A influência das redes sociais sobre a saúde mental não pode ser avaliada somente pelo número de horas diante das telas. Estudos recentes indicam que fatores como idade, tipo de conteúdo consumido, horário de acesso e interferências no sono, na atividade física e nas relações presenciais também devem ser considerados.
Uma revisão publicada na revista JAMA Pediatrics reuniu 23 metanálises, que representam aproximadamente 2,8 milhões de crianças e adolescentes de 64 países. A exposição às telas foi associada a dificuldades na linguagem, menor desempenho acadêmico e problemas emocionais e comportamentais.
No caso específico das redes sociais, porém, a associação com sintomas internalizantes, como ansiedade e depressão, foi considerada pequena. A análise também não identificou relação estatisticamente significativa com funções executivas, como atenção, planejamento e controle dos impulsos.
“Não é correto considerar que toda exposição digital produza os mesmos efeitos. O tipo de conteúdo consumido, o horário de acesso e as repercussões desse uso sobre a rotina também precisam ser considerados”, afirma o médico nutrólogo e intensivista José Israel Sánchez Robles.
Os pesquisadores destacam que os resultados apontam associações, mas não comprovam que o uso das telas tenha causado diretamente os problemas identificados.
Sono e atividade física entram na avaliação
Outro estudo, publicado na revista Scientific Reports, avaliou 290 adolescentes na Turquia. Pontuações mais altas em uma escala de uso aditivo das redes sociais foram associadas a menor bem-estar psicológico, redução da atividade física e maior solidão. Como os dados foram coletados em apenas um momento, não foi possível estabelecer qual fator ocorreu primeiro.
“As redes sociais precisam ser analisadas no contexto mais amplo da rotina. Quando seu uso passa a ocupar o tempo destinado ao sono, à prática de exercícios e às relações presenciais, pode tornar-se parte de um ciclo prejudicial ao bem-estar”, explica o Dr. José Israel.
Entre adultos, um estudo ainda não submetido à revisão por pares acompanhou 1.146 pessoas na Alemanha durante seis meses. No celular, sintomas depressivos mais intensos foram associados a maior atividade noturna e a determinados padrões de uso de redes sociais, aplicativos de mensagens e entretenimento. Os resultados variaram conforme o dispositivo e a atividade realizada.
O médico também destaca que saúde mental e saúde cognitiva não são sinônimos. Bem-estar emocional, memória, atenção e raciocínio são dimensões relacionadas, mas precisam ser avaliadas separadamente.
“Uma pessoa pode apresentar sofrimento emocional mesmo com a memória e o raciocínio preservados. Da mesma forma, uma dificuldade isolada de atenção não confirma a presença de um transtorno emocional”, esclarece o médico.
Alterações persistentes de humor, prejuízos ao sono, isolamento social e abandono de atividades habituais podem indicar a necessidade de rever os hábitos digitais e procurar avaliação profissional.









