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Remédios para preservar massa muscular durante o emagrecimento avançam em estudos

Tratamentos experimentais procuram favorecer a eliminação de gordura sem comprometer a musculatura, mas ainda dependem de novas pesquisas


Por Carlos Nathan Sampaio em 04/09/2026 - 09:39

Remédios para preservar massa muscular durante o emagrecimento avançam em estudos
(Foto: Reprodução feita com ajuda de IA)

Os remédios para preservar massa muscular durante o emagrecimento estão sendo avaliados como uma possível alternativa para pessoas que perdem peso rapidamente, envelhecem ou enfrentam doenças relacionadas à redução da massa magra. Conhecidos popularmente como “canetas para músculos”, esses tratamentos ainda são experimentais e não estão liberados para uso rotineiro.

Apesar do apelido, não há atualmente nenhum medicamento injetável aprovado especificamente para aumentar a musculatura ou prevenir a sarcopenia. Parte das substâncias pesquisadas é formada por anticorpos monoclonais aplicados por infusão intravenosa. Outros compostos ainda passaram apenas por testes em animais ou em células humanas mantidas em laboratório.

Entre os candidatos em estágio mais avançado está o bimagrumabe. O anticorpo atua sobre os receptores de activina tipo II, que participam dos mecanismos responsáveis por limitar o crescimento muscular.

Uma pesquisa de fase 2, publicada na revista Nature Medicine, avaliou 507 adultos com obesidade ao longo de 48 semanas. Os participantes que receberam bimagrumabe combinado à semaglutida perderam, em média, 17,8 quilos. A redução foi de 14,2 quilos entre aqueles tratados somente com semaglutida e de 9,3 quilos no grupo que utilizou apenas o bimagrumabe.

A composição do peso eliminado também chamou a atenção dos pesquisadores. No tratamento combinado, 92,8% da redução correspondeu à gordura corporal. Entre os voluntários que receberam exclusivamente semaglutida, o percentual foi de 71,8%.

Os dados indicam que a associação pode ajudar a preservar uma parcela maior da massa magra durante o emagrecimento. Os resultados, entretanto, ainda precisam ser confirmados por estudos mais amplos antes que o tratamento possa ser autorizado e incorporado à prática médica.

Para o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles, a popularização das canetas emagrecedoras tornou ainda mais importante analisar os efeitos do tratamento sobre todo o organismo, e não somente acompanhar a variação do peso.

“As canetas transformaram significativamente o tratamento da obesidade ao possibilitar resultados que eram mais difíceis de alcançar com as opções anteriormente disponíveis. No entanto, o sucesso terapêutico não pode ser medido apenas pelo número de quilos perdidos. É fundamental avaliar a redução da adiposidade, especialmente a visceral, a preservação da massa muscular, a melhora da saúde cardiometabólica, da capacidade funcional e da qualidade de vida”, afirma.

Outro caminho investigado pelos cientistas envolve o bloqueio da miostatina, proteína produzida pelo corpo que restringe o desenvolvimento dos músculos. Um dos medicamentos desenvolvidos com essa finalidade é o trevogrumabe.

Resultados apresentados pela farmacêutica responsável por um ensaio de fase 2 apontaram que a combinação do anticorpo com semaglutida teria evitado aproximadamente metade da perda de massa magra associada ao processo de emagrecimento.

O apitegromabe também atua na inibição da miostatina e integra esse grupo de medicamentos em desenvolvimento. O produto está sendo analisado pela agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA, que deverá tomar uma decisão até 30 de setembro.

Essa avaliação, porém, está relacionada ao tratamento da atrofia muscular espinhal. O medicamento não está sendo analisado para obesidade, sarcopenia ou objetivos estéticos. Mesmo que seja autorizado, portanto, isso não representará uma liberação para seu uso como uma suposta “caneta para músculos”.

Outra vertente científica concentra-se no L-β-aminoisobutírico, molécula conhecida pela sigla L-BAIBA. Produzida naturalmente pelo organismo durante a prática de exercícios, ela participa das adaptações musculares provocadas pelo treinamento físico.

Um estudo publicado na Nature Communications mostrou que a substância aumentou a capacidade de contração muscular, a presença de mitocôndrias e a resistência à fadiga em camundongos. Os pesquisadores também identificaram efeitos na diferenciação de células musculares humanas em laboratório. Concentrações mais elevadas da molécula ainda foram associadas a um melhor condicionamento aeróbico.

As descobertas não significam, contudo, que o L-BAIBA já possa ser empregado para reproduzir em seres humanos os benefícios do exercício. Antes de qualquer aplicação clínica, serão necessários novos estudos para verificar sua segurança e eficácia.

Os cientistas pretendem investigar se a molécula poderá auxiliar no combate à sarcopenia, à perda muscular relacionada ao câncer e aos danos provocados pelo diabetes tipo 2. Até o momento, entretanto, não existe um tratamento aprovado com essa finalidade.

Dr. José Israel alerta que emagrecimentos expressivos ou muito rápidos precisam ser acompanhados por uma avaliação cuidadosa da composição corporal, da força muscular e das condições nutricionais do paciente.

“Uma perda de peso expressiva pode representar um excelente resultado, mas o número indicado pela balança, isoladamente, não é sinônimo de saúde. É fundamental avaliar a composição corporal e assegurar a preservação da massa muscular, da força e de um estado nutricional adequado. Quando ocorre uma redução importante da ingestão alimentar, como pode acontecer durante o tratamento, cada escolha nutricional se torna ainda mais relevante: não basta comer menos, é preciso comer melhor”, explica.

Os possíveis efeitos adversos também exigem cautela. Durante a pesquisa com bimagrumabe, as reações relatadas com maior frequência foram espasmos musculares, diarreia e acne.

Além disso, ganhar volume muscular não significa obrigatoriamente apresentar mais força, equilíbrio ou autonomia para realizar atividades cotidianas. Os critérios clínicos utilizados para identificar a sarcopenia consideram a força um aspecto essencial, ao lado da quantidade de massa magra e do desempenho físico.

Se apresentarem resultados positivos nas próximas etapas de pesquisa, esses medicamentos poderão futuramente auxiliar idosos, pacientes imobilizados e pessoas submetidas a doenças ou tratamentos que favorecem a perda muscular.

Por enquanto, as substâncias devem ser vistas somente como possíveis ferramentas complementares. Atividade física, alimentação equilibrada e acompanhamento médico continuam sendo medidas fundamentais para preservar a musculatura e garantir que o emagrecimento ocorra de maneira saudável.

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