O cenário municipal partidário de Goiás aponta maioria de prefeitos ligados a siglas que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL), mas, passadas as eleições que reelegeram Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as manifestações de gestores indicam que a relação com o governo do petista deve seguir pela via institucional. Dos 246 municípios, 212 são comandados por partidos do campo contrário ao Governo Federal; 17 estão em legendas que apoiaram Lula e outros 17 em siglas sem posição nacional fechada ou com alinhamento dividido. A conta dimensiona o ambiente político, mas não revela o voto ou a conduta individual de cada prefeito.
O levantamento considera a legenda pela qual os gestores foram eleitos ou assumiram o cargo até 27 de outubro de 2026. Os 47 municípios do MDB foram incluídos no grupo de Flávio porque o diretório goiano, liderado pelo governador Daniel Vilela, apoiou o candidato do PL. Nacionalmente, o partido se dividiu entre diretórios estaduais favoráveis aos dois candidatos.
Mapa das prefeituras (imagem na pasta)
- Partidos que apoiaram Flávio: 212.
- Partidos que apoiaram Lula: 17 — PT (3), PDT (11) e PSB (3).
- Siglas sem posição nacional fechada ou divididas: 17.
- Maiores bancadas: União Brasil (95), MDB (47), PL (27) e PP (25)
O mapa partidário é um indicador de contexto, não uma declaração individual de apoio. Prefeitos precisam negociar recursos, convênios e programas federais, qualquer que seja o resultado presidencial. Saúde, habitação, saneamento e infraestrutura dependem de articulação entre União, Estado e municípios; parlamentares também participam dessa interlocução. Assim, diferenças ideológicas convivem com a cooperação administrativa.
Diálogo como instrumento de gestão
Marden Júnior (União Brasil), prefeito de Trindade foi um dos que defendeu que a eleição não interrompe, ou não deve interromper, a agenda de trabalho. “A eleição terminou, e agora é hora de trabalhar ainda mais. Respeitamos a decisão soberana das urnas e esperamos que o presidente Lula governe para todos, sem distinção partidária”, afirmou. Ele defende a relação republicana e cita saúde e infraestrutura como prioridades. “Nós vamos continuar defendendo os interesses do município de Trindade acima de tudo.”
A fala sintetiza o cálculo: reconhecer o resultado, cobrar igualdade no acesso aos programas e manter os interesses locais em primeiro plano. O teste é transformar diálogo em serviços e obras, identificando quem financiou cada entrega.
Em Senador Canedo, também governada pelo União Brasil, Fernando Pellozo cita projetos federais em andamento. “Como prefeito, minha responsabilidade é cuidar de Senador Canedo e manter uma relação institucional com todos aqueles que possam contribuir com o desenvolvimento da nossa cidade”, disse. O município recebeu recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para saneamento, com obras próximas do início; entregou uma Unidade Básica de Saúde; está na fase final de construção de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS); e deve começar neste ano a entrega de 384 apartamentos do Minha Casa, Minha Vida.
“A nossa expectativa é de que esse diálogo continue e que possamos avançar ainda mais nos próximos anos”, afirmou Pellozo. As parcerias citadas envolvem saneamento, saúde e moradia. Anúncio, início de obra e entrega são fases distintas, e a disputa pelo crédito pode envolver prefeitura, governo federal, Estado e parlamentares.
As grandes cidades ampliam a cobrança
Nenhuma das dez cidades mais populosas de Goiás é comandada por partido do grupo que apoiou Lula. Goiânia (com população de 1.511.709), sob Sandro Mabel (União Brasil); Aparecida de Goiânia (560.996), com Leandro Vilela (MDB); e Anápolis (424.647), com Márcio Corrêa (PL), são as três maiores. Águas Lindas, Rio Verde, Luziânia, Valparaíso, Senador Canedo, Trindade e Catalão completam a lista, sob gestores do União Brasil ou MDB.
A escala dessas cidades amplia a demanda por investimentos federais em moradia, saúde, saneamento e mobilidade. Por isso, o diálogo será medido menos pela cordialidade pública e mais por projetos aprovados, cronogramas e entregas percebidas pelos moradores.
Na Cidade de Goiás, o prefeito Aderson Liberato Gouvêa, do PT, celebrou a vitória em tom político. “Seguimos celebrando com o coração cheio de emoção, alegria e esperança! Uma celebração pela democracia, pela cidadania, pela liberdade e pela força do povo brasileiro!”, declarou. Ele disse que a caminhada continua “pela democracia, pela cidadania, pela liberdade e pelo povo brasileiro”. Sua manifestação contrasta com o tom institucional de Marden e Pellozo, mas mostra que posições políticas distintas continuarão presentes no mapa goiano. O PT também governa Itapuranga e Professor Jamil.
A janela até 2028
Os próximos dois anos são uma janela curta para obras grandes, mas podem destravar projetos, assegurar repasses e formar balanços de gestão. Com a eleição municipal de 2028 no horizonte, tende a crescer a disputa pelo crédito: prefeitos podem destacar a articulação local, enquanto o governo federal associará entregas a seus programas. Informar valores, origem dos recursos e responsabilidade de cada ente ajuda a separar anúncio de resultado.
O que acompanhar
- Se as obras de saneamento em Senador Canedo começam.
- A entrega dos 384 apartamentos e a conclusão do CAPS.
- A continuidade de convênios em cidades governadas pela oposição.
- Como União, Estado, municípios e parlamentares dividem o crédito.
À luz dos números e das falas, o caminho provável é pragmático: disputa no discurso e cooperação em projetos de interesse local. Romper com o Planalto pode reduzir oportunidades de investimento; aproximar-se administrativamente não apaga alianças e diferenças ideológicas. Aos prefeitos caberá cobrar sem fechar pontes e demonstrar benefícios. Ao governo Lula, manter canais abertos também nas cidades onde a maioria política apoiou seu adversário.











