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Avanço do crime organizado é desafio para instituições

Advogado Fauzi Hassan Choukr diz que Justiça Eleitoral não está integralmente preparada para enfrentar o fenômeno, que preocupa observadores internacionais


Carla Borges Por Carla Borges em 21/06/2026 - 15:00

Avanço do crime organizado é desafio para instituições
(Imagem: Pillar Pedreira/Agência Senado)

A infiltração do crime organizado nas campanhas eleitorais é um desafio para as instituições brasileiras para as eleições gerais deste ano. O avanço das organizações criminosas em vários níveis das estruturas de poder diz respeito não apenas à Justiça Eleitoral, mas a todo o sistema de controle, fiscalização e repressão, que não está integralmente preparado para enfrentar esse fenômeno. A análise é do advogado, professor e promotor de Justiça aposentado do Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) Fauzi Hassan Choukr, em entrevista exclusiva à Tribuna do Planalto. Ele sugere medidas para aprimorar o financiamento de campanhas, a fiscalização e a prestação de contas, entre outros aspectos relacionados.

Fauzi Hassan Choukr argumenta que o crime organizado tem atuado nos processos eleitorais no Brasil de forma reiterada. “A imprensa tem noticiado vereadores eleitos presos por vínculos com facções, eleições suspensas por financiamento criminoso e locais de votação transferidos por pressão territorial — como o caso, em março de 2026, de um vereador fluminense preso logo após assumir o mandato, suspeito de vínculo com o Comando Vermelho”, diz. 

O caso citado é o do vereador do Rio de Janeiro Salvino Oliveira (PSD), preso durante a Operação Contenção Red Legacy, acusado de negociar apoio político com a cúpula do Comando Vermelho para atuar na comunidade da Gardênia Azul. Ele obteve um habeas corpus e foi solto em 13 de março de 2026. Posteriormente, a Justiça do Rio determinou o trancamento do inquérito por ausência de justa causa e falta de provas para a comprovação de crimes.

Financiamento

Para o advogado, que é pós-doutor pela Universidade de Coimbra e especialista em Direito Processual Penal e Direitos Humanos, há no Brasil atualmente tanto o financiamento ilegal de campanhas como o processo de intimidação de eleitores. “O fenômeno é mais visível no plano municipal, onde a capilaridade territorial das organizações criminosas se converte facilmente em domínio sobre o pleito local, como demonstrou a cassação, mantida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), de mandato em Cabedelo (PB) por compra de votos e coação ligada a facção”, aponta.

No caso citado por ele, o TSE manteve a cassação do prefeito de Cabedelo, André Luís Almeida Coutinho, e da vice, Camila Lucena, por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2024. A decisão foi em ação apresentada pelo Ministério Público (MP) Eleitoral, que apontou um esquema complexo de compra de votos, coação de eleitores e uso da máquina pública para beneficiar candidatos apoiados por facção criminosa ligada ao Comando Vermelho na disputa municipal.

Choukr pontua que os criminosos financiam campanhas, “mas não apenas isso”. “Penetram a própria máquina pública e a cadeia produtiva da campanha, lavando capital ilícito sob aparência de normalidade comercial e administrativa — como na operação que, em abril de 2026, identificou o uso de fintech própria pelo PCC para infiltração em prefeituras paulistas, com bloqueio de R$ 513,6 milhões”, aponta.

A operação desses agentes financeiros ligados ao PCC foi desmantelada em uma ação conjunta da Receita Federal, da Polícia Federal e do MP-SP na operação Fluxo Oculto. Segundo as investigações, as seis fintechs movimentaram juntas R$ 26 bilhões em operações atípicas. Só uma delas movimentou, em dinheiro vivo, mais de R$ 1 bilhão.

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