Nesta entrevista corajosa, a vereadora Aava Santiago, que também preside o Diretório Municipal do PSDB, avalia seu partido a partir das críticas do ex-senador Aloysio Nunes, que, segundo ela, não devem ser ignoradas; faz críticas ao presidente nacional do PSDB, Eduardo Jorge, e culpa Aécio Neves por muitos reveses que o PSDB sofreu nos últimos anos. Ela não poupa sequer os dirigentes evangélicos em sua análise, a quem chama de adesistas, mas defende a participação de religiosos na política. E para explicar esse movimento, ela retroage aos anos 80 e 90, quando os evangélicos se viram discriminados por uma esquerda elitista e empurrados para a extrema direita, atraídos pela pauta moral.
Tribuna do Planalto – Na semana passada, o ex-senador Aloysio Nunes, em entrevista ao Estadão, fez duras críticas ao PSDB; falou que o partido não é nada e que a sigla faliu. Críticas que provocaram reações dentro do partido. Como a senhora recebeu essas críticas?
AAVA SANTIAGO – Eu acho que a história do senador Aloysio Nunes, o que ele significa para o partido e para Brasil é de uma grandeza que não pode ser entendida como uma leitura desprezível; pelo contrário foi signatário da penúltima disputa que o partido fez para a Presidência da República. É muito importante garantir o trânsito do partido com determinados segmentos da esquerda, e ele faz isso por conta de sua militância junto a Carlos Marighella, e acho que o senador Aloysio Nunes, quando fala, precisa ser ouvido e a sua leitura precisa ser destrinchada em camadas. Até porque os partidos que fazem o movimento hermético e ficam tão exclusivamente com aquilo que parte de sua liderança mais vaidosa entende que seja a leitura hegemônica geralmente são induzidos ao erro. Estamos falando do PSDB, mas posso pegar um exemplo recente do Partido dos Trabalhadores em 2018, quando aceitou manter aquela candidatura tríplice, sabendo que o presidente Lula não poderia ir às urnas, mantendo dois vices, Fernando Haddad e Manuela D’Ávila, – o que, na minha avaliação, foi muito desrespeitoso, principalmente com a Manu. Sabíamos que era para aquecer a militância, mas, hoje, vemos que, se desde o início, o nome do Haddad tivesse sido trabalhado – ao contrário do que diziam houve um segundo turno competitivo – talvez não tivéssemos que enfrentar o desmonte das instituições, dos direitos, das conquistas e dos avanços que vamos levar duas gerações para reconstruir. Isso por causa de uma leitura cética da cúpula do partido. Estou pegando o exemplo ao lado, do Partido dos Trabalhadores, para trazer para cá e dizer que não, não temos que desprezar a leitura do Aloysio e nem tomá-la como absoluta. E aqui, como uma uma pentecostal, permita-me fazer uma metáfora bíblica: como diz o apóstolo Paulo, “examinai tudo, retende o que é bom”. Tem pontos que são significativos, importantes e necessários para o partido se entender. Por outro lado, não acho que tenha como afirmar com um partido que tem a importância para a história recente do Brasil possa ser entendido como um partido fora do combate. Há nove anos esse partido teve mais de 50 milhões de votos numa eleição presidencial, a de 2014; já governou boa parte dos estados brasileiros. Vocês vão viver de passado, de história? Não é isso! Nós construímos pilares para o Brasil que ainda são os pilares usados pelos agentes que estão aí e já vimos a história da política brasileira, tanto em nível nacional quanto em disputas locais, quadros e partidos parecerem mortos, fora de combate, se reorganizar e voltar. É muito importante para a democracia que nenhum partido seja hegemônico, que nenhum partido seja o maior ou um dos maiores sempre, que tenha reveses, que tenha que se reconectar, que tenha que se re-enxergar, porque isso permite o surgimento de novos quadros, de novos debates, novas siglas e permite que os próprios partidos tenham a oportunidade de se reorganizar internamente.
Por que a senhora não participou do encontro “Diálogos Tucanos pelo Brasil” em Goiânia, que teve a participação do governador Eduardo Leite?
Não porque eu estou articulando uma frente nacional de evangélicos pela justiça a pedido do presidente Lula, porque nós evangélicos seremos 100 milhões de pessoas daqui quatro anos. Não tem como entender tanta gente apenas como um segmento a se preocupar no período da eleição. E eu já estava fechada para falar em um painel sobre isso na cidade do Rio de Janeiro e não tinha como eu desmarcar.
