Pesquisadores da Weill Cornell Medicine recebem US$ 8,2 milhões do NIH para iniciar ensaios clínicos de fase 1; composto bloqueia enzima essencial para a mobilidade dos espermatozoides
Pesquisadores da Weill Cornell Medicine, nos Estados Unidos, desenvolvem uma pílula anticoncepcional masculina de uso sob demanda. O medicamento deve ser tomado cerca de 30 minutos antes da relação sexual e oferece uma janela de proteção contra a gravidez de seis a oito horas. Após esse período, a fertilidade retorna ao normal.
A informação consta em comunicado divulgado pela própria instituição nesta quinta-feira (23/10) e foi confirmada por veículos como Folha de S.Paulo, O Globo, Saúde Abril e News Medical.
A pesquisa é liderada pelos farmacologistas Jochen Buck e Lonny Levin. O projeto recebeu uma bolsa de quatro anos, no valor de US$ 8,2 milhões (cerca de R$ 44 milhões), do Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano (NICHD), dos Estados Unidos.
Como funciona
A pílula não usa hormônios. O composto age bloqueando uma enzima chamada adenilil ciclase solúvel (sAC). Essa enzima está presente no interior do espermatozoide e é essencial para que ele consiga nadar após a ejaculação.
Ao inibir temporariamente a sAC, os espermatozoides ficam imóveis. Com isso, não conseguem percorrer o trato reprodutivo feminino até o óvulo para fecundá-lo.
A estratégia é diferente de outros anticoncepcionais masculinos em desenvolvimento. A maioria das pesquisas busca reduzir a produção de espermatozoides ou bloquear sua passagem. Esses métodos demoram semanas para fazer efeito e outras semanas para serem revertidos.
No caso dos inibidores de sAC, o efeito é rápido, de curta duração e totalmente reversível. O composto age sobre os espermatozoides que já existem, sem interferir na testosterona.
O que os testes já mostraram
Os primeiros resultados da estratégia foram publicados na revista Nature Communications em 2023. No estudo, feito com camundongos, uma única dose de um inibidor de sAC paralisou os espermatozoides dos animais por até duas horas e meia.
Os camundongos tratados não engravidaram as fêmeas, apesar de acasalarem normalmente. Até o momento, nos estudos realizados com animais, nenhum efeito colateral foi observado, segundo os pesquisadores.
A equipe afirma que ainda são necessários testes em seres humanos para confirmar a segurança e a eficácia do composto.
O que falta
O próximo passo é um ensaio clínico de fase 1, controlado por placebo, em homens saudáveis. Os participantes receberão o medicamento ou um placebo e serão monitorados para efeitos colaterais.
Amostras de sêmen dos dois grupos serão testadas para mobilidade espermática, ou seja, a porcentagem de espermatozoides que nadam e a qualidade do movimento. O estudo também vai verificar se o efeito de imobilização é temporário.
O financiamento atual cobre o desenvolvimento de uma formulação oral, o estabelecimento de protocolos de fabricação e a avaliação de segurança. A expectativa da equipe é iniciar os testes em humanos em menos de dois anos.
Contexto da contracepção masculina
Hoje, as opções contraceptivas para homens se resumem a preservativos e vasectomia. Cerca de metade de todas as gestações no mundo não são planejadas, segundo dados citados pela Weill Cornell Medicine.
Como resultado, o fardo da contracepção recai em grande parte sobre as mulheres. Muitas dependem de contraceptivos hormonais de uso prolongado, que podem apresentar diversos efeitos colaterais.
A proposta da pílula sob demanda é dar aos homens uma opção de uso pontual, sem a necessidade de administração diária ou de procedimentos cirúrgicos.
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