral do PT e o crescimento da participação de jovens e mulheres demonstram a existência de um campo progressista expressivo no Estado. Em entrevista à Tribuna do Planalto, Adriana comenta a criação da corrente interna Força Popular, as resistências enfrentadas dentro do partido e a necessidade de aproximar a legenda dos movimentos sociais e dos trabalhadores. Também explica por que considera encerrada a possibilidade de aliança com o PSDB de Marconi Perillo, avalia os desafios da campanha de Lula em Goiás e reforça a defesa de pautas como o fim da escala 6×1, a ampliação das políticas sociais e a valorização dos serviços públicos.

A senhora assume agora a coordenação da campanha de Lula em Goiás nesta reta final da eleição. Quais são os principais desafios do PT em Goiás para tentar reverter o resultado do primeiro turno?

Primeiro é importante salientar a grande vitória que o PT teve nessas eleições. Nós aumentamos as votações em todas as chapas, tanto para governo, para deputado federal, para deputado estadual, aumentamos as votações dos dois deputados federais e aumentamos a bancada de deputados estaduais, quatro deputados com uma votação expressiva, na nossa chapa. Isso nos dá muita força, muita esperança e otimismo. Por outro lado, na sexta-feira,16, foi publicada uma pesquisa na qual subimos seis pontos e empatamos com Flávio Bolsonaro. Não há nenhuma diferença, foram três mil entrevistados Essa pesquisa nos dá também muita esperança. Minha coordenação se inicia com um grande ato na Praça Universitária, com a presença do ministro Guilherme Boulos, com milhares de pessoas, principalmente jovens, jovens mulheres, jovens estudantes, demonstrando a preocupação com a educação pública, com os direitos das pessoas, das mulheres, crianças e adolescentes. Estou muito otimista e os próximos passos são movimentações de rua. Nossa esperança é vencer as eleições e seguir com as políticas sociais, com as políticas públicas, com o fim da escala 6×1, não aceitamos hora trabalhada, não aceitamos acabar com a universidade pública como a extrema-direita quer, vamos lutar para seguir avançando o nosso país e o desenvolvimento econômico.

Os atos que aconteceram nacionalmente e em Goiânia no último domingo impulsionaram essa essa reação do presidente Lula?

Sem dúvida. Só que eles aconteceram em todo o Brasil, não foi só em Goiânia. Goiânia marca porque é algo inédito aqui. Eu participo de movimentos sociais desde o movimento estudantil, desde a minha infância, e eu nunca vi uma movimentação tão forte como essa, com forte presença dos estudantes. Eu vim do movimento estudantil, para mim isso é muito inspirador, me dá muita esperança, muita força numa nova política no nosso país. E teremos um grande ato das mulheres, demonstrando a força, porque as mulheres novamente terão a força que vai fazer o presidente Lula vencer as eleições.

O PT ficou à frente do ex-governador Marconi Perillo e melhorou a votação em relação a Wolmir Amado, em 2022. O PT ajuda a enterrar o ninho Tucano em Goiás?

Não é nossa intenção nem objetivo. O PSDB é um partido que acabou no Brasil todo, nós não temos objetivo de enterrar ninguém, nós temos objetivo de levantar as nossas propostas. Esse resultado com Luis Cesar Bueno mostra que há um campo grande para o pensamento progressista em Goiás, ao contrário dessa conversa de que Goiás só vota em direita, Goiás é extremamente conservador, que foi a linha, inclusive, que o ex-governador Marconi Perillo escolheu seguir, da direita, de criticar o governo Lula, mostrou que há uma vertente progressista democrática muito grande e nós conseguimos, sob a minha presidência na Federação Brasil da Esperança, a maior coligação da história de esquerda de Goiás. Foram sete partidos. Foi uma grande vitória, mostrou a força do pensamento progressista. Inclusive essa frente democrática de sete partidos que foi integrada agora por membros da cidadania, que participou do evento com o ministro Guilherme Boulos, demonstra o crescimento do pensamento progressista em Goiás. Não há intenção de enterrar ninguém. Nossa intenção é levantar os programas sociais, os direitos dos trabalhadores, como o fim da escala 6×1, que foi uma grande luta minha. Eu fui a primeira deputada de Goiás a levantar essa bandeira e lutei muito para aprovar, e conseguimos aprovar. É uma grande conquista trabalhadora, e uma grande conquista para as mulheres. Porque nossa escala é sete por zero, inclusive minha. Eu, que sou uma mulher que tem um salário privilegiado, trabalho sete por zero, porque eu tenho criança, a gente trabalha mesmo. Imagina as companheiras, mulheres trabalhadoras, como elas sofrem, não têm um dia para descansar, para um autocuidado, para brincar com o filho. Nós vamos mudar essa realidade no Brasil, mas ainda falta muito. Esse é o nosso objetivo, mais direito, mais casa para o povo, mais SUS, mais farmácia popular, mais instituto federal, mais universidade federal, é isso que nós queremos.

Setores do PT queriam uma aproximação com Marconi.

Mas quando o PSDB decide ser oposição ao presidente Lula, para mim,  acabou. O apoio ao candidato aqui era para apoiar o Lula. Na medida em que o PSDB nacional, não foi nem o Marconi, na pessoa do presidente Aécio Neves, decidiu ser oposição, acabou. Eu sabia que não ia prosperar, tinha certeza; infelizmente tem pessoas que não veem a realidade. E quem decide é a direção do partido, não são eles. Eu sou a presidenta.