O ex-senador Aloysio Nunes afirmou na entrevista que Eduardo Leite deve, sim, ser o candidato a presidente da República pelo partido, mas que antes disso ele precisa tomar conta do partido. Ele também defendeu o deputado federal Aécio Neves. Como avalia as duas gestões à frente do PSDB?
Eu divirjo profundamente do senador Aloysio Nunes em relação ao Aécio Neves, acho que ele é uma das figuras mais nefastas para a história do partido, foi um péssimo presidente do PSDB e acho que boa parte do processo de cupinização das instituições começou ali, o germe golpista estava ali no Aécio quando ele pediu a recontagem de votos, e depois o Carlos Sampaio teve que vir a público para dizer que as urnas são confiáveis. Sempre foram confiáveis e, infelizmente, não é com nenhum orgulho que eu digo isso, o PSDB tem a sua contribuição – ainda que tenha pedido a recontagem de votos e aceitado esse resultado – para o que veio a se tornar o período mais nefasto da história do Brasil desde a redemocratização, que foi o governo Bolsonaro. Aécio foi movido pelo rancor dessa derrota eleitoral que teve. Eu votei no Aécio em 2014, fiz campanha, fui pra rua porque eu realmente não achava que o projeto da Dilma Rousseff era o melhor projeto, era o mais sustentável e eu acredito piamente que o PT cometeu estelionato eleitoral e tentou cometer o crime de assassinatos de reputação contra a Marina Silva naquela eleição. Mas ainda assim, mesmo com todas as críticas que tenho à forma como o PT conduziu o processo em 2014, sempre achei profundamente equivocada a conduta de Aécio. Depois ele se tornou o principal aliado, primeiro do ex-presidente Michel Temer na interlocução com partido, arrastando o PSDB para distante daquilo que o partido havia construído em matéria de projetos de país, e depois foi responsável por chafurdar boa parte da bancada do partido na lama, fazendo com que o partido votasse junto com Jair Bolsonaro em matérias de interesse do governo federal. Acho que Aécio deveria ter sido expulso lá atrás, na época das suspeitas quase que comprovadas de envolvimento com os irmãos Friboi e com todo aquele esquema revelado pela Lava Jato. E olha que eu não sou nem um pouco lavajatista.
Sobre a gestão de Eduardo Leite, como a senhora avalia?
O Eduardo comete erros e isso é bem genérico porque todo mundo comete erros. Eu senti isso aqui, dando uma olhada nas falas dele aqui. As pessoas se referindo a ele ou como candidato a presidente ou até mesmo como presidente. Isso é um problema porque, primeiro, ele precisa governar o Rio Grande do Sul para chegar forte como um presidenciável realmente competitivo. Ele precisa ser recordista de votos no estado dele, onde governa. Segundo, não se governa um partido como o PSDB apenas entregando para os estados e municípios aquilo que se acha que precisa ser construído. Eu não tenho problema em dizer isso publicamente. Eu fiquei sabendo do evento aqui pelo presidente estadual, Marconi Perillo, que é uma das figuras mais compartilhadoras de decisão em matéria de partido político com quem eu já tive o prazer de conviver, é um líder muito agregador e assim que ele soube que o Eduardo viria aqui me procurou para construirmos isso juntos. O Eduardo não me ligou nem a equipe do Eduardo, nós não ajudamos a construir essa data, porque, se tivéssemos, eu teria pontuado que não estaria aqui e queria muito participar. Eu apoiei o Eduardo nas prévias, Marconi apoiou o Dória, abri essa divergência aqui enquanto os principais quadros do partido apoiaram o Dória. Eu fui ao Rio Grande do Sul, em dezembro, a convite do Eduardo, só eu do Centro-Oeste fui chamada para uma reunião com dez pessoas. E quando estive lá com ele falei que ele precisava compreender que o PSDB não é mais um partido que tem uma agenda pronta. É um partido que está em refundação e precisa ser recosturado na base. Infelizmente, essa reflexão ainda não foi assimilada, e eu entendo que ela não tenha sido assimilada porque ele está presidindo um partido com vários gargalos e governando o estado difícil, onde teve um segundo turno sangrento. Entendo que não seja fácil. Entretanto, ele terá, como presidente, que pensar alternativas para isso, quem vai ser o time que ele vai escalar, quem ele vai chamar para tocar essas agendas, especialmente onde o PSDB tem protagonismo. Eu sou a única parlamentar do partido na capital em que ele veio, sou a primeira mulher a presidir o partido, sou a única tucana a participar do governo de transição e não faz sentido eles não terem me acionado para uma conversa sobre essa agenda para me consultar sobre o que Goiânia precisa discutir nesse momento. Porque importam um negócio que está relativamente prefabricado e quando vai se colocar em prática os brasis são muito distintos. Vem com um negócio extraordinário, mas aqui é outra coisa. Nesse sentido eu acho que faltou não sei se sensibilidade ou experiência ao Eduardo para fazer dessa forma.
