A evolução do crime organizado, que sofisticou sua atuação, vinculando-a ao mercado e a atividades empresariais robustas, e as incontáveis e crescentes possibilidades de crimes cibernéticos demandam uma nova abordagem de segurança pública, que não é mencionada ou não é suficientemente contemplada pelos candidatos ao cargo de governador de Goiás em suas propostas entregues à Justiça Eleitoral no ato de registro das candidaturas. A análise é do sociólogo Djaci David de Oliveira, professor, pesquisador e coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Criminalidade e Violência (Necrivi), da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ele analisou as propostas dos seis candidatos a governador de Goiás (veja nesta página as principais).
Nesta edição, a Tribuna do Planalto dá continuidade à série iniciada na semana passada, com análises sobre as promessas dos candidatos para as áreas apontadas como prioridade pela população. Segurança pública foi o segundo tema mais citado como preocupação pelos goianos, conforme aferiu pesquisa Genial Quaest divulgada nesta quinta-feira (28). O primeiro, apontado na rodada anterior e repetido nesta, foi saúde, assunto analisado na edição passada.
Planos em números
Djaci fez as contas e observa que praticamente todos os postulantes falam em segurança, “uns mais, outros menos, mas ele está presente em todos/as”. Ele mostra que Danilo Pinheiro (PCO) fala da segurança nas mãos das pessoas (armar a sociedade). No plano de Luciana Amorim (UP), o termo aparece 3 vezes, sendo duas focadas em política de segurança pública. Na proposta de Wilder Morais, o termo segurança aparece 59 vezes; na de Daniel Vilela, 64 vezes; na de Marconi Perillo, 107; já no programa de Luis Cesar Bueno, o termo aparece 116 vezes.
Para o pesquisador, não surpreende que a segurança pública figure entre as principais preocupações dos goianos. “O tema da segurança, ao contrário do que imaginam, sempre foi candente. Em épocas passadas, sempre se teve a preocupação com gangues, salteadores. Mas a lógica do crime mudou e demanda uma polícia totalmente diferente”, pontua, apontando as modalidades cibernéticas como as mais desafiadoras, que avançam muito rapidamente e demandam uma polícia muito mais especializada em tecnologia, dados, inteligência artificial e temas afins, que se atualizam com muita agilidade. “São crimes muito complexos e um soldado armado não tem muito valor nesse contexto”, avalia Djaci, que analisou os planos de governo de todos os candidatos para a Tribuna.
Ele destaca que, à medida que a sociedade vai se estruturando, ela também vai criando demandas sobre o sistema de segurança e mais questionamentos, “uma vez que se comprometeu a fazer algo que não está fazendo – por exemplo, assegurar a proteção das mulheres”. Ele também cita que há situações novas: a presença de um crime organizado com estrutura nacional, relação com grandes empresas e até mesmo ramificações internacionais, os crimes digitais e os cibercrimes, o crescimento da violência contra grupos socialmente segregados (mulheres, negros, indígenas, Comunidade LGBTQUIA+, PSR, outros), além do crescimento da violência institucional.
Para Djaci, os candidatos que apontam mais na direção dessa atualização de estratégias para a segurança são Luis Cesar Bueno (PT) e Marconi Perillo (PSDB). Já Wilder Morais (PL) aborda esse aspecto, mas sem destaque. “O plano do Daniel (Vilela, MDB) é o do Caiado (PSD, ex-governador e candidato a presidente da República). É preciso que ele tenha o seu plano, como governador e candidato à reeleição”, diz. “O que a polícia precisa enfrentar são hackers operando redes de informática, é preciso buscar rastros”, ressalta, acrescentando que é real a sensação de vulnerabilidade que assola toda a sociedade. “Estamos mesmo vulneráveis e expostos. Antes, havia um crime armado, que agora atua de outras formas e adoece as pessoas”, aponta.
“Mais armas!”
Chamou a atenção de Djaci a proposta do candidato Danilo Pinheiro, ao sugerir a criação de estruturas de autodefesa. “Isso implica necessariamente em ampliar a distribuição de armas, o que já existe no Estado de Goiás. Para quem não sabe, Goiás é um dos Estados com altos índices de armas em mãos de civis”, relata. “Outra sugestão do candidato é acabar com a polícia. Concretamente essa é uma proposta infactível. Não teriam jamais apoio para realizar, mesmo que ganhassem as eleições. Logo a proposta é inócua”.
Outro aspecto é a proposta de continuidade da política em vigor, herdada do governo Ronaldo Caiado, que é repetida não só por seu sucessor, Daniel Vilela, como era de esperar, mas por outros. O próprio Wilder Morais abre sua proposta protocolada no TSE falando em manter a atual estrutura da segurança pública como está. Depois, propõe avanços. “Isso é um problema porque, na verdade, a situação da segurança não é boa, como se propaga”, analisa Djaci, propondo que basta andar pela cidade de Goiânia para ver que até os prédios das instituições de segurança têm artefatos que indicam o medo de criminosos, como cercas elétricas, câmeras de segurança, muros altos. “Que lugar seguro é esse?”, questiona o pesquisador.
Segurança em foco
Veja as principais propostas dos candidatos a governador para a área de segurança pública
Daniel Vilela (MDB)
– Expansão da IA contra o crime, com expansão do monitoramento com inteligência artificial
– Implantar o SIM-Mulher para oferecer proteção, acolhimento e autonomia para mulheres vítimas de violência e investir em prevenção
– Implementar a Política Estadual de Segurança no Trânsito por meio de ações integradas
– Capilarização da segurança pública, com ampliação da estrutura operacional das forças de segurança
Danilo Pinheiro (PCO)
– Dissolução da polícia militar e de todo o aparato repressivo
– Direito de autodefesa dos trabalhadores da cidade e do campo
– Formar comitês de autodefesa dos trabalhadores da cidade, do campo e das comunidades de índios
Luciana Amorim (UP)
– Defesa do uso de câmeras nas fardas e desmilitarização da PM
– Interromper processo de militarização das Guardas Civis Metropolitanas
– Melhoria das condições carcerárias
Luis Cesar Bueno (PT)
– Reduzir a violência letal e consolidar a trajetória de queda dos homicídios com indicadores e metas
– Acelerar a execução do Plano Estadual de Combate à Violência contra a Mulher 2026-2035 e elevar a capacidade de antecipar situações de alto risco
– Implantar gradativamente o uso de câmeras nas fardas dos policiais
– Ampliar o patrulhamento rural georreferenciado e mapear vazios territoriais de cobertura
Marconi Perillo (PSDB)
– Fortalecer a inteligência e a integração no combate ao crime organizado
– Modernizar e fortalecer a Polícia Civil e a Polícia Científica para melhorar a capacidade investigativa e de produção de provas
– Ampliar a proteção diante das violências e das novas formas de crime com prevenção e integração
– Valorizar e proteger os profissionais da segurança pública
Wilder Morais (PL)
– Preservar a integração das forças, a inteligência e o controle dos presídios, com metas por território e auditoria para impedir subnotificação
– Organizar o Goiás sem Golpe Digital, com uma porta clara, acompanhamento do encaminhamento e publicação de tempo de triagem, perícia, investigação e valores bloqueados ou recuperados
– Ampliar as equipes especializadas de combate à violência contra a mulher, facções, roubo de carga, crime no campo e delitos ambientais
– Valorizar os profissionais da segurança, com concursos, prêmios e ações de prevenção ao adoecimento










