A disputa presidencial de 2026 coloca em confronto duas estratégias para a educação brasileira, mas os planos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) têm um problema em comum. Apesar de apresentarem programas, metas e mudanças na gestão, deixam perguntas sem resposta sobre financiamento, execução e resultados. A diferença está nos instrumentos escolhidos e na concepção de política educacional.
Lula aposta na continuidade, mas precisa explicar como avançar
Nos três mandatos de Lula, a educação recebeu iniciativas como Brasil Alfabetizado, Prouni, Fundeb, Reuni, ProInfância, Brasil Profissionalizado e Mais Educação. No atual governo, iniciado em 2023, foram lançados o Pé-de-Meia, o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada e o Escola em Tempo Integral, além da retomada da expansão dos Institutos Federais.
Para um novo mandato, Lula propõe alcançar 80% de crianças alfabetizadas na idade adequada até 2030, ampliar creches, recompor aprendizagens e manter incentivos à permanência escolar. O problema é que preservar programas não garante, por si só, avanços na qualidade do ensino.
O Todos Pela Educação reconhece o alcance de políticas nacionais previstas no plano, mas aponta lacunas na formação inicial de professores, na expansão do ensino técnico para além da Rede Federal e na sustentabilidade financeira do Pé-de-Meia. Sem esclarecer como distribuir os recursos entre as prioridades, o governo corre o risco de anunciar novas frentes sem assegurar escala suficiente às políticas estruturantes.
Flávio propõe mudanças, mas deixa lacunas na execução
Flávio Bolsonaro defende ampliar escolas cívico-militares, incorporar inteligência artificial, robótica e educação financeira ao currículo, vincular repasses a metas de aprendizagem e criar vouchers para famílias sem vaga na rede pública. Também propõe expandir o ensino técnico em parceria com empresas e zerar, até 2030, o número de escolas sem água potável.
As propostas incluem temas relevantes, mas o plano não esclarece suficientemente como algumas medidas seriam financiadas e implementadas. No caso dos vouchers, faltam parâmetros detalhados sobre valores, critérios de prioridade, fiscalização e capacidade de atendimento da rede privada.
O Todos Pela Educação também considera insuficiente a proposta de recomposição das aprendizagens. A tutoria entre estudantes pode ajudar, mas não substitui uma política nacional com diagnóstico, formação docente, materiais pedagógicos, metas e apoio às redes. A entidade ainda ressalta que as evidências disponíveis não permitem atribuir automaticamente melhores resultados à presença de militares nas escolas.
Especialistas cobram evidências, metas e recursos
Para Wigvan Pereira dos Santos, doutor em Ciências da Literatura e professor, ampliar o acesso sem garantir aprendizagem limita os resultados da política educacional. “O desafio é ampliar o acesso sem perder de vista a aprendizagem”, afirma. Ele alerta que tecnologia, metas e novos modelos de gestão dependem de formação docente, infraestrutura e avaliação.
Wigvan aponta que os dois candidatos deixam questões relevantes sem respostas suficientes, como a redução das desigualdades regionais, a ampliação das vagas em creches, a melhoria da infraestrutura e a garantia de professores em número adequado. Para ele, metas nacionais precisam vir acompanhadas de mecanismos capazes de considerar as diferenças entre redes de ensino e de medir os resultados alcançados.
A crítica também se estende às propostas de Flávio Bolsonaro. O professor ressalta que tecnologia, gestão por desempenho e modelos de escolas cívico-militares não devem ser tratados como soluções automáticas. Os resultados dependem do desenho de cada política, das condições de implementação e de avaliações consistentes. No caso dos vouchers, a ausência de regras operacionais detalhadas dificulta estimar o custo, a cobertura e os efeitos sobre a equidade.
O advogado e doutor em Direito Bento José Lima Neto destaca que tanto a continuidade quanto a inovação precisam ser avaliadas por seus resultados. “Continuidade não significa necessariamente eficiência, assim como inovação não representa, por si só, melhoria”, afirma.
Bento ressalta que a educação funciona em regime de colaboração entre União, estados e municípios. Por isso, um presidente não consegue executar sozinho todas as promessas de campanha. Propostas como vouchers em escala nacional e mudanças no financiamento por desempenho dependem de definição de custos, critérios de distribuição, responsabilidades administrativas e compatibilidade com as regras constitucionais.
Lima Neto também chama atenção para a distância entre prometer e executar. “O voto confere legitimidade para governar, mas não transforma automaticamente promessas eleitorais em políticas públicas”, diz.
A avaliação dos dois especialistas converge em um ponto. Os programas precisam esclarecer como pretendem transformar objetivos em resultados verificáveis. A diferença está no enfoque. Wigvan concentra a crítica no desenho das políticas, nas evidências educacionais e na insuficiência dos detalhes de execução. Bento chama atenção para os limites institucionais e para a responsabilidade dos governantes diante dos compromissos assumidos.
Quatro prioridades expõem os pontos cegos
O Todos Pela Educação destaca quatro frentes para 2027 a 2030, formação inicial de professores, recomposição das aprendizagens, reestruturação das avaliações nacionais e educação integral em tempo integral.
Lula contempla a recomposição e o tempo integral, mas não detalha mudanças no Saeb e apresenta medidas limitadas para melhorar a qualidade das licenciaturas. Flávio prevê educação integral, aborda parcialmente a recomposição e não apresenta propostas específicas para formação inicial docente e reestruturação das avaliações.
A comparação revela que nenhum dos planos elimina as principais dúvidas sobre a capacidade de transformar promessas em resultados. O desafio será demonstrar de onde virá o dinheiro, quem executará cada medida, quantos estudantes serão atendidos e como a sociedade poderá cobrar resultados. Sem essas respostas, metas eleitorais correm o risco de permanecer no papel.