A senhora tem falado em uma frente progressista para disputar as eleições municipais. Quais partidos comporiam essa frente?
Nem sou eu que falo, as pessoas que fazem essa leitura talvez como um rescaldo do que aconteceu no segundo turno de 2022, quando o PSDB de Goiânia foi o único que apoiou o presidente Lula oficialmente. Não fui eu, a presidenta, que apoiei; a nossa executiva deliberou por isso no segundo turno. Eu apoiei logo no primeiro. Talvez tenha-se essa essa visão no horizonte. Eu penso muito mais em agendas em comum: quais são as urgências do país e quais são as urgências da cidade. E isso me posiciona em um lugar da política e é uma coisa que quem acompanha a política goianiense tem uma leitura muito clara até hoje. O líder do prefeito e outros vereadores, numa discussão muito acalorada que tivemos na Câmara, mencionaram que me admiram e me respeitam porque tenho um lado e construo com elegância a minha agenda desse lado. Isso pode soar como uma vontade de fazer uma frente progressista, mas eu tenho pensado se a palavra progressista é a mais adequada. Acho que é mais uma frente de interesses comuns, de redução das desigualdades que pode ter quadros excelentes que estão no campo da política partidária à direita que concebem essa agenda, que não se reconheçam como progressistas, mas que queiram construir essa agenda em comum, pensando quais são as principais urgências da cidade. Como isso vai avançar para um debate eleitoral eu não sei porque são movimentos distintos. Acho que chega vazio no debate eleitoral e vimos isso acontecer na eleição de 2020, quando havia mais de dez candidatos à prefeitura e, no final, prevaleceu o elemento da inexperiência porque ninguém trouxe uma novidade. Já que não tem uma agenda definida de prioridades para a cidade, vamos cuidar da experiência, que é o que nos resta como moeda de salvação. Precisamos avançar em pautas. O debate sobre a cidade está profundamente esvaziado, girando em torno de nomes e isso é importante para aquecer o bastidor da política, mas isso não só não gera engajamento social e coletivo, como também não leva as pessoas a refletir sobre quais serão as candidaturas que elas querem, porque elas só veem um monte de nomes soltos na arena e não veem compromissos programáticos em relação a esses nomes.
Uma agenda mais progressista de alguma forma vai de encontro às aspirações de seu eleitorado mais evangélico?
