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Goiás é sétimo em trabalho infantil no Brasil

Estado registrou mais de 71 mil casos em 2024, 35% nas piores formas; Justiça do Trabalho quer mais fiscalização e rede de apoio forte


Carla Borges Por Carla Borges em 14/06/2026 - 07:40

Goiás tem 71.337 crianças e adolescentes de 5 a 17 anos no trabalho infantil, segundo o IBGE (Foto: MPT-GO)

Instituído pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil foi celebrado na sexta-feira, 12 de junho. A data deveria ter motivado reflexões e ações concretas e definitivas para mudar a realidade que sequestra a vida e os sonhos de crianças e adolescentes. Goiás, particularmente, ocupa uma posição incômoda no ranking do trabalho infantil no Brasil: o Estado aparece na sétima posição em todo o país, com 71.337 crianças e adolescentes de 5 a 17 anos trabalhando, o que corresponde a 5,3% da população nessa faixa etária. Destes, 24.724 – 35% – figuravam dentre as piores formas de trabalho infantil, conforme a Lista TIP (marco legal brasileiro para as formas mais degradantes de exploração da mão de obra de crianças e adolescente).

“Não há nada a comemorar”, resume a juíza Antônia Helena Taveira, gestora regional do Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil e de Estímulo à Aprendizagem do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 18ª Região (Goiás) em entrevista à Tribuna do Planalto. Ela chama a atenção para um dado: a realidade pode ser ainda mais preocupante. “A subnotificação dos casos é muito preocupante. Os números apurados não refletem, em medida proporcional, nos processos trabalhistas, o que significa que essa faixa da população continua à margem da fiscalização e da aplicação da legislação trabalhista e das normas de proteção existentes”, constata a magistrada.

Antônia Helena apresenta dados extraídos dos microdados da PNAD e atualizados pelo IBGE, em 2023, que mostram que, em números absolutos e percentuais do Brasil/UF, na faixa etária de 5 a 17 anos, o Estado tinha 62.695 crianças e adolescente trabalhando, correspondendo a 3,9% da população goiana nessa faixa etária. Em 2024, Goiás passou a ocupar o 7º lugar no ranking nacional, embora este número tenha aumentado para 71.337, correspondente a 5,3%, sendo 24.724 dentre as piores formas de trabalho infantil, conforme a Lista TIP.

“Vivenciamos as dificuldades gerais que estão mais intimamente ligadas às causas do trabalho infantil – pobreza e desigualdade social, baixo nível de escolaridade dos pais, falta de oportunidades para as famílias, vulnerabilidade familiar, cultura de que é melhor trabalhar do que estar nas ruas e a falta de políticas públicas eficientes e de fiscalização”, elenca. “Mas possuímos alguns componentes específicos, relacionados a características do Estado que tornam o problema mais intenso em determinados setores e dependendo, inclusive, da área em que se esteja”. 

A magistrada ressalta que Goiás é uma das maiores economias agropecuárias do país. “Crianças e adolescentes acabam sendo inseridos nessas atividades”, diz, acrescentando que nas regiões da capital e nas cidades mais desenvolvidas do Estado, é marcante a economia informal e essa faixa da população se insere no mercado de trabalho sem qualquer garantia.  “No agronegócio, a maior concentração é na pecuária e sobretudo nas chamadas economias familiares. Nas grandes cidades, a maior incidência é no comércio informal, feiras livres e oficinas mecânicas”, observa.

Juíza Antônia Helena Taveira: “A subnotificação dos casos é muito preocupante”
Juíza Antônia Helena Taveira: “A subnotificação dos casos é muito preocupante”

Monetização em redes sociais traz nova roupagem para o problema

O ambiente digital trouxe uma nova roupagem para o trabalho infantil. Embora a produção esporádica de conteúdo possa ajudar no desenvolvimento criativo da criança, o risco surge com a monetização. “O problema começa quando surge o trabalho, que é quando há monetização, habitualidade e principalmente a diminuição do tempo dessa criança”, aponta a juíza Jeanne Karla Ribeiro, do Tribunal Regional do Trabalho de Goiás (TRT-GO). Jeanne reforça que a Justiça do Trabalho deve implementar para o ambiente digital as mesmas regras utilizadas no trabalho físico, exigindo autorização e fiscalização sobre os ganhos financeiros.

A pobreza e vulnerabilidade social, a cultura de naturalização da exploração nas ruas e as novas formas de trabalho que encontraram espaço nas redes sociais são os principais desafios para o enfrentamento do trabalho infantil. “No contexto geral, é importante fortalecer ações para combate à pobreza, com ampliação e maior eficiência dos programas de transferência de renda; para ampliar as redes de proteção social, inclusive com maior acompanhamento familiar e medidas de inclusão social; para aumentar o acesso à educação e incentivar a permanência na escola; para implementar e garantir o acesso à aprendizagem profissional e, ainda, para reforçar a fiscalização”, defende a juíza Antônia Helena Taveira.

Em Goiás, especificamente, a gestora regional do Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil aponta que são necessárias ações conjuntas e efetivas entre o poder público e os setores da economia aos quais estão ligadas as áreas mais sensíveis, com finalidade de conscientização e para incentivar denúncias, efetiva integração da rede de proteção conjunta dos Conselhos Tutelares, do Ministério Público do Trabalho, da Justiça do Trabalho, e dos órgãos estaduais e municipais de assistência e desenvolvimento social, educação e saúde.

Antônia Helena defende ainda reforçar parcerias com Senar, Senac e Sesi e com outras entidades de classe para ampliar o acesso à aprendizagem e a intermediação com as empresas para fortalecer o acesso ao mercado de trabalho pela via legal. “Esta rede de proteção já vem atuando, com bons resultados, mas ainda há muito a se fazer”, reconhece. 

Já a Justiça do Trabalho, na sua vertente jurisdicional, vem se adequando para enfrentar a questão, promovendo cursos para potencializar a qualificação dos magistrados e de seus servidores e com a implementação do Protocolo para Atuação e Julgamento com Perspectiva da Infância e Adolescência. “Na sua ação institucional, o tribunal participa de campanhas de conscientização e mobilização contra o trabalho infantil e de estímulo à aprendizagem; integra, juntamente com outros órgãos, a rede de proteção para combate ao trabalho infantil e para o estímulo à aprendizagem, com vistas a ocupar todos os espaços que lhe cabem na luta para erradicação deste mal”, afirma. 

CANAIS DE DENÚNCIA COMO ACESSAR
Disque 100 Canal gratuito de Direitos Humanos, disponível 24 horas por dia. Recebe denúncias anônimas e encaminha os casos aos órgãos competentes.
Ministério Público do Trabalho (MPT) Denúncias podem ser feitas de forma sigilosa pelo site www.mpt.mp.br ou pelo aplicativo MPT Pardal.
Conselhos Tutelares Informações sobre as unidades de Goiânia podem ser consultadas no portal da Prefeitura de Goiânia.
Aplicativo Proteja Brasil Plataforma desenvolvida pela OIT e pelo governo federal para registro de denúncias e orientação sobre violações de direitos de crianças e adolescentes.

 

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