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A Política e a Arte da Guerra: Estratégia, Lealdade e o Desafio de Governar


Por Rodrigo Zani em 02/07/2026 - 09:14

Dizem que a política é a arte do possível. Mas talvez ela também seja, em muitos aspectos, a arte da guerra. Não por incentivar conflitos, e sim porque, assim como ensinou Sun Tzu em A Arte da Guerra, vencer exige estratégia, inteligência, preparo e a capacidade de compreender tanto os aliados quanto os adversários.

A política, assim como uma guerra, é construída por homens e mulheres que ocupam posições estratégicas. Cada movimento tem consequências. Cada decisão altera o rumo dos acontecimentos. É um campo de disputas de ideias, interesses, projetos e visões de futuro. Felizmente, numa democracia, essa guerra deve ser travada com argumentos, votos, diálogo e respeito às instituições, jamais com violência.

Em um dos lados está o governo. Raramente um governo é formado apenas por pessoas que pensam exatamente da mesma forma. A maioria nasce de coalizões, alianças e acordos políticos. Nem todos são amigos íntimos, nem compartilham integralmente das mesmas convicções ou interesses. Ainda assim, precisam encontrar pontos de convergência para remar — ou melhor, conduzir — na mesma direção.

Não por acaso, a própria palavra “governo” tem origem no latim gubernare, derivado do grego kybernáō, que significa conduzir o leme de uma embarcação. Governar é justamente isso: manter o barco no rumo certo, enfrentando tempestades, desviando dos obstáculos e conduzindo toda a tripulação em direção a um destino comum.

Do outro lado está a oposição. E sua existência é tão necessária quanto a do próprio governo. A oposição representa aqueles que discordam do projeto político que ocupa o poder e que defendem outra direção para esse mesmo barco chamado Estado. Seu papel é fiscalizar, apontar erros, cobrar resultados e apresentar alternativas. Uma oposição responsável fortalece a democracia porque impede que o poder se acomode e lembra constantemente aos governantes que toda autoridade deve prestar contas à sociedade.

É um equívoco imaginar que governo e oposição devam ser inimigos. Muitas vezes são compostos por pessoas que cultivam relações de amizade, respeito e admiração mútua, embora discordem profundamente em suas posições políticas. É justamente aí que reside uma das maiores virtudes da democracia: opor-se sem ofender, discordar sem humilhar, debater sem destruir.

Quando isso acontece, governo e oposição deixam de ser adversários pessoais e passam a ser competidores de ideias, cada qual contribuindo, à sua maneira, para que o interesse público prevaleça. Democracias maduras não eliminam o conflito; elas aprendem a administrá-lo com equilíbrio, respeito e responsabilidade.

Mas a política também ensina uma dura realidade: nem sempre o maior risco vem de quem está do outro lado.

Nas guerras, muitas vezes não é a bala de canhão do inimigo que mata primeiro, mas a ponta da baioneta daquele que caminhava ao seu lado. Na política, essa metáfora infelizmente encontra paralelos frequentes. Não raro, quem mais se destaca, quem assume a linha de frente ou conquista espaço acaba sendo surpreendido por ataques vindos de dentro da própria base. A disputa por protagonismo, poder e influência pode transformar aliados circunstanciais em adversários silenciosos.

Por isso, além de visão de futuro, todo líder político precisa desenvolver outra habilidade: enxergar também aquilo que acontece às suas costas. A confiança continua sendo indispensável, mas a prudência nunca deixa de ser uma virtude.

Apesar dessas dificuldades, continuo acreditando que existem muitas pessoas honestas na política. Tenho a oportunidade de conhecer e conviver com diversas delas. São homens e mulheres que entraram na vida pública movidos pelo desejo sincero de servir, melhorar a realidade das pessoas e construir soluções para problemas coletivos.

Por isso, nunca concordei com a narrativa de que “política é coisa de bandido” ou de que “todo político é igual”. Generalizações dessa natureza apenas afastam da vida pública justamente aqueles que poderiam contribuir para transformá-la.

Não deixa de ser uma ironia pensar que essa descrença coletiva beneficia exatamente quem mais se aproveita da política para interesses particulares. Quanto menos pessoas íntegras participarem da vida pública, mais espaço sobra para os corruptos ocuparem o orçamento público como se fosse patrimônio privado. A desilusão da sociedade acaba funcionando como uma verdadeira reserva de mercado para quem não deseja mudanças.

Imagine, porém, o cenário inverso: cidadãos preparados, honestos, capazes de dialogar, construir consensos, mobilizar pessoas e administrar com competência decidindo entrar na política. O orçamento deixaria de servir a interesses particulares para voltar ao seu verdadeiro destino: o bem comum.

Talvez seja exatamente esse o maior temor daqueles que fazem da política um negócio pessoal.

O Brasil não precisa que as pessoas de bem desistam da política. Precisa que elas participem dela. Que se unam, que se protejam mutuamente e que tenham coragem de ocupar os espaços públicos. A democracia não melhora quando os bons vão embora. Ela melhora quando eles permanecem, disputam ideias, constroem pontes e colocam o interesse coletivo acima das conveniências individuais.

A política continuará sendo um campo de batalhas. Mas que sejam batalhas de inteligência, de caráter, de ideias e de compromisso com o povo. Porque, ao final de toda disputa democrática, não deveria haver vencedores e vencidos. O verdadeiro vencedor deve ser sempre a sociedade.

Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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