Não porque tudo que eu tinha para arrebentar eu já arrebentei. Tem um um filósofo da antropologia, Jacques Derrida, que fala sobre a différance, que é pertencer a dois lugares e, ao mesmo tempo, lidar com a rejeição nesses dois lugares. Eu perdia muitos votos entre os evangélicos que diziam que eu era de esquerda demais e perdi muitos votos entre os progressistas porque era muito evangélica, muito crente. Ela é tucana; no meu caso são três lugares, três cruzes para carregar. Eu aprendi a identificar o meu eleitor como alguém que aposta na capacidade de pluralidade da política. Esse é o meu eleitor, aquele que sabe que eu posso defender a família e os direitos humanos e que essas coisas não se contrapõem, aquele que sabe que é importante que eu esteja no PSDB para disputar internamente esse partido, porque se eu não disputar quadros que podem arrastar um partido dessa importância para história nacional para a direita vão ocupar esse lugar. Se eu não estivesse presidindo esse partido em 2022, esse partido não teria apoiado o Lula em Goiânia.O meu eleitor acompanha esse raciocínio. Eu tenho um eleitorado evangélico grande, mas ele não é institucional, eu não tenho apoio de uma igreja. Eu fui candidata a deputada federal, a minha igreja, que eu amo, o pastor que eu amo, as pessoas que eu amo apoiaram outro candidato, o Glaustin da Fokus, que tem uma diferença gigantesca da minha plataforma política. Eu tive muita tranquilidade para entender isso porque eu não poderia dar para essa igreja aquilo que corriqueiramente se exige de candidatos apoiados institucionalmente pela igreja. Eu não posso dizer: igreja, me apoia, e depois não dou o que a igreja quer, porque também seria desleal da minha parte. Parlamentares que foram eleitos dessa forma não têm autonomia sobre o voto deles. O bispo liga, o pastor liga e eles votam dessa forma; as pautas deles são construídas exclusivamente pela igreja, as emendas que eles destinam são para projetos exclusivamente da igreja. Eu destino emendas para projetos da igreja, mesmo a igreja não tendo me apoiado, mas eu destino emenda para a diversidade, para a universidade e essa liberdade é uma das grandes conquistas de ter assumido com franqueza quem eu sou na fila do pão, entendido dos prejuízos que isso me causa, mas também coletando os bônus de poder transitar onde eu acredito, sem ter prejuízo com isso
Como socióloga, como a senhora vê a participação de representantes de igrejas e de religiões na política?
Não tem como responder isso sem voltar nos anos 80 e 90. Temos um fenômeno evangélico no Brasil dividido em denominações e em tradições e a partir do pentecostalismo – que é o lugar que eu pertenço, sou uma mulher da Assembleia de Deus, sou uma mulher pentecostal – existiu, durante um tempo considerável, um distanciamento da fé evangélica com a prática política. Quase nenhum evangélico se envolvia com política, o que era entendido como algo pecaminoso e não sendo uma função da igreja. Era sempre lembrado um trecho bíblico que diz que a “nossa guerra não é contra carne e sangue mas contra potestade”. Não devemos disputar o poder humano porque a nossa disputa é espiritual. Isso foi mudando, no início dos anos 90, a partir de uma percepção de que forças de mobilização sociais muito menores, em termos numéricos e também de coesão, elegiam seus representantes e conseguiam colocar seus interesses na agenda pública e os evangélicos ficavam sendo e foram por um tempo a maior força de mobilização desorganizada politicamente no país. Quando perceberam que o sindicalismo podia e que havia representante até de mototáxi pensaram: porque não pode ter da igreja? E esse pressuposto não está equivocado e, ao contrário do que muita gente pensa, não é a antítese do estado laico. O estado laico não impede bancadas religiosas, ele garante que todas as religiões possam cultuar, possam se organizar, possam inclusive disputar eleição e garante que a regra do estado democrático de direito seja um poder moderador que não vai permitir que a os interesses de determinada religião organizada se sobreponham às liberdades individuais e aos direitos de outras práticas de fé. É muito mais complexo do que simplesmente dizer para um pastor que tem mandato que o estado é laico. Esse é um raciocínio simplista e elitista também, que é o segundo ponto da reflexão que eu quero fazer. Boa parte da rejeição que os evangélicos fazem e fizeram ao que se chama de esquerda é porque os interlocutores públicos, essa camada de pensamento da política, nunca quiseram se comunicar com os evangélicos. Eu sou nascida e criada na favela, meu pai era pastor de uma favela no Rio de Janeiro e faleceu voltando de um congresso onde foi pregar. Minha mãe é missionária da Assembléia de Deus, a vida e morte na minha família sempre foi dentro desse lugar. Todos os meus tios são pastores da Assembléia de Deus. Não tem para onde eu correr da minha vida e eu digo com tranquilidade, onde o meu pai pastoreava tinha irmãs do círculo de oração que um filho estava preso e o outro estava morto. Era o policial que tinha morrido por aquele crime pelo qual o outro estava preso. E as duas moravam juntas no mesmo círculo de oração. Aqueles dois moleques tinham crescido juntos, pedindo bênção uma para a mãe do outro e, em determinado momento da vida, a chave virou e as circunstâncias foram mais fortes. Essa é a complexidade do território em que as comunidades pentecostais estão inseridas no Brasil. O pentecostalismo é a maior religião negra do Brasil, porque tem