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Relatório revela prática da Voepass que pode ter contribuído para tragédia com 62 mortos em 2024

Investigação do Cenipa aponta que companhia registrava panes como resolvidas sem realizar os reparos definitivos; aeronave acidentada também não deveria ter decolado, segundo o órgão


Redação Tribuna do Planalto Por Redação Tribuna do Planalto em 27/07/2026 - 03:32

voepass
(Foto: Reprodução)

O relatório final da investigação sobre a queda do voo 2283 da Voepass trouxe novas conclusões que lançam luz sobre as circunstâncias do acidente que matou 62 pessoas em agosto de 2024. Divulgado na última quinta-feira (23) pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o documento aponta que a companhia adotava um procedimento que, na prática, permitia manter aeronaves em operação sem a correção definitiva de falhas técnicas.

Segundo o relatório, a empresa registrava determinados problemas mecânicos como solucionados após a realização de testes operacionais ou mesmo sem que o reparo efetivo tivesse sido realizado. Com isso, as aeronaves voltavam a voar e os prazos para manutenção eram renovados, apesar de as mesmas falhas reaparecerem nos voos seguintes.

O Cenipa afirma que essa prática acabava “mascarando o caráter crônico” das panes e adiando sua resolução definitiva. De acordo com a investigação, embora o uso da Lista de Equipamentos Mínimos (MEL, na sigla em inglês) seja permitido pela regulamentação, foram identificadas situações recorrentes em que o prazo para o reparo expirava durante a permanência da aeronave em aeroportos menores. Nessas ocasiões, a solução adotada era registrar um teste operacional como suficiente para liberar novamente o avião, mesmo quando a pane persistia.

O documento também concluiu que a aeronave envolvida no acidente não deveria ter decolado. O ATR-72, matrícula PS-VPB, operava com o sistema Airframe De-Icing inoperante, equipamento responsável por impedir o acúmulo de gelo na estrutura da aeronave durante o voo.

Segundo o Cenipa, diante da previsão de formação de gelo ao longo da rota entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), o voo não deveria ter sido autorizado. Durante o trajeto, o avião encontrou condições severas de formação de gelo, o que comprometeu seu desempenho aerodinâmico.

A investigação concluiu que o acúmulo de gelo provocou perda de velocidade, seguida por um estol aerodinâmico — situação em que as asas deixam de gerar sustentação suficiente —, levando à perda de controle da aeronave. O avião caiu sobre uma área residencial em Vinhedo (SP), matando os 58 passageiros e os quatro tripulantes.

O relatório detalha ainda que o registro repetitivo das mesmas falhas demonstrava que os problemas não haviam sido efetivamente solucionados. Na prática, segundo o órgão, o procedimento permitia sucessivas renovações dos prazos previstos na Lista de Equipamentos Mínimos sem que a manutenção corretiva fosse executada.

As conclusões do Cenipa reforçam que a investigação teve caráter exclusivamente técnico e voltado à prevenção de novos acidentes, não tendo como objetivo atribuir responsabilidades civis ou criminais. Ainda assim, as informações poderão subsidiar outras apurações conduzidas por autoridades competentes.

Em nota, a Voepass afirmou que colaborou de forma transparente com as investigações desde o início dos trabalhos e permanece à disposição das autoridades. A empresa classificou a queda do voo 2283 como o episódio mais difícil de sua história e reiterou solidariedade às famílias das vítimas.

A companhia também destacou que possui mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, afirmou nunca ter enfrentado uma tragédia semelhante e disse que sempre adotou procedimentos alinhados aos padrões internacionais de segurança. A Voepass ressaltou ainda que mantém a certificação IOSA, emitida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), desde 2012, e informou que a tripulação do voo era experiente, certificada e estava com treinamentos e avaliações de saúde em dia no momento do acidente.

Redação Tribuna do Planalto

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