A soroterapia voltou a ser assunto nas redes sociais após a influenciadora Virginia Fonseca revelar que realizou uma sessão do procedimento e afirmar que se sentiu mais disposta. A repercussão fez crescer novamente o interesse pela chamada terapia infusional intravenosa, frequentemente divulgada como alternativa para aumentar a energia, fortalecer a imunidade, retardar o envelhecimento, emagrecer e melhorar o desempenho físico. No entanto, especialistas alertam que essas promessas, na maioria dos casos, não possuem respaldo científico consistente.
A terapia infusional intravenosa consiste na administração de soluções diretamente na corrente sanguínea, contendo vitaminas, minerais, aminoácidos, eletrólitos e outros componentes, conforme a necessidade clínica do paciente. Na medicina, a técnica é utilizada há muitos anos em situações específicas, como desidratação, deficiências nutricionais comprovadas, síndromes de má absorção intestinal e outras condições em que a administração pela via oral não é suficiente ou possível.
Segundo o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, é importante diferenciar o uso médico da terapia das promessas que costumam ser divulgadas nas redes sociais e em campanhas comerciais.
“A terapia infusional intravenosa é um recurso terapêutico consolidado na prática médica e possui indicações clínicas bem estabelecidas. Entretanto, não deve ser apresentada como uma estratégia universal para aumento da disposição, emagrecimento, rejuvenescimento ou promoção inespecífica da saúde. Sua indicação deve ser fundamentada em avaliação clínica criteriosa, histórico do paciente, exame físico e, quando pertinente, na interpretação de exames laboratoriais que identificam deficiências nutricionais, alterações metabólicas ou condições clínicas que justifiquem a administração intravenosa”, explica o especialista.
De acordo com o médico, pessoas saudáveis, sem deficiências nutricionais ou alterações que impeçam a absorção adequada de nutrientes, dificilmente apresentam benefícios adicionais com a administração intravenosa de vitaminas.
“O organismo humano é fisiologicamente preparado para absorver vitaminas e minerais por meio da alimentação e do trato gastrointestinal. Na ausência de deficiências comprovadas ou de indicações médicas específicas, não há evidências consistentes de que a administração intravenosa de vitaminas promova aumento da energia, fortalecimento da imunidade ou melhora do desempenho físico e mental. Além disso, no caso das vitaminas hidrossolúveis, o excesso tende a ser excretado pelos rins, enquanto algumas vitaminas lipossolúveis podem se acumular no organismo quando administradas em excesso, reforçando a necessidade de uma indicação médica criteriosa”, afirma o Dr. José Israel.
A literatura científica também não demonstra, até o momento, evidências robustas de que a soroterapia seja capaz de promover rejuvenescimento, acelerar o metabolismo, fortalecer o sistema imunológico ou melhorar a performance física em indivíduos saudáveis. Especialistas apontam que parte da sensação de bem-estar relatada por alguns pacientes pode estar relacionada apenas à hidratação, ao efeito placebo ou à recuperação natural de sintomas inespecíficos, como fadiga.
Embora seja frequentemente apresentada como um procedimento simples, a infusão intravenosa também envolve riscos. Entre as possíveis complicações estão infecções, flebite, hematomas, reações alérgicas, alterações da pressão arterial, distúrbios eletrolíticos, sobrecarga renal e até alterações no ritmo cardíaco, dependendo das substâncias utilizadas e das condições clínicas do paciente.
Para o Dr. José Israel, a popularização da técnica como estratégia de bem-estar pode criar uma falsa sensação de segurança.
“Por ser frequentemente divulgada como uma intervenção voltada à promoção da saúde e da qualidade de vida, muitas pessoas acreditam, de forma equivocada, que a terapia infusional é isenta de contra indicações ou efeitos adversos. Na prática, toda indicação deve ser precedida de avaliação médica individualizada, considerando o histórico clínico, os exames complementares e a composição da solução a ser administrada. Embora geralmente seja um procedimento seguro quando bem indicado, a infusão intravenosa não está livre de riscos, podendo ocasionar reações adversas, desequilíbrios hidroeletrolíticos, sobrecarga volêmica, interações entre componentes da infusão e outras complicações relacionadas ao acesso venoso”, ressalta.
Nos últimos dias, o Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) também emitiu um alerta sobre o uso da soroterapia com finalidade estética ou para melhora de desempenho. A entidade destacou que não existem evidências científicas capazes de sustentar promessas de rejuvenescimento, emagrecimento, ganho de massa muscular ou aumento da vitalidade por meio dessas infusões, lembrando ainda que diversas sociedades médicas já se posicionaram contra a utilização indiscriminada da técnica.
O especialista reforça que a terapia infusional intravenosa continua sendo uma ferramenta importante quando utilizada nas indicações corretas.
“Pacientes com desnutrição, síndromes de má absorção intestinal, deficiências nutricionais documentadas, indivíduos com necessidade de reposição rápida ou que apresentem impossibilidade ou limitação para utilização da via oral — como pode ocorrer em alguns pacientes submetidos à cirurgia bariátrica ou durante internações hospitalares — podem se beneficiar da administração intravenosa. No entanto, fora dessas situações, a indicação deve ser individualizada, baseada em avaliação clínica e nas melhores evidências científicas disponíveis, e não em modismos ou recomendações sem respaldo científico”, conclui o Dr. José Israel.















