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Ex-ministro da ditadura condenado por fraude doa R$ 400 mil à campanha de Flávio Bolsonaro

Ex-ministro da ditadura condenado por fraude doa R$ 400 mil à campanha de Flávio Bolsonaro; período em que foi ministro coincidiu com a articulação da Operação Condor


Fábio Prado Por Fábio Prado em 11/09/2026 - 16:45

Ex-ministro da ditadura condenado por fraude doa R$ 400 mil à campanha de Flávio Bolsonaro - Foto: Pedro França/Agência Senad
Ex-ministro da ditadura condenado por fraude doa R$ 400 mil à campanha de Flávio Bolsonaro - Foto: Pedro França/Agência Senad

Ângelo Calmon de Sá, que comandou o Banco Econômico e foi ministro da Indústria e Comércio no governo Geisel, aparece como terceiro maior doador pessoa física da campanha presidencial do senador.

O ex-ministro Ângelo Calmon de Sá, de 91 anos, doou R$ 400 mil à Direção Nacional do PL. O repasse consta no sistema Divulgacand, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e coloca o ex-banqueiro como o terceiro maior doador pessoa física associado à campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O dinheiro não foi transferido diretamente para a conta de Flávio Bolsonaro, mas para a direção nacional da legenda que financia sua candidatura. Calmon de Sá aparece atrás apenas de Fernando de Castro Marques, CEO da União Química Farmacêutica, e de Erasmo Carlos Battistella, dono da produtora de biodiesel Be8. Cada um deles destinou R$ 500 mil à candidatura do senador.

A campanha de Flávio Bolsonaro já arrecadou R$ 44,4 milhões. Desse total, R$ 42 milhões vieram do Fundo Especial do PL. O senador também declarou R$ 12.285 em recursos próprios. A relação financeira de Calmon de Sá com o partido não é nova. Em 2024, o banqueiro já havia destinado R$ 300 mil ao PL, em três repasses registrados como contribuições para a manutenção da legenda.

Quem é Ângelo Calmon de Sá

Ângelo Calmon de Sá é engenheiro civil e construiu uma trajetória que atravessou a ditadura militar e os governos que a sucederam. Presidiu o Banco do Brasil durante a gestão de Emílio Garrastazu Médici e foi ministro da Indústria e Comércio de Ernesto Geisel entre 1977 e 1979. Anos mais tarde, foi nomeado ministro do Desenvolvimento Regional pelo então presidente Fernando Collor.

O período em que Calmon de Sá ocupou o ministério foi um dos mais sensíveis da ditadura. O governo Geisel (1974-1979) foi marcado pela continuidade da repressão política, embora com menor intensidade em relação aos anos anteriores. Durante esse período, ocorreram casos emblemáticos, como a morte do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, e do operário Manuel Fiel Filho, em janeiro de 1976, ambos assassinados nas dependências do DOI-Codi em São Paulo.

A Comissão Nacional da Verdade, que encerrou seus trabalhos em 2014, contabilizou 434 mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). Desses, mais de 200 ainda não tiveram seus restos mortais encontrados e entregues às famílias. Entre as vítimas, estão 191 assassinatos confirmados e 243 desaparecimentos forçados. Estima-se que o número real seja ainda maior, já que a destruição de documentos na fase final do regime contribuiu para a falta de informação sobre os mortos e desaparecidos.

Operação Condor

A ditadura militar brasileira não atuou isoladamente na repressão a opositores. O Brasil foi um dos países que criaram e comandaram a Operação Condor, aliança clandestina entre as ditaduras do Cone Sul — Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai — para vigiar, sequestrar, torturar, assassinar e fazer desaparecer militantes políticos que faziam oposição aos regimes militares da região.

Documentos analisados pela Comissão Nacional da Verdade atestam a participação de órgãos e agentes da ditadura brasileira em atividades que resultaram em graves violações aos direitos humanos de cidadãos brasileiros no exterior, assim como de estrangeiros no Brasil. A Operação Condor foi formalizada em uma reunião secreta realizada em Santiago do Chile, no final de outubro de 1975 — período em que Calmon de Sá já integrava o governo Geisel.

O período em que Calmon de Sá foi ministro coincidiu com a articulação e o funcionamento dessa aliança repressiva que uniu as ditaduras sul-americanas. A história do ex-ministro, que hoje doa centenas de milhares de reais a uma campanha presidencial, é inseparável do contexto de um regime que matou, torturou e fez desaparecer opositores com o apoio de governos vizinhos.

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