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Eleitores indecisos aparecem em grande quantidade nas pesquisas e podem mudar cenários

Sem identidade fixa com grupos políticos, quem não sabe em quem votar ainda pode determinar mudanças significativas a nível nacional, além da realização de segundo turno e a segunda vaga ao Senado em Goiás


Por Carlos Nathan Sampaio em 23/08/2026 - 07:51

Eleitores indecisos aparecem em grande quantidade nas pesquisas e podem mudar cenários
Urna eletrônica usada para computar os votos dos eleitores (Imagem: Divulgação/TSE com edição feito por inteligência artificial)

Em uma eleição marcada por identidades políticas fortes e a polarização que já acompanha o brasileiro há décadas, há uma parcela do eleitorado que não se considera de esquerda ou de direita, não se define como bolsonarista, petista ou ligada a qualquer outro grupo e ainda não sabe em quem votar. Esses eleitores independente e indecisos não forma necessariamente um bloco com ideias comuns. Reúne pessoas desinteressadas, pouco informadas sobre as candidaturas, insatisfeitas com as opções ou dispostas a decidir somente depois de debates, propaganda, propostas e acontecimentos da campanha. No Brasil e em Goiás, esse grupo pode não ser suficiente para inverter algumas lideranças, mas tem potencial para alterar o caminho da eleição.

Pesquisa Quaest encomendada pela TV Globo mostra o tamanho da indefinição nacional. No levantamento espontâneo, quando nenhum nome é apresentado, 51% ainda não tinham candidato à Presidência. Se fossem tratados como uma candidatura, os indecisos apareceriam na terceira colocação. Na pesquisa estimulada, porém, o índice caía para 10%. Foram ouvidas 2.004 pessoas entre 10 e 13 de agosto, com margem de erro de dois pontos percentuais. O levantamento foi registrado no TSE. Outros levantamentos recentes apontaram fenômeno semelhante: o Gerp encontrou 28% sem definição na espontânea, enquanto a CNT/MDA registrou 31%.

A diferença entre as duas formas de perguntar ajuda a compreender o estágio da disputa. Para o cientista político Guilherme Carvalho, a eleição nacional recebe atenção durante mais tempo, porque mobiliza debate ideológico e maior consumo de informação. Nas disputas estaduais e legislativas, conhecer candidatos exige esforço adicional. Quando vê a lista, o eleitor identifica figuras conhecidas e escolhe por lembrança ou rejeição. “Ele tem um atalho informacional, mas isso não quer dizer que é um voto consolidado”, explica. Segundo ele, os números ainda devem mudar ao longo da campanha.

A decoradora Cristina Sousa, de 49 anos, representa parte desse eleitorado que muita gente conhece bem. Ela não acompanha política regularmente e costuma definir o voto perto da eleição, influenciada por pessoas próximas. “Eu não ligo para política, não entendo e acabo votando em cima da hora por vários motivos: ou por influência do marido, ou dos filhos, ou mesmo de amigos, alguns que têm amigos candidatos”, relata. Cristina reconhece o peso da decisão, mas diz que a rotina dificulta a busca por informações: “Eu sei da importância, mas não consigo usar tempo de qualidade para me envolver melhor em assuntos de política”.

Esse comportamento ajuda a explicar por que presidente e governador costumam receber escolhas mais refletidas, enquanto deputados e senadores acabam selecionados com menor critério. Os cargos legislativos disputam atenção com chapas extensas e, neste ano, o eleitor terá seis votos: deputado federal, deputado estadual, dois senadores, governador e presidente. Sem pesquisa prévia, aumentam o peso do nome conhecido, da indicação familiar, das redes sociais, de lideranças locais e das “dobradinhas” entre candidatos.

Em Goiás, a Paraná Pesquisas divulgada na última terça-feira, 18 de agosto, mostra como a indefinição pode produzir efeitos diferentes. Na disputa pelo governo, Daniel Vilela tem 45,8%, Marconi Perillo, 24,9%, e Wilder Morais, 13,2%. Outros 4,8% não souberam ou não opinaram, e 6,9% escolheram nenhuma candidatura, branco ou nulo. Juntos, esses dois grupos somam 11,7%, menos que a vantagem de 20,9 pontos de Daniel sobre Marconi. Mesmo uma migração integral para o segundo colocado não retiraria a liderança do governador.

Isso não significa primeiro turno decidido. Excluídos brancos, nulos e indecisos, Daniel tem aproximadamente 51,9% dos votos válidos. Se cerca de 3,3 pontos dos indecisos passassem para adversários, sem novos votos para ele, o governador ficaria no limite de 50%. A margem de erro de 2,8 pontos reforça a cautela. O instituto ouviu presencialmente 1.240 eleitores de 61 municípios entre 14 e 17 de agosto, com nível de confiança de 95%.

Guilherme Carvalho pondera que a dificuldade de uma vitória imediata não decorre apenas da indefinição. “É muito difícil ele vencer em primeiro turno pela grande fragmentação de candidaturas competitivas”, avalia. O cientista cita as candidaturas ligadas ao PT e ao PL, além do alto recall de Marconi. Para ele, a distribuição de votos entre adversários torna o primeiro turno mais difícil, enquanto as alianças posteriores podem criar outro cenário em eventual confronto direto.

O Senado apresenta incerteza ainda maior. Como cada eleitor pode escolher dois nomes, os percentuais não podem ser redistribuídos como na disputa pelo governo. Gracinha Caiado lidera com 41%, seguida por Gustavo Gayer, com 27,1%; Vanderlan Cardoso tem 21,4%, Zacharias Calil, 19,5%, e Gustavo Mendanha, 16,3%. Os 7,1% que não sabem ou não opinaram são suficientes, numericamente, para superar a diferença de 5,7 pontos entre Vanderlan e Gayer. Outros 8,6% indicaram nenhum, branco ou nulo.

Na espontânea, 76% não citaram candidato ao Senado, sinal de que o voto está longe de ser consolidado. “A corrida pelo segundo voto talvez seja a disputa mais indefinida que nós vamos ter”, afirma Carvalho. Segundo ele, o senador costuma ser o último nome escolhido, e a existência de duas vagas aumenta o custo de buscar informação. Gracinha se beneficia do sobrenome e da associação com o ex-governador Ronaldo Caiado; Gayer pode atrair pelo fator ideológico, enquanto Vanderlan conta com a visibilidade de quem já ocupa o cargo.

Também é necessário separar indecisos de eleitores que declaram branco, nulo ou nenhuma opção. O primeiro grupo ainda não escolheu ou prefere não revelar. O segundo manifesta rejeição aos nomes disponíveis, embora possa mudar. “Pode ser o eleitor que ainda vai se definir”, diz Carvalho, mas acrescenta que grande parte tende a manter o voto inválido ou a se abster por não se sentir representada. Por isso, esses percentuais não constituem um estoque automaticamente transferível a qualquer candidatura.

Até o primeiro domingo de outubro, dia 4, debates, propaganda eleitoral, desempenho econômico, propostas para problemas concretos, apoios, crises, denúncias e erros de campanha podem reorganizar preferências. Conversas com familiares e amigos também pesam para quem acompanha pouco a disputa, como mostra Cristina. No quadro atual, o eleitor independente dificilmente apaga sozinho vantagens amplas, mas pode retirar votos suficientes para provocar segundo turno, decidir quem avançará e definir a segunda cadeira de Goiás no Senado. Sua força estará menos numa identidade comum e mais no momento, no critério e no destino de uma escolha ainda aberta.

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