Os indicadores educacionais ajudam a medir a aprendizagem, mas nem sempre revelam os desafios enfrentados diariamente pelos professores. Em sala de aula, dificuldades de compreensão, desinteresse e conflitos exigem estratégias que vão além do conteúdo previsto no currículo. No Dia dos Professores, celebrado em 15 de outubro, histórias de educadores mostram como a criatividade, diálogo e vínculo com os estudantes podem transformar o ensino.
Com 44 anos de magistério, Elaine Moura da Silva descobriu o alcance de seu trabalho ao reencontrar, durante uma consulta médica, um ex-aluno que ainda se lembrava do incentivo à leitura. Na infância, ele havia recebido o desafio de ler oito livros durante o ano letivo.
“Naquele instante, percebi, mais uma vez, que nós, professores, muitas vezes não temos dimensão do alcance do nosso trabalho”, recorda.
Em São Luís (MA), a professora Antocléia Santos também encontrou nos livros uma forma de estimular os estudantes. Um projeto do Centro de Ensino Paulo Freire resultou na coletânea Recontos Literários: Jovens que Escrevem, Mundos que Nascem, com 22 autores e quatro artistas.
“Eles deixaram de se perceber apenas como leitores e passaram a se reconhecer como autores”, conta.
Já o professor de Matemática Vanderlândio Pontes, de Paço do Lumiar (MA), utiliza jogos, embalagens e sólidos geométricos para aproximar os conteúdos da realidade dos alunos.
“Matemática não é apenas um conjunto de fórmulas que precisam ser memorizadas. Quando eles podem tocar, experimentar, investigar, levantar hipóteses e visualizar aquilo que estão estudando, a relação com a disciplina muda”, afirma.
Escuta e vínculo também ensinam
As dificuldades de aprendizagem nem sempre se resolvem apenas com novas atividades. O professor de Matemática Guilherme Almeida Guedes percebeu isso ao acompanhar um aluno do 8º ano que apresentava conflitos e pouco interesse pelos estudos. A aproximação por meio do diálogo, ao longo de cerca de um ano e meio, contribuiu para mudar a relação do estudante com a escola.
“Ela me acolheu e foi me aproximando do conteúdo. Ela não me taxou pelas minhas falhas de aprendizado. Acredito que o rapaz se identificou comigo neste ponto”, afirma, ao lembrar de uma professora que o ajudou na infância.
A professora Claudia Bohrer, com 26 anos de experiência, destaca a criatividade dos estudantes nas aulas de Arte. Edilma Gouveia, que tem 27 anos de carreira, ressalta a importância da escuta e da adaptação, especialmente diante das mudanças provocadas pela pandemia.
O desafio de manter a atenção
A rotina docente também envolve a gestão da turma. Segundo a pesquisa internacional Talis 2024, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), professores brasileiros dedicam, em média, 21% do tempo de aula à manutenção da ordem.
Para o especialista em formação de líderes Rubens Berredo, a autoridade depende da postura profissional e da coerência.
“Às vezes, eu posso até ter o cargo de professor a que se deve respeito, mas se a minha postura não for condizente com a profissão, eu perco a credibilidade”, afirma.
Tecnologia exige equilíbrio
A inteligência artificial também começa a integrar o planejamento pedagógico. Elaine já utiliza a ferramenta para preparar atividades, mas ressalta que ainda está aprendendo sobre suas possibilidades.
Para Sibeli Masotti, coordenadora do programa de anos iniciais da SIS Brasília, o desafio é equilibrar os recursos digitais com experiências concretas.
“A tecnologia trouxe muitas possibilidades, mas o desafio hoje é encontrar equilíbrio e entender quando ela realmente potencializa a aprendizagem e quando o melhor recurso ainda é o papel, o lápis, o livro, a conversa e a experiência concreta”, observa.
As experiências mostram que os resultados educacionais dependem de mais do que indicadores. Estratégias adequadas, condições de ensino e relações de confiança são parte do trabalho diário para superar dificuldades e ampliar a aprendizagem.













