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Antes da inteligência artificial, Brasil ainda precisa garantir o básico 

PISA 2025 revela que 72% dos jovens não alcançam o nível mínimo em Matemática e expõe uma educação marcada por baixa aprendizagem e desigualdade


Dhayane Marques Por Dhayane Marques em 13/09/2026 - 15:00

O avanço da inteligência artificial colocou novas ferramentas dentro e fora das salas de aula, mas os resultados do PISA 2025 mostram que o Brasil ainda enfrenta um desafio anterior à tecnologia. A maioria dos jovens não domina competências básicas para interpretar informações, resolver problemas e mobilizar conhecimentos em situações complexas. Em Matemática, 72% dos estudantes brasileiros ficaram abaixo do nível mínimo de proficiência. Em Ciências, foram 52% e, em Leitura, 51%. No outro extremo, apenas cerca de 1% ou menos alcançou os níveis mais altos de desempenho nas três áreas.

Para Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, esse cenário sintetiza um dos paradoxos da educação contemporânea. Nunca houve tanta tecnologia acessível e, ao mesmo tempo, nunca foi tão necessário dominar competências cognitivas fundamentais.

“O PISA 2025 sugere um paradoxo do nosso tempo. Nunca tivemos tanta tecnologia disponível e nunca foi tão importante saber ler profundamente, interpretar evidências, resolver problemas e formar julgamentos próprios”, afirma.

A dificuldade brasileira não aparece apenas na fotografia de 2025. Na comparação com 2006, o país avançou 15 pontos em Leitura, sete em Matemática e 18 em Ciências. O Brasil esteve entre os países com maiores ganhos no período, ocupando a sétima posição em crescimento em Leitura e Matemática e a oitava em Ciências.

O problema está no ritmo mais recente. Na última década, o país praticamente não avançou no PISA. A Leitura permaneceu estável, enquanto a Matemática voltou, em 2025, ao mesmo patamar observado em 2015. Ciências apresenta uma trajetória relativamente mais positiva, mas o ganho acumulado no período não é estatisticamente significativo.

A aparente aproximação brasileira em relação aos países desenvolvidos também exige cautela. Entre 2006 e 2025, a diferença para a média dos 23 países da OCDE que participam do PISA desde 2000 caiu de 102 para 58 pontos em Leitura, de 131 para 92 em Matemática e de 113 para 77 em Ciências. Parte importante dessa redução, porém, ocorreu porque a própria OCDE perdeu desempenho.

Isso muda a interpretação do resultado. O Brasil não pode considerar suficiente o fato de estar mais próximo de uma referência que também recuou. Para o Todos Pela Educação, a prioridade precisa ser elevar a aprendizagem, reduzir desigualdades e ampliar a capacidade dos estudantes de aplicar conhecimentos em situações menos familiares.

O endereço da desigualdade aparece no desempenho

Os números ficam ainda mais preocupantes quando o resultado é observado a partir da condição socioeconômica dos estudantes. Entre os brasileiros do quartil mais vulnerável, 89% apresentam baixo desempenho em Matemática, 70% em Ciências e 67% em Leitura. Entre os estudantes mais favorecidos, os percentuais caem para 44% em Matemática e 26% em Ciências e Leitura. Nos grupos de menor renda, praticamente não há estudantes nos níveis mais altos de desempenho.

É nesse ponto que Henriques considera inadequado separar qualidade de equidade. “O PISA mostra que desigualdade e qualidade não são agendas separadas. No Brasil, nós temos um problema duplo. Aprendemos pouco em média e a origem socioeconômica continua tendo um peso muito grande sobre as oportunidades educacionais”, afirma.

A leitura dos dados exige, portanto, mais do que uma disputa por posições no ranking internacional. Para o especialista, o objetivo deve ser elevar a aprendizagem de todos e fazer avançar mais rapidamente aqueles que estão atrás.

A avaliação mostra a dimensão desse desafio. Mais de quatro em cada dez estudantes brasileiros, 43,8%, ficaram abaixo do nível mínimo de proficiência simultaneamente em Leitura, Matemática e Ciências. Na média da OCDE, esse percentual foi de 19,7%. Apenas 1,8% dos brasileiros apresentaram alto desempenho em pelo menos uma das três áreas, contra 11,9% entre os estudantes da OCDE.

A desigualdade também ajuda a explicar diferenças entre os estados. O Paraná apresentou as maiores médias brasileiras nas três áreas. Estados como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Distrito Federal ficaram acima da média nacional em Leitura e Matemática. O próprio Todos Pela Educação alerta, porém, que o desempenho das unidades da federação possui forte associação com o nível socioeconômico dos estudantes. Por isso, o ranking estadual não pode ser tratado isoladamente como medida da qualidade das redes públicas.

O cenário reforça uma questão central para a política educacional. Melhorar a aprendizagem exige olhar para dentro da escola, mas também para as condições sociais que moldam as oportunidades de cada estudante.

Tecnologia sem professor preparado não transforma aprendizagem

A chegada da inteligência artificial amplia o desafio da educação brasileira. O debate não envolve apenas acesso a equipamentos e internet, mas a capacidade de professores e escolas de incorporar essas ferramentas ao ensino. Segundo Ricardo Henriques, o PISA mostra que o Brasil está entre os países em que menos diretores reconhecem que seus professores têm as competências necessárias para integrar tecnologia à prática pedagógica.

“A transformação digital da educação não se resolve apenas colocando equipamentos na escola”, afirma.

Para o superintendente do Instituto Unibanco, a transformação digital depende de formação docente, condições de trabalho e capacidade de gestão. “Pessoas e tecnologia integradas. A serviço da aprendizagem”, resume.

O avanço da IA também aumenta a importância de competências que ainda são frágeis entre os estudantes brasileiros, como interpretar informações, avaliar evidências, comparar argumentos e construir julgamentos próprios. Nesse contexto, a escola ganha ainda mais importância como espaço de formação crítica.

Apesar dos desafios, os estudantes mantêm uma relação positiva com a escola. Apenas 16% dos brasileiros dizem que ela é uma perda de tempo, contra 24% na média da OCDE. Para Henriques, esse dado representa uma oportunidade. “Apesar de todos os problemas, os jovens ainda atribuem valor à escola. Isso é um ativo extraordinário. Nossa responsabilidade é transformar essa confiança dos estudantes em aprendizagem e oportunidades reais”, afirma.

O PISA, portanto, coloca o Brasil diante de um desafio que vai além do ranking. É preciso elevar a aprendizagem, reduzir desigualdades e fortalecer professores e escolas para lidar com as novas tecnologias. O próprio Todos Pela Educação considera que a permanência brasileira em Leitura e Matemática na última década não pode ser tratada como resultado satisfatório. 

Para Henriques, a própria função da educação pública “é justamente ampliar aquilo que uma criança pode alcançar em sua vida, independentemente da família, da renda ou do território em que nasceu.”

Em um mundo no qual a inteligência artificial tende a executar tarefas cada vez mais sofisticadas, essa talvez seja uma das conclusões mais urgentes do PISA. Antes de disputar quem domina as ferramentas mais avançadas, o Brasil ainda precisa garantir que todos tenham condições de compreender, questionar e aprender.

Dhayane Marques

Dhayane Marques é jornalista formada pela PUC-GO. Atualmente é Diretora de Programas da TV Pai Eterno e repórter no jornal Tribuna do Planalto e Tribuna de Anápolis, nas editorias de cidades, educação, economia, agro, diversão e arte.

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