muito mais adeptos negros no pentecostalismo do que nas religiões de matriz africana no Brasil. Não houve essa percepção por parte dos intelectuais de esquerda. Porque a esquerda no início dos anos noventa, e esse foi o problema que inclusive esteve nas primeiras derrotas do presidente Lula, era dividida em duas, a sindical e a esquerda intelectual. E nenhuma dessas duas esquerdas dava contas de entender a dinâmica do povo evangélico, porque o povo estava tão empobrecido que não era sindicalizado, porque o movimento sindical, embora seja um movimento de classe, é um movimento masculino e branco, enquanto as igrejas evangélicas são majoritariamente pretas e femininas na base da pirâmide, mesmo que o topo seja masculino. O movimento sindical não dava conta de entender isso e o movimento intelectual também não. Aí começaram a dizer que éramos alienados porque nos vestíamos daquela forma, porque devolvemos o dízimo, porque tínhamos o nosso próprio linguajar. Tudo isso gerou em nós um ressentimento. Por que essas pessoas acham isso de nós? E elas achavam isso de nós por puro elitismo intelectual, territorial e de raça. E quem mais foi penalizado com isso foi a minha maior inspiração com a política, Benedita da Silva, porque ela vivia sendo questionada na igreja por estar no PT; e no PT por ser evangélica. E foi até recentemente; hoje, finalmente, se fez justiça à grandeza e à estatura que essa mulher e eu posso dizer que Benedita da Silva está quase acima das críticas, mas até recentemente ela não estava. Isso é resultado desse elitismo desses setores da esquerda. Quando teve a ascensão do presidente Lula, os crentes passaram a viver melhor, comer melhor e perdoaram a esquerda temporariamente. Mas não houve, mesmo nesse momento de perdão temporário, um esforço real, orgânico, permanente e continuado de fazer esse diálogo acontecer, de gerar esse sentimento de pertencimento. Sabe qual era a sensação que tínhamos? Olha, vocês estão comendo melhor por causa do Bolsa Família, estão até viajando para os congressos em outras cidades porque estão viajando de avião, os filhos de vocês, mulheres evangélicas, estão na universidade, nossa dívida com vocês está paga, então vocês ficam de boa. Quer dizer, nos alcançaram com a política pública, mas não como agentes sociais, coletivos, de mobilização de pensamento. Isso, infelizmente, entregou os evangélicos na mão da extrema direita. Então vocês não querem conversar com a gente, então vamos fazer sozinhos. Foi quando começou esse fenômeno de mobilização da bancada evangélica. Eu estava na convenção nacional das assembleias de Deus, em 2013, em Brasília, quando o bispo Manoel Ferreira entrou de braços dados com o Gilberto Carvalho, na época secretário-geral da Presidência da República, que havia feito declarações hostis aos pentecostais no Fórum Social Mundial. Naquele momento, a igreja apoiava o PT, mas a base já estava ruindo. Os nossos líderes são adesistas, estão sempre com o poder. Eles estiveram com a ditadura, com o Lula, com todo mundo. Só que durante os intervalos, eles aprofundam crises identidades na base e depois não conseguem reverter. Um exemplo é agora: o Geraldo Alckmin foi na nossa convenção, foi aplaudido de pé, pergunta se algum pastor consegue sustentar isso na sua congregação. Não consegue porque eles passaram quatro anos demonizando o PT e não adianta bater palma para o Alckmin na convenção porque a irmã pobre do coque está radicalizada na ponta. Foi dentro desse balaio de elementos que as bancadas evangélicas começaram a se formar para dizer: já que eles não querem conversar, vamos lhes dizer que tentamos, batemos na porta, apoiamos o candidato deles e eles não quiseram fazer. Agora vamos nos organizar. Porém, no meio disso tudo, surgiu com muita força nos Estados Unidos a pauta moral e muita gente sem ligação real, concreta e orgânica com as demandas dos evangélicos de verdade perceberam na pauta moral uma potência política esvaziada de vivência. Era só chegar na igreja e falar que eu sou contra o aborto, contra as drogas, fazer o terrorismo que eu vou ganhar a eleição. E essa pauta moral corroeu a participação dos evangélicos na política. O ex-deputado João Campos, que eu respeito muito mesmo tendo muitas discordâncias, não é uma farsa. Ele perdeu a cadeira para o Wilder Moraes, falando de família, de segurança pública, sem nunca ter entrado numa delegacia, não sabe quais são os interesses de fato dos evangélicos. Infelizmente, os evangélicos conservadores, que eram sérios, embora discorde deles, perderam as suas bandeiras para esse grupo de oportunistas que resolveu surfar na pauta moral. Aquela bancada da segurança pública, a bancada da bala, que era composta por policial, de delegado, foi substituída por CAC (Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador); tem muito mais youtubers de pauta moral do que bancada evangélica. Durante o governo Bolsonaro, mesmo com a grande adesão da bancada evangélica a quase todas as agendas do bolsonarismo, a bancada evangélica foi importantíssima na discussão do armamento. Porque a bancada evangélica não topou aquela proposta de armamento do Bolsonaro, porque são evangélicos de verdade, estão na base e sabem que são irmãs, mães dos crentes, que estão enterrando os seus filhos; sabem que se liberar a arma é o filho do crente que vai tomar um tiro, é a mãe evangélica que vai chorar. Por mais conservadores que sejam, eles ainda têm vivência, coisa que essa nova bancada da bala e essa nova bancada de costumes não tem.
