Um estudo divulgado na última semana pela PIRLS (Estudo Internacional de Progresso em Leitura) mostrou que a maioria dos alunos brasileiros apresentaram os piores índices de habilidades básicas de alfabetização em leitura. O estudo foi desenvolvido pela Associação Internacional para a Avaliação de Conquistas Educacionais para avaliar a proficiência em leitura de alunos do quarto ano de escolas primárias em 57 países.
Essa foi a primeira vez que o Brasil participou desse estudo e ocupou o 5ª lugar de pior país no ranking de habilidade de leitura, em razão de apenas 13% das crianças terem demonstrado proficiência em leitura no exame. É importante reconhecer que o país enfrenta desafios significativos na área da educação, incluindo a alfabetização em leitura. Existem disparidades na qualidade da educação entre diferentes regiões do país, bem como entre áreas urbanas e rurais.
Há quase 30 anos trabalhando com formação de professores da Universidade de Brasília (UNB), a doutora em Linguística e Língua Portuguesa Ormezinda Maria Ribeiro avalia a situação como o primeiro passo para que o país possa criar meios de incentivar a leitura.
“Não é de hoje que o Brasil tem sido colocado lá em baixo em pesquisas de nível internacional. Tem muito tempo que essa é a realidade, não é uma coisa que olha aconteceu por causa da pandemia, não é. É uma situação que vem crescendo e é isso que eu acho que é preocupante. A pandemia, obviamente, paralisou o mundo, mas ela não pode ser a causa de tudo isso. O resultado já vem acontecendo e esse é um momento importante para voltarmos o nosso olhar para a valorização da educação”, pontua.
De acordo com Ormezinda, é preciso desenvolver ações eficazes para que a educação básica possa, de fato, funcionar nas escolas. “A Educação Básica deveria ser realmente a menina dos olhos da educação”, ela complementa indicando que é crucial promover a leitura desde a infância, incentivar a formação de parcerias entre escola, família e comunidade com intuito de garantir o acesso a materiais de leitura de qualidade.
Desafios da alfabetização em leitura
Assim como foi pontuado por Ormezinda Maria Ribeiro, o acesso a recursos educacionais adequados, a formação de professores e o apoio aos estudantes são questões importantes que podem afetar o desempenho dos alunos para a leitura. As desigualdades se tornaram mais evidentes com a pandemia do Covid-19, quando o mundo teve que repensar a forma de aprendizado das crianças. Ainda há reflexos de atrasos no ensino, por conta desse período pandêmico que o mundo inteiro viveu.
Estudos como esse, realizado a cada cinco anos desde 2001 pela Associação Internacional para a Avaliação do Desempenho Educacional, são importantes para apontar os rumos que a educação tem se voltado em todo o mundo. Ter habilidades básicas de alfabetização em leitura significa que os alunos são capazes de compreender textos simples e realizar tarefas básicas relacionadas à leitura.
Apesar de o estudo ser limitado a 57 países e essa ser a primeira vez que o Brasil aparece, não seria possível fazer comparativos com edições passadas e nem com outros países da América Latina. O diretor de Políticas Públicas da ONG Todos pela Educação, Gabriel Corrêa, destaca que a posição do Brasil nesse estudo revela muito mais do que um déficit de leitura. “Não só estamos entre os últimos do ranking, como temos um dos maiores índices de desigualdade entre os estudantes”, destacou.
A avaliação das habilidades de leitura pelo PIRLS procura contemplar dois eixos: a experiência literária e a aquisição e uso da informação. Para a análise dos resultados, o estudo também considera fatores contextuais que podem influenciar o desempenho de leitura, mediante a aplicação de questionários aos estudantes, professores, diretores e pais ou responsáveis.
PREOCUPAÇÃO
O Estudo Internacional de Progresso em Leitura, diz que apenas 13% das crianças brasileiras têm um nível adequado de habilidades de leitura. Essa estatística é alarmante e revela a necessidade urgente de melhorar o ensino da leitura no país.
A cofundadora e presidente executiva do Todos Educação, Priscila Cruz, chama atenção para a situação econômica como um divisor sério da educação. “Alunos mais ricos têm acesso a outras oportunidades para aprender. Eles vão a museus, ao cinema, têm um vocabulário dentro de casa que é muito mais rico, têm aquele tio advogado que, de vez em quando, aparece em casa e fala, uma oportunidade de viajar, de viver outras experiências. Temos o exato oposto com os alunos mais pobres”, pontua Cruz.
É fundamental investir em recursos educacionais, formação de professores e programas de incentivo à leitura para garantir que as crianças adquiram as habilidades de leitura necessárias para um futuro educacional promissor.
Aplicação inédita
A aplicação dos instrumentos do PIRLS no Brasil abrangeu uma amostra de escolas públicas e privadas de todo o território nacional, conforme diretrizes amostrais e critérios estatísticos estabelecidos pela IEA, mantendo a padronização do estudo entre os diferentes países integrantes. Participaram da avaliação 4.941 estudantes do 4º ano do ensino fundamental de 187 escolas públicas e privadas de todas as regiões do Brasil, no período de 26 de novembro a 3 de dezembro de 2021. O PIRLS realiza aplicações em formato eletrônico e em papel, sendo que os países participantes podem optar pelo formato. No Brasil, os testes e questionários foram aplicados em papel.