Marconi errou em ter se aproximado mais à direita e ao bolsonarismo?

Essa é a avaliação dele, a decisão que ele tomou, eu respeito dentro da democracia, tenho respeito por ele, fui delegada-geral no governo dele, fui muito respeitada, consegui fazer um bom trabalho na Polícia Civil, e o resultado mostra que ele foi equivocado. Isso o resultado mostra, não é opinião, mas já é uma decisão dele, dentro do direito dele.

A senhora criou uma nova frente no PT, uma nova tendência, Força Popular, PT ao lado do povo. A senhora disse que era uma reação à velha guarda do PT. Queria saber quem são esses setores e quais interesses estão em jogo nessa disputa interna?

Essa é uma decisão que eu havia tomado há muito tempo, não é intempestiva, não é assim algo de forma impensada, não é segredo que o partido precisa se renovar, não em questão de idade, mas em questão de pensamento. Esse é um pedido do presidente Lula e eu vejo que precisamos ter um partido que esteja mais na base, mais próximo dos movimentos sociais, da periferia, do povo trabalhador. Esse é o meu pensamento. E é normal dentro do PT, termos correntes internas, mais de dez correntes, e vejo que é momento de termos uma força interna. A adesão que a Força Popular está recebendo mostra que era um desejo da militância, um sentimento da nossa militância, de um partido mais próximo do povo, mais próximo dos movimentos sociais, sindicais, ligado a essas lutas da classe trabalhadora. É algo natural dentro do partido, há pouco tempo o deputado Gomide criou a força dele, isso acontece. E não foi nada intempestivo, eu realmente já pensava nisso há muito tempo, via que necessitava dessa renovação, que não é de idade, é importante deixar isso claro, não é questão de idade, até porque eu tenho 53 anos, mas impulsionados por esse movimento da juventude, dos estudantes, mostrando interesse pela política, mostrando a preocupação com os destinos do país, nosso partido também precisa se renovar em pensamento, em atuação. Nesse sentido, eu achei importante fazer isso agora até para essa renovação ter efeitos na reta final da campanha do presidente Lula. Isso é importante, nós precisamos. Vamos fazer  uma campanha bem popular mesmo, bem ligada aos movimentos sociais, ao povo trabalhador, às mulheres da periferia, ligada a esses anseios e necessidades. O que as mulheres de Goiás precisam? Precisa de creche para as crianças, precisa de emprego digno, de transporte público digno, vamos trazer a tarifa zero para Goiás, precisa de moradia. Que se preocupe mesmo com o que o presidente Lula fala, com quem mais precisa.

Houve vazamento de prints sobre a crise desencadeada pela criação da Força Popular. 

Infelizmente. Não foi da minha parte. É um grupo interno do PT, jamais eu publico conversas de grupos internos do PT, acho isso um absurdo. Fiz uma nota, e nela eu falo desse meu pensamento de renovação, de um novo tipo de trabalho bem alinhado com o presidente Lula, bem alinhado com os movimentos sociais. Acredito que vai ser bom para o partido, porque a adesão que estou recebendo mostra que esse era um sentimento da nossa militância.

A senhora fala: “Vai quem quiser, fora a velha guarda, não quero vocês”. Isso não afasta setores do PT dessa nova frente?

Foi só um diálogo interno. Infelizmente tem pessoas sem ética que vazam. Eu não faria isso.

A senhora foi eleita presidente do PT no ano passado, com 95% dos votos, agora recebe mais de 177 mil votos, é a mulher mais votada da esquerda em Goiás. Como é explicar uma liderança do seu tamanho enfrentar tanta resistência ao longo dos últimos meses dentro do partido?

A liderança das mulheres sempre é feita de muita luta, muita luta. Eu falo porque eu sou delegada, tive que lutar muito na minha profissão, assim como outras colegas, e na política não é diferente. E o PT ainda tem instâncias paritárias, a gente tem apoio como do presidente Lula, que me apoia muito, inclusive quando me levaram para falar com ele, ele falou assim: “Minha filha, o que que você quer?” Eu falei que queria ser deputada federal. “Então pronto! Ninguém vai te obrigar.” 

Esses ruídos internos no PT,  impactam a campanha do presidente Lula em Goiás?

Pelo contrário, oxigenam a campanha do presidente Lula. A partir da minha coordenação, nós teremos uma campanha muito mais popular, muito mais ligada à população, com muito mais eventos, pode ter certeza.

Nessa renovação que a senhora defende, está prevista uma autocrítica, ou é uma renovação de lideranças?

É, não só de lideranças, mas de ideias, de forma de trabalhar, uma oxigenação inspirada nessa juventude que vem participar da política. Não é uma questão de idade, todos os movimentos precisam se oxigenar de tempos em tempos. O PT é um partido de décadas, que eu participo desde a infância, um partido que tem uma relevância histórica muito importante, uma participação nas conquistas da classe trabalhadora extremamente relevante, como décimo terceiro, férias, direitos trabalhistas, e agora o fim da escala 6×1. O PT tem uma relevância verdadeira nas conquistas da classe trabalhadora e por isso precisa sempre se renovar.

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