A senhora é atuante nas redes sociais e nas últimas eleições elas tiveram grande impacto nos resultados das urnas. Daí a eleição de youtubers como o deputado goiano Gustavo Gayer, que não militava na política partidária. Como a senhora vê esse fenômeno? Representa um risco para a representação política com potencial para transformar o processo eleitoral?
Não acho que tem poder de transformar a política, tanto é que Lula ganhou do Bolsonaro, mesmo que de forma apertada, contra toda a campanha de desinformação e o uso dessas plataformas para desinformar. Eu não acho que seja um problema e também não acho que seja normal, é outra coisa. A política sempre teve um delay em relação à novidade. Ela demora a se adequar a novas regras, novos fenômenos, novas formas de organização. Em 2020, eu fui a única candidata, mesmo já autorizado, a fazer o meu shopping eleitoral, com o qual financiei a minha campanha, vendendo camisetas com frases que tinham a ver com as coisas que eu acreditava. Eu vendia camiseta e a pessoa depositava na minha vaquinha on-line. Minhas contas foram rejeitadas no primeiro momento porque a Justiça Eleitoral não entendeu as centenas de doações de R$ 40,00. Tivemos que explicar tudo, pegar todos os recibos e a reprovação virou uma menção honrosa por práticas inovadoras de financiamento eleitoral do TRE. Em 2022 eu continuei sendo a única a fazer aqui em Goiás porque a classe política tem uma dificuldade gigantesca de entender. Eu acho que o problema passa por aí; pela ausência de compreensão de que as plataformas não são apenas mídias de comunicação, são novas formas de se comunicar, têm uma linguagem diferente, têm anseios diferentes. E acho importante a PL que foi denominada das fake news, mas que é de regulamentação, porque ela torna explícito quais são os mecanismos de uso dos números das plataformas. Porque as plataformas te induzem a querer determinado conteúdo, mudam coisas básicas que as pessoas não tem noção e gera comportamento político. É preciso que as plataformas sejam transparentes sobre quais são os mecanismos de produção e de entrega de conteúdo para que a classe política também consiga acompanhar isso e produzir conteúdo que seja regulamentado. O conteúdo eu não tenho medo da internet, eu tenho medo do mau caráter. O mau caráter usa a internet de forma mal caráter. As autoridades brasileiras precisam interferir porque a gente já entendeu que essas plataformas podem decidir uma eleição presidencial.
A senhora acredita na possibilidade de uma aliança com o PT para a eleição de prefeito de Goiânia?
Não acho que seja descartável e, já ocorreu em outros momentos. O PT e o PSDB se uniram na candidatura do professor Pedro Wilson contra Iris Rezende. Não é nada que seja inédito ou que seja impossível, especialmente porque estamos num momento muito bom de conversa. O ex- governador Marconi é muito amigo do vice-presidente, foram governadores juntos pelo PSDB simultaneamente, o Alckmin em São Paulo e Marconi aqui; eu tenho uma relação excelente com o PT e outros quadros dialogam também. Acho que é possível, mas vejo que o PT tem um momento deles, estão discutindo entre eles e não cabe à gente, que é de outros partidos, se precipitar em falar sobre qualquer tipo de aliança com eles, sendo que eles próprios estão lá presos nos seus próprios dilemas.













