Israel é atualmente o país mais impopular do mundo. A conclusão é de uma pesquisa global realizada pela consultoria americana Morning Consult, que ouviu mais de 40 mil pessoas em 53 países entre fevereiro e março de 2026.
O saldo de aprovação líquida de Israel é de -52 pontos percentuais. Isso significa que a diferença entre a porcentagem de pessoas com opinião favorável e a de pessoas com opinião desfavorável é negativa em mais da metade da escala. A Rússia aparece em segundo lugar (-46), e os Estados Unidos, em terceiro (-26).
A impopularidade histórica de Israel, no entanto, não é fruto do acaso. Ela é a tradução numérica de uma realidade documentada diariamente por organizações internacionais, imprensa independente e agências da ONU: a guerra na Faixa de Gaza, que já dura 20 meses, matou dezenas de milhares de civis e soterrou sob os escombros qualquer pretensão israelense de liderança moral.
Guerra em números: mais de 50 mil mortos, 2 milhões deslocados
O conflito foi desencadeado após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 pessoas em território israelense. A resposta de Israel, no entanto, foi desproporcional, segundo críticos e organismos internacionais.
Dados do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas mas considerados confiáveis por organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a ONU, indicam que mais de 50 mil palestinos foram mortos desde o início da ofensiva israelense. Desse total, cerca de 40% são crianças e mulheres.
Além disso, mais de 110 mil pessoas ficaram feridas. A infraestrutura de Gaza foi devastada: hospitais foram bombardeados, escolas convertidas em abrigos improvisados foram atacadas, e a população civil foi empurrada para o sul da Faixa em repetidas ordens de evacuação.
Jornalistas mortos: o cerco à informação
Um dos capítulos mais sombrios da guerra é o assassinato sistemático de jornalistas. Segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), sediado em Nova York, pelo menos 210 jornalistas e profissionais da mídia foram mortos desde 7 de outubro de 2023. Desses, 193 eram palestinos, 8 israelenses e 3 libaneses.
O Sindicato dos Jornalistas Palestinos, por sua vez, eleva o número para mais de 220 mortos. Entre as vítimas estão repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e motoristas de transmissão. Muitos estavam claramente identificados com coletes e capacetes de imprensa no momento dos ataques.
A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) protocolou duas denúncias contra Israel no Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra contra jornalistas. A RSF documentou ataques deliberados a veículos de imprensa, escritórios de mídia e até mesmo abrigos onde jornalistas estavam hospedados.
Entre os casos de maior repercussão está o assassinato da jornalista Shireen Abu Akleh, da Al Jazeera, morta em maio de 2022 na Cisjordânia. Durante a guerra atual, nomes como Issam Abdallah, da Reuters, e Sari Mansour, da Al Jazeera, também foram mortos em ataques israelenses.
Impunidade e obstrução
O governo israelense sistematicamente impede a entrada de jornalistas internacionais em Gaza. Desde os primeiros meses da guerra, Israel barrou a imprensa estrangeira de entrar no território palestino, a menos que acompanhe as Forças de Defesa de Israel em operações controladas.
Dessa forma, a cobertura jornalística independente tornou-se quase impossível. A maior parte das imagens e relatos que chegam ao mundo vem de jornalistas palestinos que arriscam suas vidas para documentar os bombardeios. Muitos deles pagaram com a vida.
Em resposta, a Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) classificou a guerra em Gaza como “o conflito mais mortal para jornalistas desde que a organização começou a contabilizar”. A entidade também acusou Israel de violar sistematicamente as resoluções do Conselho de Segurança da ONU que protegem profissionais da imprensa em zonas de conflito.
Ações judiciais internacionais
A impopularidade de Israel não se restringe à opinião pública. No plano jurídico, o país enfrenta acusações formais de genocídio na Corte Internacional de Justiça (CIJ). A África do Sul abriu um caso contra Israel em maio de 2024, e a corte determinou medidas provisórias que incluíam a suspensão das operações militares em Rafah.
O Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e o ministro da Defesa Yoav Gallant. Os dois são acusados de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, incluindo o uso da fome como método de guerra e ataques desproporcionais contra a população civil.
Apesar disso, Israel continua recebendo armas e apoio diplomático dos Estados Unidos, que já vetou diversas resoluções de cessar-fogo no Conselho de Segurança da ONU.
Impopularidade recorde
A pesquisa da Morning Consult reflete esse isolamento crescente. Nas Américas, Israel enfrenta índices de desaprovação expressivos. No Brasil, 68% dos entrevistados afirmaram ter visão desfavorável do país.
Nos países do Oriente Médio e Norte da África, a impopularidade chega a 87%. Na Turquia, 93% dos entrevistados desaprovam Israel. No Egito, que tem acordo de paz com os israelenses desde 1979, o índice é de 86%.
Mesmo entre os países aliados tradicionais, a imagem de Israel se deteriorou. Na Espanha e na Irlanda, a desaprovação ultrapassa 60%. Na França, 54% dos entrevistados têm visão desfavorável.
Nos Estados Unidos, a divisão partidária é gritante: 70% dos republicanos aprovam Israel, mas apenas 35% dos democratas compartilham da mesma opinião.
Críticas à ocupação e ao direito internacional
Organizações de direitos humanos, como Anistia Internacional e Human Rights Watch, já classificaram as práticas de Israel nos territórios ocupados como “apartheid”. A ocupação da Cisjordânia, a anexação ilegal de terras e a expansão de assentamentos judeus são constantemente condenadas pela Assembleia Geral da ONU.
A guerra em Gaza apenas aprofundou essa percepção. O cerco total imposto por Israel ao território, com a interrupção da entrada de água, comida, combustível e eletricidade, foi classificado pelo relator especial da ONU para os territórios ocupados como “um ato de genocídio”.
A impopularidade recorde, portanto, não é um fenômeno passageiro de opinião pública. Ela é o reflexo de uma política de Estado que, ao longo de décadas, desrespeitou sistematicamente o direito internacional, silenciou a imprensa e matou civis em escala nunca antes vista na história recente do conflito.
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