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Entre a estratégia nacional e a democracia interna: a intervenção de Lula reposiciona o PT em Goiás


Por Rodrigo Zani em 10/07/2026 - 13:30

Governo Lula reage a investigação dos EUA e acusa família Bolsonaro de interferência internacional. Lula celular seguro
Presidente Lula não apenas o maior líder da história do PT, mas também uma das figuras políticas mais relevantes da história da República e, provavelmente, o principal líder da esquerda latino-americana em atividade.

O Partido dos Trabalhadores nasceu das bases da sociedade brasileira. Sua formação reuniu setores progressistas da Igreja Católica, intelectuais, especialmente ligados à Universidade de São Paulo (USP), lideranças sindicais e movimentos sociais que, ainda durante o processo de redemocratização, buscavam construir um novo instrumento de representação política. Ao longo das últimas décadas, o PT deixou de ser um partido emergente para se consolidar como a principal legenda da esquerda brasileira e uma das maiores organizações políticas desse campo ideológico no mundo, ficando atrás, em dimensão partidária, apenas de gigantes como o Partido Comunista Chinês.

Sua história também é marcada pela ampliação da participação popular nos espaços de poder. Trabalhadores, lideranças comunitárias, mulheres, negros, indígenas, pessoas historicamente marginalizadas e diversas minorias encontraram no PT uma ponte para ingressar na vida pública e disputar cargos eletivos. Independentemente das divergências políticas que desperta, é difícil negar o protagonismo do partido na democratização da representação política brasileira.

Nesse processo, Luiz Inácio Lula da Silva tornou-se não apenas o maior líder da história do PT, mas também uma das figuras políticas mais relevantes da história da República e, provavelmente, o principal líder da esquerda latino-americana em atividade. Ao longo de sua trajetória, Lula aprendeu como poucos a operar as engrenagens do poder dentro do presidencialismo de coalizão brasileiro, sistema em que alianças e composições são parte indispensável da governabilidade. Como ensinava Maquiavel em O Príncipe: “É tão distante o modo como se vive do modo como se deveria viver que quem abandona o que se faz pelo que se deveria fazer aprende antes a arruinar-se do que a preservar-se.”

Em Goiás, entretanto, o PT parecia caminhar sem um rumo político claramente definido para a disputa eleitoral. O partido demorava para construir um consenso em torno de um nome competitivo ao governo estadual. Diversos nomes foram ventilados, outros chegaram a ser sondados, alguns recusaram a possibilidade e outros aproveitaram o momento para ampliar sua própria projeção política. O resultado era um ambiente de indefinição que alimentava inquietações tanto entre dirigentes quanto na militância.

Nesse contexto, a entrada mais direta da direção nacional, com Lula manifestando preferência por uma estratégia que envolvesse Adriana Accorsi e Aava Santiago, pode ser interpretada como uma tentativa de reorganizar o partido em Goiás e conferir maior competitividade ao projeto petista no estado. Sob essa ótica, a decisão melhora o cenário político do PT goiano ao estabelecer um rumo mais claro para a disputa.

Ao mesmo tempo, essa movimentação suscita um debate importante sobre a tradição democrática interna da legenda. O PT sempre construiu sua identidade valorizando processos internos complexos, envolvendo tendências, correntes, diretórios, secretarias e instâncias deliberativas. Historicamente, quem deseja disputar cargos majoritários pela sigla precisa percorrer esse caminho coletivo de construção política. Dessa vez, porém, a condução nacional parece ter se sobreposto ao rito tradicional, evidenciando a tensão permanente entre estratégia eleitoral e democracia partidária.

Há razões políticas que ajudam a explicar esse movimento. Goiás possui peso simbólico importante no cenário nacional. Além de ser o berço histórico da família Caiado, o estado poderá ter como protagonista na disputa presidencial o ex-governador Ronaldo Caiado, nome que desponta como potencial adversário de Lula no cenário nacional. Embora o eleitorado goiano não esteja entre os maiores do país, sua posição geográfica e seu simbolismo político fazem do estado um espaço estratégico. O que acontece em Goiás frequentemente repercute muito além de suas fronteiras.

Sob essa perspectiva, seria compreensível que a direção nacional do PT buscasse evitar uma candidatura improvisada ou politicamente frágil em um estado considerado estratégico. A política nacional, muitas vezes, exige decisões que extrapolam as dinâmicas locais.

Também chama atenção o fato de que Adriana Accorsi e Aava Santiago surgiam como nomes competitivos para uma disputa à Câmara dos Deputados e passaram a ser cogitadas para uma missão muito mais difícil: enfrentar a estrutura do governo estadual, o eleitorado majoritariamente conservador, a força do bolsonarismo em Goiás e a influência de lideranças tradicionais, como o ex-governador Marconi Perillo. Trata-se de um desafio político significativamente maior.

A situação torna-se ainda mais curiosa porque ocorre poucas semanas após o partido ter sinalizado o nome do ex-deputado Luiz Cesar Bueno, um dos petistas históricos de Goiás, como pré-candidato ao governo. A mudança de rumo demonstra que, em política, estratégias podem ser revistas quando o cenário nacional assim exige.

Naturalmente, ainda cabem deliberações formais nas instâncias partidárias. O PT possui regras internas que precisam ser observadas. Entretanto, a história da legenda também mostra que a palavra de Lula possui enorme peso político. Quando o presidente define uma direção estratégica, dificilmente ela deixa de influenciar o resultado das decisões partidárias.

Independentemente do desfecho, Adriana Accorsi e Aava Santiago representam duas lideranças qualificadas da política goiana. Ambas possuem trajetória pública consistente e contribuem para elevar o nível do debate democrático no estado. Resta agora acompanhar o processo interno do partido e, sobretudo, respeitar a decisão que vier das urnas. Em uma democracia, a última palavra pertence sempre ao povo.

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Rodrigo Zani

É Secretário de Formação Política da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar do Brasil - UNICAFES

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