Quase metade dos usuários de agonistas do receptor do GLP-1, conhecido pelas canetas emagrecedoras, que consumiam álcool no início do tratamento relatou beber menos nos três primeiros meses. O dado é de uma pesquisa nacional realizada com adultos nos Estados Unidos e publicada na revista JAMA Psychiatry. A redução foi relatada com maior frequência entre participantes cujo consumo era potencialmente prejudicial à saúde. Os resultados, contudo, não permitem concluir que os medicamentos tenham provocado essa mudança.
A pesquisa ouviu 2.009 adultos entre março e abril de 2026. Desse total, 368 afirmaram que usavam ou já haviam utilizado medicamentos da classe dos agonistas do GLP-1. A análise do consumo de álcool incluiu 242 participantes que bebiam no início do tratamento. Entre eles, 106 (44,2%) relataram redução do consumo, 133 (52,6%) não perceberam mudanças e três (3,3%) informaram aumento.
Entre as pessoas que tiveram resultado positivo em um rastreamento de consumo potencialmente não saudável de álcool, 71 de 129 (54,1%) relataram beber menos. Na análise ajustada dos pesquisadores, esse grupo teve maior probabilidade de apontar redução do que os demais participantes. O resultado descreve uma associação observada nas respostas, mas não permite concluir que o uso dos medicamentos explique a diminuição.
“O resultado chama a atenção, mas deve ser interpretado com cautela. A pesquisa se baseia na percepção relatada pelos participantes e, portanto, não comprova que o medicamento tenha sido responsável pela redução do consumo.”, afirma o médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sánchez Robles.
Os autores destacam que os dados foram obtidos por meio de relatos dos próprios participantes, que precisaram recordar como bebiam antes e depois de iniciar o tratamento. Esse método pode estar sujeito a falhas de memória e à tendência de responder de uma forma socialmente esperada. Além disso, por ser um estudo transversal, a pesquisa não acompanhou os participantes de maneira a estabelecer uma relação de causa e efeito.
“Embora existam hipóteses sobre a ação dos agonistas do GLP-1 em circuitos cerebrais relacionados ao desejo e à recompensa, esse possível mecanismo não foi confirmado pelo levantamento.”, diz o médico.
O tema vem sendo estudado em pesquisas iniciais, incluindo ensaios clínicos, mas os autores afirmam que são necessários estudos maiores para esclarecer se existe uma relação entre esses medicamentos e o consumo de álcool. Também não se sabe, com base neste levantamento, se a redução relatada se mantém ao longo do tempo.
“Os dados não sustentam o uso de canetas emagrecedoras com o objetivo de reduzir o consumo de álcool. A indicação desses medicamentos deve ser individualizada, considerar as condições clínicas de cada paciente e ser realizada por um médico.”, afirma José Israel.
A pesquisa também mediu o conhecimento do público sobre possíveis efeitos dos medicamentos. Apenas 9,7% dos participantes já tinham ouvido falar que os agonistas do GLP-1 poderiam reduzir a vontade de beber. Em comparação, 79,3% conheciam a possibilidade de perda de peso e 45,7%, a de melhora do controle da glicemia.
“Caso o paciente perceba mudanças no consumo de álcool durante o tratamento, deve comunicá-las ao médico responsável. Essa informação pode contribuir para o acompanhamento, mas não substitui a avaliação profissional nem comprova, isoladamente, uma relação entre o medicamento e o efeito observado.”, conclui o nutrólogo.














