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Mesmo com espaço e cadeiras, centro segue sem identidade e não ganha força eleitoral

Campo moderado mantém força nas alianças e no Congresso, mas enfrenta dificuldades para construir identidade e mobilizar o eleitorado


Por Carlos Nathan Sampaio em 27/09/2026 - 11:38

Centro segue sem identidade, com polarização entre esquerda e direita em grandes disputas. (Imagem: Reprodução gerada por IA)

O Brasil chega às eleições gerais de 2026, que acontecerão em uma semana, com uma disputa presidencial concentrada em dois polos, enquanto partidos moderados mantêm peso nas alianças, no Congresso e nos estados. Em 4 de outubro, os eleitores escolherão presidente, governadores, dois senadores por unidade da Federação e deputados federais e estaduais ou distritais. Nesse cenário, o centro tenta responder a uma questão antiga no cenário eleitoral: como ser indispensável para governar, mas ter dificuldade para conquistar sozinho o principal cargo do país?

A definição de centro não se resume a ocupar uma distância matemática entre direita e esquerda. Em geral, ela reúne lideranças dispostas a combinar propostas associadas aos dois campos, conforme o tema, e buscar soluções graduais dentro das regras democráticas. Isso pode significar responsabilidade fiscal acompanhada de políticas sociais, defesa da iniciativa privada com regulação estatal e negociação institucional sem adesão automática aos extremos.

O doutor em Ciência Política e pesquisador da Universidade de Brasília Robson Carvalho ressalta que centro e Centrão não são sinônimos. “O ‘centro’ político não deve ser confundido com o ‘Centrão’. O centro concentra políticos que têm posicionamentos que ora se identificam mais à direita, ora mais à esquerda e oscilam de acordo com os temas, assuntos e interesses”, afirma. Segundo ele, o Centrão atua de forma mais pragmática, apoiando diferentes governos em troca de espaço político, cargos e emendas.

A distinção ajuda a compreender o poder em Brasília, que se estende aos estados. A Câmara dos Deputados tem um bloco formado por União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e Federação PSDB-Cidadania, que reúne 272 dos 513 parlamentares. Embora essas siglas não tenham identidade ideológica uniforme, o agrupamento mostra como legendas situadas entre a direita e o centro conseguem condicionar votações e a agenda do Executivo.

Para o advogado e analista político Melillo Dinis, a negociação é parte necessária do regime democrático. “O centro é importante porque a democracia não funciona apenas com identidades políticas firmes. Ela também precisa de pontes, negociação e capacidade de construir maiorias. Num sistema fragmentado como o brasileiro, ninguém governa sozinho”, avalia. Na visão dele, o acordo não representa um desvio, mas um mecanismo para converter divergências em decisões legítimas e governáveis.

O limite está na finalidade da articulação. “O centro democrático aproxima ideias. Já o Centrão aproxima interesses”, resume Dinis. Para o analista, o primeiro deveria construir compromissos públicos, impor limites aos extremos e negociar políticas submetidas à fiscalização. O segundo seria marcado pela prioridade dada à ocupação de cargos e ao controle de recursos. “A democracia precisa de um centro com convicções, não de uma zona de conveniência”, acrescenta.

Essa diferença também ajuda a explicar por que partidos influentes no Legislativo nem sempre apresentam candidaturas presidenciais competitivas. Para Robson Carvalho, a falta de identidade clara dificulta a criação de um projeto majoritário. Quando uma liderança muda de posição conforme a conveniência, o eleitor encontra menos elementos para reconhecer o que ela representa. A capacidade de compor governos, portanto, não se converte automaticamente em força para liderá-los.

Melillo Dinis observa que as eleições presidenciais exigem identidade, narrativa e capacidade de mobilizar emoções. “O centro brasileiro frequentemente se apresenta ao eleitor como uma espécie de intervalo comercial entre a direita e a esquerda. Diz que não é um, não é outro, mas demora demais para explicar o que efetivamente é”, afirma. Ainda segundo ele, muitas legendas centristas se especializaram na eleição de bancadas, no comando de comissões e na negociação de emendas, mas investem pouco na formação de uma liderança nacional.

A campanha de 2026 retrata essa dificuldade. Pesquisa Quaest divulgada em 21 de setembro mostrou Lula, do PT, com 37%, e Flávio Bolsonaro, do PL, com 33%. Augusto Cury, do Avante, apareceu com 6%; Ronaldo Caiado, do PSD, com 4%; Renan Santos, do Missão, com 3%; e Romeu Zema, do Novo, com 1%. Mesmo com outras opções na urna, a disputa segue dominada pelos campos que protagonizam a polarização nacional.

Robson Carvalho não vê, na conjuntura atual, espaço para uma terceira candidatura chegar à etapa decisiva, muito menos sendo de centro. Ele avalia que Lula, embora seja de esquerda, ampliou alianças em direção ao centro e a setores da direita moderada, enquanto Flávio Bolsonaro concentra o eleitorado da direita mais conservadora. A composição petista com Geraldo Alckmin e a participação de partidos de diferentes orientações na base governista exemplificam essa busca por amplitude.

Dinis apresenta uma leitura menos definitiva. Em sua estimativa, entre 25% e 30% dos eleitores não se identificam integralmente com nenhum dos polos, mas isso não forma, por si só, uma maioria organizada. “Rejeitar simultaneamente a direita e a esquerda não constitui, por si só, um projeto político. A insatisfação pode produzir uma candidatura, mas dificilmente sustenta um governo”, afirma.

Para mobilizar esse público, uma alternativa precisaria oferecer respostas reconhecíveis para crescimento econômico, desigualdade, segurança, serviços públicos, equilíbrio fiscal e proteção das instituições. Também teria de criar vínculo emocional com o eleitor, sem depender apenas do discurso técnico ou da rejeição aos adversários. “Moderação diz respeito ao método, ao respeito às regras e ao reconhecimento do adversário — não à ausência de convicções”, diz Melillo Dinis.

O espaço social para o centro existe, mas permanece disperso e não se transforma automaticamente em voto presidencial. Nas eleições para governos, Senado e casas legislativas, ele tende a continuar relevante por sua capacidade de formar alianças e maiorias. Para disputar a Presidência com força, contudo, precisará deixar de ser apenas o lugar entre dois polos. “Sem conteúdo, o centro não é uma alternativa. É apenas uma localização”, conclui Mellilo Dinis.

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