Poucos partidos políticos brasileiros nasceram com uma identidade programática tão clara quanto o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Fundado em 25 de junho de 1988, às vésperas da promulgação da Constituição Cidadã, o partido surgiu em um dos momentos mais importantes da reconstrução democrática do país, depois de mais de duas décadas de regime militar.
Seu próprio estatuto sintetiza esse espírito ao afirmar que o partido nasceu “longe das benesses do poder e perto do pulsar das ruas”. Essa frase não representa apenas uma referência histórica, mas um projeto político: construir uma democracia moderna, comprometida com as instituições, a justiça social, a responsabilidade fiscal e o desenvolvimento nacional.
O PSDB nasceu inspirado nos princípios da social-democracia adaptados à realidade brasileira. Seu propósito era fortalecer as instituições democráticas, ampliar direitos, promover estabilidade econômica e construir um Estado capaz de oferecer oportunidades à população sem abrir mão da eficiência administrativa.
Entre seus fundadores estavam algumas das mais importantes lideranças da redemocratização brasileira, como Franco Montoro, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, José Serra, José Richa, Geraldo Alckmin, Pimenta da Veiga, Tasso Jereissati e tantos outros homens e mulheres que ajudaram a consolidar a Nova República.
O próprio congresso de fundação do partido refletiu essa cultura democrática. O nome “Partido da Social Democracia Brasileira” foi escolhido por votação entre seus integrantes, assim como o símbolo do tucano, que rapidamente se transformou na marca da legenda e em um dos símbolos mais conhecidos da política nacional.
Durante muitos anos, o PSDB representou uma das principais colunas da democracia brasileira. Ao lado de outras forças políticas relevantes, ajudou a consolidar o ambiente institucional construído após a Constituição de 1988, contribuindo para que divergências ideológicas fossem resolvidas pelo voto, pelo debate e pelo respeito às regras democráticas.
Nenhuma liderança sintetiza melhor essa trajetória do que Fernando Henrique Cardoso. Intelectual respeitado internacionalmente, sociólogo de referência nos estudos sobre desenvolvimento e dependência na América Latina, FHC parecia um candidato improvável à Presidência da República. Ainda assim, conduziu um dos governos mais transformadores da história recente do Brasil.
Seu legado inclui a consolidação do Plano Real, responsável por derrotar a hiperinflação e devolver estabilidade à economia brasileira; a regulamentação dos medicamentos genéricos; a ampliação e consolidação do Sistema Único de Saúde; a universalização do ensino fundamental por meio do Fundef; a criação e expansão de programas de transferência de renda que serviriam de base para iniciativas posteriores; além da modernização do Estado, da Lei de Responsabilidade Fiscal, do fortalecimento das agências reguladoras, da expansão das telecomunicações e de importantes reformas institucionais.
Na minha avaliação, Fernando Henrique conseguiu equilibrar uma agenda econômica liberal, voltada para a estabilidade macroeconômica e reformas estruturais, com uma preocupação permanente em fortalecer políticas públicas voltadas à redução da pobreza e das desigualdades.
Também considero significativo que, após a derrota de José Serra na eleição presidencial de 2002, Fernando Henrique tenha conduzido uma transição institucional respeitosa e transmitido a faixa presidencial a Luiz Inácio Lula da Silva, reconhecendo o resultado das urnas e reafirmando um princípio elementar da democracia: quem vence governa; quem perde exerce a oposição e aguarda o próximo julgamento popular.
Ao longo dos anos seguintes, entretanto, o sistema político brasileiro passou por sucessivas crises institucionais, econômicas e de representação. A polarização cresceu, o diálogo diminuiu e a confiança nas instituições sofreu forte desgaste.
Nesse ambiente, a extrema direita conquistou espaço político com enorme força, enquanto o PT preservou parte importante de sua influência graças à fidelidade de sua base social. Já o PSDB, que durante décadas ocupou posição central na política brasileira, perdeu protagonismo eleitoral e viu sua influência diminuir de forma significativa.
Na minha visão, esse enfraquecimento não diz respeito apenas a um partido. Ele simboliza, em certa medida, a perda de força de uma tradição política que ajudou a estruturar o debate democrático brasileiro durante mais de três décadas.
O PSDB não pertence a uma única liderança nem a um pequeno grupo político. É uma instituição com história, legado e relevantes serviços prestados ao país. Assim como MDB, PSB, PDT, PCdoB, PT e outras legendas que participaram da construção da democracia contemporânea, faz parte do patrimônio institucional da República. Os partidos existem para representar parcelas da sociedade e disputar legitimamente o poder dentro das regras democráticas, não para servir exclusivamente aos interesses de indivíduos.
É justamente por isso que acredito que uma democracia saudável depende da existência de partidos fortes, programáticos, organizados e comprometidos com as instituições. Democracias sólidas não vivem apenas da alternância de governos; vivem também da existência de organizações políticas capazes de formular ideias, formar lideranças e representar diferentes correntes da sociedade.
Por essa razão, desejo que todas as legendas comprometidas com o Estado Democrático de Direito tenham sucesso em fortalecer a democracia brasileira. Mas reconheço que tenho uma convicção pessoal: só acreditarei que a democracia brasileira recuperou plenamente sua estabilidade quando vir novamente um PSDB forte, competitivo e relevante no cenário nacional. Não porque a democracia dependa de um único partido, mas porque considero que a recuperação do protagonismo de uma das principais forças da redemocratização seria também um sinal de amadurecimento das instituições e da própria vida democrática do Brasil.















