Há uma máxima na política que considero fundamental: só tem o direito de criticar quem está disposto a ajudar. A crítica vazia, feita da arquibancada, pouco contribui para a construção de soluções. Já a crítica acompanhada de participação e compromisso fortalece a democracia e ajuda os partidos a corrigirem rumos.
Faço essa reflexão porque participei ativamente das eleições de 2022 ao lado de diversos companheiros e companheiras na construção do movimento Agro Pela Democracia. O grupo reuniu empresários do agronegócio, lideranças do setor, ex-ministros da Agricultura e também nomes importantes da política goiana, entre eles o empresário Flávio Faedo.
Nosso objetivo era claro: demonstrar que democracia e agronegócio não são adversários. Pelo contrário, instituições fortes, segurança jurídica e estabilidade política são condições indispensáveis para o desenvolvimento do campo brasileiro.
Seria exagero afirmar que o Agro Pela Democracia foi decisivo para a vitória do presidente Lula. Não foi. Mas seria igualmente injusto ignorar sua contribuição. O movimento foi uma das peças que ajudaram a ampliar o diálogo do campo com a candidatura petista, especialmente em Goiás, além de gerar repercussão nacional e ajudar a romper preconceitos construídos ao longo dos anos.
Nem eu nem os demais integrantes do movimento participamos da construção do governo federal após a eleição. Outros setores ocuparam os espaços de poder, em uma composição política que, como se sabe, acabou privilegiando alianças e acomodações com partidos do Centrão. É uma escolha legítima dentro da lógica da governabilidade, mas que também ajuda a explicar por que muitos setores que estiveram na linha de frente da defesa da democracia ficaram à margem do processo.
É justamente nesse contexto que lamento a desistência de Flávio Faedo de uma eventual candidatura ao Governo de Goiás em 2026.
Faedo reúne características raras no cenário político atual. É um empresário bem-sucedido de Rio Verde, construiu sua trajetória no agronegócio e possui credibilidade em um dos setores mais importantes da economia goiana. Sua candidatura teria importância estratégica não apenas para o PT, mas para a própria democracia goiana.
Mais do que disputar uma eleição, Faedo ajudaria a desconstruir um dos principais estigmas enfrentados pela esquerda brasileira: a ideia de que o PT e os setores progressistas são inimigos do agronegócio. Sua trajetória pessoal demonstra exatamente o contrário. Ele representa a possibilidade de construir pontes entre setores que, muitas vezes, são apresentados artificialmente como adversários.
Com sua saída de cena, a chamada “batata quente” volta a cair no colo da deputada federal Adriana Accorsi.
É justo reconhecer os méritos de Adriana. Para quem está em seu primeiro mandato federal, ela tem desempenhado um trabalho consistente. Participa de comissões relevantes na Câmara dos Deputados, tem apresentado e defendido projetos importantes para o país, atua de forma firme na defesa da democracia brasileira e mantém viva a mobilização da militância progressista em Goiás.
Mas o debate vai além de qualidades individuais.
Considero um equívoco que o PT, partido do presidente da República e que já governou o Brasil por cinco mandatos presidenciais, chegue tão próximo de uma eleição estadual sem apresentar uma liderança amplamente consolidada para disputar o Governo de Goiás.
O PT goiano parece ter se acomodado dentro de um círculo relativamente restrito de lideranças, militantes e simpatizantes. Em muitos momentos, o partido transmite a sensação de dialogar prioritariamente consigo mesmo, quando o desafio político exige justamente o contrário: ampliar horizontes, construir novas alianças e dialogar com setores da sociedade que ainda resistem às suas ideias.
O tempo também corre contra o partido. Poucas lideranças com densidade eleitoral, relevância política e disposição pessoal aceitariam assumir, de última hora, uma candidatura ao Palácio das Esmeraldas sem planejamento prévio, estrutura organizada e estratégia claramente definida.
Diante desse cenário, o único nome verdadeiramente pronto para assumir essa responsabilidade parece ser o da própria Adriana Accorsi.
Seu currículo político é robusto. Ela já foi deputada estadual, disputou a Prefeitura de Goiânia com expressiva votação, é filha do ex-prefeito da capital e fundador do PT em Goiás, Darci Accorsi, e atualmente preside o partido no estado. Trata-se de uma das figuras mais emblemáticas e historicamente identificadas com o petismo goiano.
A grande questão é outra.
Estaria Adriana disposta a abrir mão de uma reeleição praticamente assegurada para a Câmara dos Deputados e enfrentar uma disputa extremamente difícil pelo Governo de Goiás? Estaria preparada para assumir uma candidatura em um estado onde o conservadorismo político criou raízes profundas e onde a rejeição ao PT continua sendo uma realidade eleitoral relevante?
Essa resposta apenas ela pode dar.
Mas há algo que a experiência política brasileira ensina: quando o partido chama e a liderança nacional considera uma missão necessária, poucos recusam o desafio. Não seria surpresa se uma conversa direta com o presidente Lula ou uma orientação do PT Nacional colocasse Adriana definitivamente no centro dessa disputa.
Por enquanto, resta acompanhar os próximos capítulos.
A saída de Flávio Faedo abriu um vazio importante no tabuleiro político goiano. E, diante desse vácuo, todos os caminhos parecem conduzir ao mesmo nome: Adriana Accorsi.
Vamos esperar para ver.
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