O tarifaço imposto pelos Estados Unidos reduziu em US$ 3,8 bilhões as vendas brasileiras ao mercado americano, mas não impediu que as exportações totais do Brasil crescessem 8%. O contraste mostra que, apesar do impacto das barreiras comerciais sobre as relações com os Estados Unidos, o comércio exterior brasileiro mantém capacidade de reação por meio de outros mercados.
O efeito negativo é mais evidente em São Paulo, principal polo industrial do país. Em julho, as exportações paulistas para os Estados Unidos recuaram 23,2%, queda muito superior à registrada no acumulado do ano, de 9,7%. O resultado acende um alerta para setores dependentes do mercado americano, mas ainda não permite concluir que o Brasil esteja diante de uma perda estrutural desse destino.
A avaliação dos especialistas é que o crescimento das exportações totais indica que existe espaço para redirecionamento das vendas brasileiras. O movimento, porém, ocorre de maneira desigual. Produtos padronizados e commodities conseguem encontrar novos compradores com maior facilidade, enquanto manufaturados dependem de contratos, certificações, especificações técnicas e relações comerciais que levam mais tempo para serem construídas.
Brasil amplia exportações apesar da queda nos EUA
O dado de crescimento de 8% nas exportações totais é o principal contraponto ao impacto do tarifaço. Em vez de uma retração generalizada do comércio exterior, os números apontam para uma mudança na composição e nos destinos das vendas brasileiras.
A expansão de mercados como a Ásia pode ajudar a absorver parte da produção que deixa de ser enviada aos Estados Unidos. O desafio, segundo os especialistas, é saber até que ponto esse movimento conseguirá compensar as perdas no mercado americano, especialmente para produtos industriais de maior valor agregado.
Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital, chama atenção justamente para essa diferença. Segundo ele, o crescimento das exportações totais demonstra resiliência da pauta brasileira, mas não significa necessariamente que os demais mercados já tenham absorvido integralmente os produtos que deixaram de ser vendidos aos Estados Unidos.
Tarifaço afeta até produtos isentos
Outro aspecto que chama atenção é que a queda não ficou restrita aos produtos diretamente atingidos pelas tarifas. Importadores americanos podem estar revendo contratos, estoques e fornecedores diante da incerteza sobre a política comercial.
André Matos, CEO da MA7 Capital, afirma que até produtos isentos podem sofrer com esse movimento, porque o importador toma decisões considerando a previsibilidade de toda a relação comercial.
No caso das aeronaves com mais de 15 toneladas, por exemplo, a queda chegou a quase 59% no ano. O especialista pondera, entretanto, que o segmento tem entregas pontuais e que poucas operações podem provocar forte oscilação nos números.
Diversificação pode reduzir dependência dos EUA
A expansão das exportações para outros destinos é apontada como uma das principais alternativas para reduzir os efeitos do tarifaço. Ásia, Europa, América Latina e Mercosul aparecem como mercados capazes de absorver parte da produção brasileira.
O crescimento de 8% das exportações totais reforça que esse processo já está acontecendo em alguma medida. A questão é a velocidade e a capacidade de substituir um mercado da dimensão dos Estados Unidos.
Para produtos industrializados, a substituição é mais complexa. Empresas precisam encontrar compradores, negociar preços, adaptar logística e, em alguns casos, obter certificações e homologações específicas.
Por isso, os especialistas consideram que o crescimento das exportações totais é um sinal positivo, mas não elimina o risco de impactos sobre margens, produção e investimentos nos setores mais expostos ao mercado americano.
O que os próximos meses vão mostrar
Ainda é cedo para determinar se a queda nas vendas aos Estados Unidos representa apenas um ajuste temporário ou o início de uma mudança mais duradoura.
O principal indicador será a evolução dos pedidos e das exportações nos próximos meses. Se os compradores americanos continuarem substituindo fornecedores brasileiros, o impacto poderá avançar da balança comercial para a produção, os investimentos e, posteriormente, o emprego.
Por outro lado, se o crescimento das vendas para outros destinos continuar, o Brasil poderá amortecer parte relevante do choque provocado pelas novas barreiras comerciais.
O dado central, portanto, é o contraste: enquanto os Estados Unidos compram menos do Brasil, as exportações brasileiras, consideradas em conjunto, continuam crescendo.
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